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Mundo

Nova York vira à esquerda, desafia trumpismo e inspira lições para o Brasil

Derrotas na maior cidade americana, na Virgínia e em Nova Jersey acendem o sinal vermelho para os republicanos

Publicado em 05/11/2025 10:24 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Um muçulmano de 34 anos, nascido em Uganda e forjado nas lutas sociais do Queens, acaba de ser eleito prefeito da cidade mais emblemática dos Estados Unidos com uma agenda de forte apelo social. Ao derrotar figuras poderosas como o ex-governador Andrew Cuomo e o republicano Curtis Sliwa, Zohran Mamdani não apenas conquistou o cargo mais importante da metrópole americana: ele colocou em xeque o equilíbrio político da maior democracia liberal do mundo, expôs os limites do establishment democrata e, sem rodeios, provocou a esquerda global a abandonar o medo de ser o que é.

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Sua eleição, em 4 de outubro, representa um terremoto político com epicentro em Nova York e réplicas em Washington, na Califórnia, na Virgínia e, potencialmente, no Brasil. Ao prometer tarifa zero nos transportes públicos, congelamento de aluguéis e creche gratuita para todas as crianças — e ao propor que esses direitos sejam financiados com aumento de impostos para milionários — Mamdani encarnou um projeto político que não apenas confronta o trumpismo, mas também as concessões neoliberais que corroeram a identidade progressista nas últimas décadas.

O novo rosto da centro-esquerda americana

Zohran Mamdani não é uma figura periférica. Ele é, agora, a face de uma insurgência eleitoral progressista que venceu em três frentes cruciais: além de Nova York, os democratas conquistaram as eleições na Virgínia, com a ex-agente da CIA Abigail Spanberger, e em Nova Jersey, com a deputada Mikie Sherrill. Ambos os casos revelam mais do que um desgaste das políticas de Donald Trump, que completa um ano de seu segundo mandato. Revelam a rejeição crescente a um projeto autoritário, excludente e economicamente insustentável.

O jornal inglês The Guardian foi direto ao ponto: “os Estados Unidos deram uma surra em Donald Trump”. Já o New York Times observou que “a reação chegou”. De fato, o pleito representou a primeira grande derrota do trumpismo desde seu retorno ao poder — uma virada política de peso em um cenário até então marcado por cortes de direitos, perseguições a imigrantes e tentativas sistemáticas de desmonte do sistema eleitoral americano.

Em Nova Jersey, por exemplo, a candidata democrata Mikie Sherrill conquistou 64% dos votos latinos, revertendo o apoio majoritário que esse eleitorado havia dado a Trump em 2024. Na Virgínia, Abigail Spanberger obteve mais de 64% dos votos em distritos antes conservadores e levou consigo outros nomes democratas ao poder. Na Califórnia, uma vitória estratégica: a aprovação de um novo mapa distrital que pode render até cinco cadeiras extras aos democratas na Câmara, em contraposição a manobras similares dos republicanos no Texas.

Contra Trump, mas também contra o próprio partido

Embora Mamdani tenha vencido o adversário republicano e enfrentado ataques diretos do presidente — que o chamou de “comunista lunático” e ameaçou cortar bilhões em recursos federais da cidade —, seus maiores obstáculos vieram de dentro do próprio Partido Democrata. Representante da ala socialista democrática, ele viu setores tradicionais do partido articularem uma operação de isolamento, difamação e contenção de sua campanha.

A razão? Sua vitória foi vista como uma ameaça ao pacto silencioso entre democratas centristas e elites econômicas. “Se alguém pode mostrar a uma nação traída por Donald Trump como derrotá-lo, é a cidade que o viu nascer”, declarou Mamdani na noite da vitória. “E se há uma forma de assustar um déspota, é desmontando as condições que permitiram que ele acumulasse poder.”

A resposta a essa postura foi ilustrativa. Parte significativa do establishment democrata, em vez de apoiar um candidato vitorioso e popular, preferiu sabotá-lo. Como apontou o cientista político Thomas Frank, autor de Listen, Liberal, “os democratas deixaram de ser o partido do povo comum para se tornarem o partido dos profissionais liberais urbanos”. Mamdani quebrou esse padrão.

E foi aí que sua campanha se tornou mais do que uma disputa eleitoral: virou um símbolo de que é possível vencer sem abrir mão de princípios, sem ceder ao marketing político e sem diluir propostas radicais em nome de uma suposta “governabilidade”.

Ecos no Brasil: realismo não é rendição

O Brasil conhece bem esse dilema. Em nome da moderação, a esquerda brasileira muitas vezes abandonou propostas históricas e viu, em troca, o fortalecimento da extrema direita. A vitória de Mamdani reabre um debate crucial: é possível vencer eleições sem renunciar à transformação?

A resposta parece ser sim — desde que as propostas dialoguem diretamente com a vida concreta da maioria. Tarifas justas, moradia digna, direitos sociais e tributação progressiva são pautas compreensíveis, viáveis e com amplo apelo social, especialmente em contextos de desigualdade acentuada.

Como argumenta o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “a esquerda precisa reaprender a falar com o povo, não apenas sobre o povo”. E isso exige coragem para bancar a diferença. No Brasil, propostas como tarifa zero, jornada 6×1 para trabalhadores, ampliação do direito ao aborto e fortalecimento das políticas de cuidado para mulheres e população trans permanecem à margem, não por falta de apoio popular, mas por medo de contrariar os consensos do mercado e da mídia.

O “realismo” virou, como apontam diversos analistas, um eufemismo para recuo. E a busca obsessiva por “centrismo” sufoca a potência transformadora da política.

Uma lição democrática: a ousadia pode vencer

O que Mamdani provou — e sua eleição deixa isso cristalino — é que há espaço para uma esquerda que recuse o cinismo e o cálculo frio como estratégia permanente. Uma esquerda que volte a acreditar que política é, antes de tudo, a arte de transformar a realidade da maioria.

Enquanto o trumpismo aposta na repressão, na concentração de poder e na erosão institucional, a vitória do novo prefeito de Nova York é uma aposta na política como mobilização popular, coragem programática e reconstrução do pacto democrático a partir de baixo.

O desafio agora é sustentar essa agenda em meio à resistência institucional — e, talvez mais difícil ainda, inspirar outras democracias a romperem com o conformismo.

Como diria o filósofo Antonio Gramsci: “O velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, aparecem os monstros”. A eleição de Zohran Mamdani mostra que o novo pode, sim, nascer — desde que tenhamos a coragem de pari-lo.

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