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Mundo

Netanyahu rompe cessar-fogo e ordena novos bombardeios em Gaza

Premiê israelense ignora acordo e retoma ofensiva contra população palestina

Publicado em 28/10/2025 1:18 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Menos de um mês após o início do cessar-fogo firmado com mediação dos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ordenou nesta terça-feira (28) “ataques poderosos” contra a Faixa de Gaza, rompendo oficialmente o frágil acordo firmado em 9 de outubro. A decisão, segundo o governo israelense, foi tomada após a devolução equivocada de restos mortais de um refém pelo Hamas — o que, segundo Tel Aviv, violaria os termos da trégua. O Hamas, por sua vez, acusa Israel de bloquear equipamentos para resgate de corpos sob escombros e manter bombardeios mesmo durante a vigência do cessar-fogo, o que já teria deixado ao menos 90 mortos no enclave palestino.

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O novo capítulo da ofensiva israelense evidencia não apenas a instabilidade do atual acordo, mas o esgotamento de décadas de tentativas fracassadas de uma solução diplomática duradoura. Desde a assinatura dos Acordos de Oslo em 1993, que previam a coexistência de dois Estados, Israel e Palestina caminham por vias cada vez mais opostas, marcadas por avanços unilaterais, ocupações militares e impasses diplomáticos.

Nesta nova escalada, o exército israelense (IDF) suspendeu restrições impostas durante o cessar-fogo e voltou a operar além da linha estabelecida em acordo com Washington. A decisão foi respaldada pelo ministro da Defesa, Israel Katz, após reunião de gabinete. “A escalada dificultará a busca, escavação e recuperação dos corpos”, afirmou o Hamas em comunicado divulgado logo após os ataques.

Crise de reféns como pretexto militar

A alegada entrega incorreta de restos mortais por parte do Hamas serviu como estopim para a retomada dos bombardeios. O governo de Israel alegou que o corpo entregue não pertencia a um dos 13 reféns ainda em poder do grupo, mas sim a fragmentos de um refém já identificado. O episódio reacende o uso político da questão dos reféns por parte de Netanyahu, que desde o início da guerra tem alternado o discurso entre negociações e ofensiva militar.

Especialistas apontam que a administração israelense usa o tema como justificativa para prolongar operações em Gaza. “A manutenção de reféns é moralmente condenável, mas a resposta desproporcional e coletiva contra civis palestinos não pode ser normalizada como ‘direito à defesa’”, analisa o professor Ilan Pappé, historiador israelense da Universidade de Exeter (Reino Unido) e crítico das políticas de colonização.

Parlamento israelense avança com proposta de anexação da Cisjordânia

Enquanto os ataques em Gaza se intensificam, o Knesset — o Parlamento israelense — aprovou em primeira votação uma proposta que visa anexar formalmente áreas da Cisjordânia ocupada. O texto prevê a aplicação das leis israelenses sobre os assentamentos localizados nas regiões de Judeia e Samaria, em clara afronta ao direito internacional e à promessa de não anexação reafirmada por Israel aos EUA.

A medida foi qualificada como “estúpida” pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance, atualmente em visita a Israel para monitorar a execução do cessar-fogo. O próprio presidente Donald Trump — que vinha se apresentando como fiador da trégua — declarou que “Israel não fará nada com a Cisjordânia”, e reiterou em entrevista à Time que, se o plano de anexação avançar, Tel Aviv perderá o apoio norte-americano. “Isso não vai acontecer”, repetiu Trump, três vezes.

Apesar disso, o premiê Netanyahu afirmou que a proposta é uma “provocação deliberada” da oposição, embora a votação tenha ocorrido sob seu mandato e com votos da base governista. A ambiguidade do posicionamento israelense reflete o dilema estrutural do país entre a manutenção de uma democracia formal e o aprofundamento de um regime de apartheid denunciado por diversas organizações internacionais, como a Human Rights Watch.

Realidade de apartheid e colapso da solução de dois Estados

Hoje, a Cisjordânia permanece sob ocupação militar israelense, com mais de 700 mil colonos judeus vivendo em assentamentos ilegais segundo o direito internacional. A área C — que representa 60% do território — é controlada militar e civilmente por Israel desde os Acordos de Oslo. Além disso, há centenas de checkpoints, e um rigoroso sistema de permissões impede o livre deslocamento da população palestina, inclusive o acesso a Jerusalém Oriental.

Já Gaza, sob cerco desde 2007, vive uma das piores crises humanitárias do planeta. Segundo a ONU, mais de 70% da população enfrenta insegurança alimentar grave e colapsos em infraestrutura básica, como água e eletricidade. “A Faixa de Gaza é, essencialmente, uma prisão a céu aberto para dois milhões de pessoas”, declarou o ex-secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em 2016.

Lula critica genocídio e inércia internacional

Em discurso recente na Malásia, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva condenou o “genocídio em Gaza” e a “inércia moral” da comunidade internacional diante do bloqueio à criação de um Estado palestino. “Quase sempre são os jovens que nos recordam que a paz é o valor mais precioso da humanidade”, afirmou Lula, ao receber o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Nacional da Malásia.

A declaração de Lula reforça a crescente insatisfação do Sul Global com a condução da crise no Oriente Médio por potências ocidentais. A política norte-americana, historicamente pró-Israel, encontra agora maior resistência diante das imagens de destruição, das mortes de civis e do fracasso contínuo em promover uma paz sustentável.

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