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Mundo

O Brasil e o desafio de navegar sob o efeito Trump

Entre pragmatismo e valores democráticos, o Brasil busca equilibrar relações com os EUA sem se curvar a pautas antidemocráticas e autoritárias

Publicado em 22/01/2025 11:00 - Semana On

Divulgação Alan Santos - PR

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Donald Trump, em sua busca constante por reafirmação de poder, novamente recorreu à retórica de desdém e superioridade ao declarar que “o Brasil e a América Latina precisam muito mais de nós do que nós precisamos deles”. O comentário, embora proferido em tom aparentemente casual, carrega implicações profundas, não apenas para a relação bilateral Brasil-Estados Unidos, mas para o equilíbrio de forças no cenário global. A fala ecoa como uma tentativa de reafirmar a supremacia americana em um momento de evidente erosão de sua liderança internacional.

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Para além do impacto imediato, as palavras de Trump colocam em evidência os desafios enfrentados pelo Brasil e pela América Latina na construção de uma diplomacia independente, que transcenda as limitações históricas de dependência econômica e política em relação aos Estados Unidos. “O Brasil não é mais um país periférico em termos de influência global”, afirma Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp. Contudo, resta saber até que ponto o Brasil está disposto – e preparado – para transformar essa posição em liderança efetiva.

Um histórico de assimetrias e avanços

Historicamente, a relação entre Brasil e Estados Unidos foi marcada por uma dinâmica de dependência, iniciada no contexto da industrialização americana e consolidada durante a Guerra Fria. Naquele período, os EUA exerceram influência significativa, apoiando governos autoritários na América Latina, inclusive no Brasil, como forma de conter o avanço de movimentos de esquerda. A lógica do “pátio dos fundos” era evidente e amplamente aceita em Washington, mesmo que a custo de graves violações democráticas no continente.

No entanto, o cenário atual revela mudanças estruturais importantes. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2024, a balança comercial entre os dois países alcançou um equilíbrio inédito, com exportações brasileiras para os Estados Unidos somando US$ 40,3 bilhões e importações atingindo US$ 40,5 bilhões. Esse equilíbrio reflete a evolução econômica brasileira, que passou a exportar produtos de maior valor agregado, como celulose, aeronaves e aço.

Carolina Pedroso observa que “a dependência financeira e política ainda existe, mas é inegável que o Brasil vem construindo um espaço de maior autonomia. A liderança brasileira no Brics é um exemplo claro disso”. A inserção brasileira em blocos como o Brics não apenas diversifica suas relações comerciais, mas também fortalece sua posição em negociações internacionais.

Brics: um novo eixo de poder?

A presidência brasileira no Brics em 2025 oferece ao país uma oportunidade singular de liderar um esforço coletivo para contrabalançar a hegemonia americana. O bloco, que reúne economias emergentes como China, Rússia e Índia, representa hoje cerca de 46% da população mundial e discute alternativas ao dólar como moeda de referência em transações comerciais.

Trump desdenhou a possibilidade de sucesso dessas iniciativas, afirmando que “não há como fazer isso”. No entanto, sua retórica ignora movimentos concretos liderados pela China e pelo próprio Brics, que já desenvolveram mecanismos como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e vêm avançando em parcerias tecnológicas e financeiras. “Os EUA têm uma dependência significativa da China, que detém grande parte dos títulos da dívida americana. Esse paradoxo enfraquece a posição de Trump e reforça a necessidade de uma diplomacia mais flexível”, analisa Antonio Jorge Rocha, professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB.

A disputa pela hegemonia no sistema internacional não é apenas econômica, mas também simbólica. Ao desdenhar o Brics, Trump reforça sua visão de mundo centrada em um sistema unipolar liderado pelos Estados Unidos, visão essa que se torna cada vez mais anacrônica. “O mundo não é mais o do mercantilismo ou da industrialização pesada. Estamos na era da informação, onde dados e serviços prevalecem. A insistência em políticas protecionistas e na exploração de combustíveis fósseis revela um pensamento do século 19”, conclui Rocha.

A resposta brasileira: pragmatismo ou enfrentamento?

Diante das declarações de Trump, o governo brasileiro optou por uma resposta estratégica e moderada. Lula, aconselhado por sua equipe diplomática, escolheu evitar o confronto direto, seguindo a máxima de que a diplomacia, para ser eficaz, deve privilegiar as convergências em vez das divergências. A embaixadora Maria Laura da Rocha resumiu esse posicionamento ao afirmar: “Vamos trabalhar não as divergências, mas as convergências”. Essa postura, embora pragmática, levanta uma questão crucial: até que ponto o Brasil, em nome de uma boa diplomacia, pode e deve tolerar pautas que contrariam valores fundamentais, como a democracia, os direitos humanos e a justiça social?

O governo Trump, ao longo de sua trajetória política, tem sido associado a posturas abertamente antidemocráticas, homofóbicas, xenofóbicas e totalitárias. Declarações que exaltam governos autoritários, discursos contra imigrantes e medidas que minam direitos civis em nome de interesses econômicos são incompatíveis com os princípios defendidos historicamente pelo Brasil em fóruns internacionais, como a valorização do multilateralismo, o combate às desigualdades e a promoção de direitos humanos.

A resposta brasileira precisa ir além do silêncio estratégico e demonstrar que valores democráticos não são negociáveis. É possível ser pragmático sem abdicar de princípios. San Tiago Dantas, importante referência na história diplomática do Brasil, já defendia que a flexibilidade diplomática deve ser pautada pela firmeza de valores. Nesse sentido, um enfrentamento sutil, mas constante, às pautas regressivas do governo Trump é necessário para preservar a integridade e a coerência do papel brasileiro no cenário global. O Brasil não pode se curvar a agendas que negam os direitos de minorias e enfraquecem as bases do Estado de Direito.

O Brasil diante de um novo paradigma global

As declarações de Trump não apenas ilustram a fragilidade da liderança americana, mas também colocam em evidência a urgência de o Brasil consolidar sua posição como uma potência que respeita os valores democráticos e humanistas. Em um mundo cada vez mais marcado por disputas ideológicas, alinhar-se pragmaticamente com lideranças autoritárias ou antidemocráticas pode custar caro à reputação internacional do Brasil e à coesão interna de sua sociedade.

Até que ponto o Brasil pode tolerar, em nome de um realismo diplomático, os ataques de Trump a imigrantes, mulheres, LGBTQIA+ e minorias raciais? A resposta não deve deixar dúvidas: não pode e não deve. Negociar com um governo que adota tais pautas exige discernimento, mas jamais submissão ou relativização de princípios fundamentais. O silêncio, quando não estratégico, pode ser interpretado como conivência, e isso compromete a autoridade moral que o Brasil precisa exercer como ator global.

O Brasil enfrenta uma encruzilhada: ao mesmo tempo em que busca fortalecer relações comerciais e políticas, precisa mostrar ao mundo que sua diplomacia não é apenas um exercício de pragmatismo, mas uma expressão de seus compromissos com a democracia, os direitos humanos e a justiça social. Em um cenário internacional fragmentado, o país tem a chance de se posicionar como um líder ético e responsável, alinhando sua prática diplomática a valores que transcendem interesses imediatos.

Nas palavras do diplomata e jurista Rui Barbosa, “A pior das democracias é preferível à melhor das tiranias”. Essa máxima deve guiar o Brasil em sua relação com governos que, como o de Trump, simbolizam o retrocesso político e social. O protagonismo brasileiro no Brics e sua postura em fóruns multilaterais oferecem uma oportunidade única de demonstrar que, enquanto outros se isolam e regridem, o Brasil está disposto a liderar pelo exemplo, com firmeza e coerência. Afinal, a diplomacia que abdica de princípios não é apenas ineficaz; é também cúmplice do retrocesso.

ERA DA INCERTEZA


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