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Partido do presidente supera projeções e fortalece agenda ultraliberal, apesar de cortes severos em saúde, educação e aposentadorias
Publicado em 27/10/2025 1:09 - Semana On
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O resultado das eleições legislativas de meio mandato na Argentina, realizadas no domingo (26), contrariou as previsões e provocou surpresa no cenário político regional. Com 40,8% dos votos, o partido do presidente Javier Milei, La Libertad Avanza (LLA), conquistou uma vitória expressiva que amplia sua força no Congresso e reforça a viabilidade de sua agenda ultraliberal — mesmo diante de um quadro social marcado por cortes de direitos e serviços públicos essenciais.
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A LLA consolidou a liderança nacional, deixando para trás a principal força de oposição, o bloco peronista Fuerza Patria, que obteve 24,5% dos votos. O resultado não apenas superou em muito as estimativas prévias — que previam desempenho inferior a 35% — como representa um salto político relevante para um governo que, até semanas atrás, enfrentava crescente pressão por sua política de austeridade extrema.
Em termos práticos, a nova correlação de forças no Parlamento permitirá a Milei articular com mais eficácia projetos de reforma econômica, desregulamentação e enxugamento do Estado. O presidente, que antes detinha apenas 15% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 10% no Senado, declarou após o pleito: “Durante os próximos dois anos, temos de fazer avançar o caminho reformista que iniciamos. Teremos, sem dúvida, o Congresso mais reformista da história da Argentina”.
Uma vitória paradoxal
A vitória, no entanto, causa estranheza. Ela ocorre em meio a uma crise social aguda, alimentada pelas próprias decisões econômicas do governo. Em menos de um ano, o ajuste fiscal promovido por Milei desmantelou subsídios históricos, cortou quase pela metade o orçamento da saúde pública, estrangulou financeiramente universidades e reduziu os benefícios de aposentados — atingindo em cheio os setores mais vulneráveis da sociedade.
O paradoxo foi bem resumido pelo analista Gustavo Córdoba, diretor da consultoria Zuban Córdoba: “Muitas pessoas estavam dispostas a dar outra chance ao governo. Veremos quanto tempo a sociedade argentina dará ao governo. Mas o triunfo é inquestionável”.
Especialistas em política argentina identificam na eleição uma combinação de fatores: a desmobilização parcial do eleitorado de oposição, a aposta de setores da classe média em uma estabilização econômica futura e o uso eficaz da narrativa de “ordem via sacrifício”. A taxa de participação foi de cerca de 68% — a menor em mais de uma década, segundo dados da imprensa local.
A vitória de Milei também pode ser lida como um reflexo do esgotamento de parte significativa da sociedade argentina com o ciclo político anterior, especialmente com o kirchnerismo, que governou o país por mais de uma década e deixou um legado ambíguo de políticas sociais com altos custos fiscais e crises recorrentes. Analistas como Sergio Berensztein, em entrevista à BBC News Mundo, apontam que muitos eleitores enxergam em Milei uma ruptura com o “modelo intervencionista e clientelista” associado aos governos de Néstor e Cristina Kirchner. Já a revista Americas Quarterly destacou que, para setores da classe média urbana, o kirchnerismo passou a ser sinônimo de estagnação econômica, corrupção e inflação descontrolada, criando terreno fértil para discursos de corte liberal radical. Nesse sentido, mesmo diante dos cortes sciais promovidos por Milei, parte do eleitorado parece ter optado por arriscar no novo, rejeitando o retorno a um modelo político visto como desgastado.
Reformas com “motosserra”
A agenda de Milei foi descrita pela revista The Lancet como uma série de “reformas com motosserra” — referência direta à intensidade dos cortes. Segundo a Associated Press, o orçamento federal da saúde foi reduzido em quase 48%, com mais de 2 mil funcionários demitidos. Programas de vacinação, distribuição de medicamentos e atendimento emergencial foram afetados. Entidades como a Igreja Católica alertaram para o colapso dos serviços públicos. “Os aposentados merecem vida digna com acesso a remédios e comida”, afirmou o arcebispo de Buenos Aires em sermão citado pela AP News.
No campo da educação, universidades públicas denunciam crise orçamentária e ameaça de colapso. Em setembro, milhares de pessoas saíram às ruas de Buenos Aires pedindo mais verbas para educação e saúde infantil (Reuters). Já o sistema previdenciário vive um momento de forte desgaste. Aposentados perderam poder de compra e enfrentam dificuldades para acessar medicamentos.
Para Milei, no entanto, os sacrifícios seriam necessários. Ele sustenta que o ajuste permitiu controlar a inflação — que caiu de mais de 200% ao ano para 31,8% — e alcançar um inédito equilíbrio orçamentário em 14 anos. O presidente argumenta que agora é hora de “completar as reformas que ainda faltam”, incluindo mudanças nas leis trabalhistas e no sistema tributário.
Reação internacional e apoio de Trump
A reação internacional ao resultado foi imediata. Os mercados financeiros celebraram a vitória com alta nos títulos argentinos e melhora na percepção de risco (Buenos Aires Times). O presidente dos EUA, Donald Trump, com quem Milei mantém relação próxima, parabenizou-o com entusiasmo: “Ele está fazendo um excelente trabalho! O povo argentino justificou a nossa confiança nele”, escreveu na rede Truth Social.
Trump havia condicionado um pacote de ajuda financeira à vitória de Milei. O acordo inclui um swap cambial de US$ 20 bilhões e a promessa de uma linha de crédito adicional de mesmo valor, totalizando US$ 40 bilhões em apoio emergencial.
O que vem pela frente
A grande pergunta agora é como o presidente argentino transformará esse capital político em resultados concretos. A vitória eleitoral cria uma janela de oportunidade, mas não resolve os dilemas estruturais da governabilidade. O Parlamento segue fragmentado e, apesar do avanço da LLA, Milei dependerá de alianças — especialmente com o partido de direita PRO, liderado por Mauricio Macri.
Além disso, paira no ar o risco de ruptura social. Como apontou a cientista política Maria Laura Tagina, da Universidade Nacional de San Martín, “apesar do índice de aprovação de Milei ter sofrido com as medidas de austeridade, a abstenção alta pode indicar que muitos eleitores desiludidos simplesmente ficaram em casa”.
A reeleição de Milei em 2027 já começa a ser ventilada nos bastidores, mas sua permanência política dependerá da capacidade de apresentar melhorias reais — e rapidamente. “Não dá para viver com uma aposentadoria de 290 mil pesos por mês com a inflação atual”, disse à AP a aposentada Epifanía Contreras, 64, em um refeitório popular nos arredores de Buenos Aires.
A frase, dita no dia da vitória de Milei, resume o dilema argentino: entre o desejo de estabilidade e o custo social da política de choque, o governo venceu as urnas — mas ainda precisa vencer a realidade.
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