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Mundo

“Não precisamos deles”, diz Trump sobre o Brasil e a América Latina

Retórica protecionista do presidente americano reforça tensões comerciais e diplomáticas com o Brasil e a região

Publicado em 21/01/2025 2:05 - Semana On

Divulgação Victor Barone - Midjourney

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Brasil e os países da América Latina “precisam mais dos Estados Unidos do que os Estados Unidos precisam deles”. A declaração foi feita ao responder a uma jornalista brasileira sobre a relação entre os dois países, marcando um tom protecionista e unilateral. Trump reforçou a disposição de impor barreiras tarifárias, inclusive ao Brasil, e expressou desconhecimento sobre a proposta de paz para a Ucrânia elaborada por China e Brasil. Em resposta, o governo brasileiro, representado pela secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, manteve um tom conciliador, destacando a busca por convergências e reafirmando os laços históricos de cooperação com os Estados Unidos.

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As declarações de Trump – efetuadas sob o aplauso do bolsonarismo e da extrema direita brasileira – colocam em xeque parcerias construídas ao longo de décadas, evocando um modelo de política externa marcado pelo protecionismo, unilateralismo e desafios ao multilateralismo. Para o Brasil, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, o momento exige uma diplomacia habilidosa para preservar interesses nacionais diante de um cenário global complexo e altamente polarizado.

Um retorno ao protecionismo exacerbado

As declarações do presidente estadunidense simbolizam mais do que meras retóricas: elas sintetizam uma visão geopolítica centrada no “America First” (América em Primeiro Lugar), estratégia que dominou sua primeira gestão e agora ressurge com ainda maior intensidade. O protecionismo anunciado pelo presidente americano não se limita a uma postura defensiva; é uma ferramenta para consolidar a hegemonia econômica e minar iniciativas que busquem autonomia financeira em blocos como o Brics, liderado pelo Brasil em 2025.

O plano do Brics de reduzir a dependência do dólar no comércio internacional é um exemplo claro do desafio que a política americana enfrenta. O bloco, que representa cerca de 40% da população mundial e 25% do PIB global, busca fortalecer moedas locais no comércio. Trump, no entanto, desdenhou da iniciativa: “Não há como fazer isso, vão desistir.” A fala ilustra o temor de Washington em relação à fragmentação do sistema financeiro global, um dos pilares do poder americano desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Economistas como Jeffrey Sachs alertam para o impacto dessa dinâmica. Segundo Sachs, “o dólar continuará desempenhando um papel central, mas a busca por alternativas reflete a insatisfação com um sistema percebido como unilateral e controlado por Washington.” A postura americana, portanto, pode ter um efeito reverso, acelerando esforços de diversificação econômica e cooperação Sul-Sul.

O Brasil entre o pragmatismo e a soberania

Enquanto Trump insiste em uma narrativa de dependência unilateral, o governo brasileiro adota uma abordagem pragmática e conciliatória. O presidente Lula reafirmou os “laços históricos” com os Estados Unidos, mas evitou confrontos diretos. “Não queremos briga com ninguém. Queremos paz e diplomacia”, declarou durante uma reunião ministerial.

Por trás desse tom apaziguador, no entanto, estão desafios significativos. A radicalização protecionista de Trump ameaça setores estratégicos da economia brasileira, especialmente o agronegócio e a indústria. Além disso, a postura do presidente americano de desvalorizar a cooperação multilateral complica temas cruciais, como a crise climática. Na COP30, a ser realizada em Belém, o Brasil terá de equilibrar sua posição como anfitrião com a necessidade de articular avanços em financiamento climático, enfrentando a possível oposição dos EUA sob Trump.

A secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, resumiu a estratégia brasileira: “O presidente Trump pode falar o que quiser. Nós vamos buscar convergências.” Esse pragmatismo reflete a tradição diplomática brasileira, que historicamente se destacou por evitar alinhamentos automáticos e priorizar o diálogo.

História de uma relação assimétrica

As tensões atuais entre os EUA e a América Latina não são inéditas. Desde a Doutrina Monroe (1823), que estabeleceu a América Latina como esfera de influência americana, até a Guerra Fria, quando Washington apoiou golpes militares na região, as relações foram marcadas por assimetrias. O Brasil, em particular, viveu períodos de proximidade pragmática, como durante a Segunda Guerra Mundial, quando os EUA financiaram projetos de industrialização em troca de apoio militar.

Nas últimas décadas, no entanto, a ascensão de governos progressistas na América Latina desafiou a hegemonia americana. Iniciativas como o Brics e a Unasul buscaram promover uma maior autonomia regional, algo que incomoda profundamente o establishment político de Washington. A postura de Trump é, portanto, uma continuidade da estratégia histórica americana de minimizar ameaças ao seu domínio, mas com um tom mais beligerante.

Impactos na América Latina e no mundo

A estratégia de Trump também expõe um paradoxo. Ao reforçar barreiras e minar iniciativas de cooperação, os EUA correm o risco de fortalecer parcerias alternativas, especialmente com a China. Atualmente, a China é o maior parceiro comercial do Brasil e de outros países da América Latina, preenchendo lacunas deixadas por uma política externa americana que muitas vezes priorizou interesses domésticos em detrimento de parcerias globais.

Além disso, as medidas protecionistas anunciadas podem desencadear uma resposta coordenada da região. O Brasil, por exemplo, tem fortalecido sua posição como articulador global, especialmente em temas como o financiamento climático e a reforma de instituições internacionais.

A decisão de Trump de recolocar Cuba na lista de países que patrocinam o terrorismo e endurecer sanções contra a Venezuela é outro exemplo do isolamento crescente da política americana. Enquanto países europeus e latino-americanos buscam mediar conflitos e aliviar tensões, a abordagem americana opta por um confronto direto, muitas vezes ignorando as complexidades locais.

O dilema brasileiro: conciliar pragmatismo e autonomia

Para o Brasil, o desafio central será manter uma política externa independente sem comprometer interesses estratégicos. A presidência do Brics oferece uma oportunidade única para reafirmar o papel do país no cenário global, mas também exige cautela. Como observou o sociólogo Manuel Castells, “em um mundo globalizado, o poder não está apenas em quem controla os recursos, mas em quem consegue moldar as redes de interdependência.”

O Brasil precisará atuar como mediador entre interesses divergentes, tanto no hemisfério ocidental quanto em parcerias com países emergentes. A resposta de Lula às declarações de Trump, ao evitar o confronto direto, demonstra uma compreensão madura das dinâmicas globais, mas o sucesso dependerá da capacidade de transformar discursos em ações concretas.

O futuro das relações Brasil-EUA

As declarações de Trump escancaram uma visão de mundo centrada no poder e na supremacia econômica dos EUA, mas também revelam vulnerabilidades. A crescente polarização global e a ascensão de novas potências econômicas, como a China, criam oportunidades para países como o Brasil exercerem um papel mais assertivo no cenário internacional.

Para tanto, será essencial investir na integração regional, diversificar parcerias e reforçar o multilateralismo. A América Latina, historicamente vista como periferia no sistema global, tem a chance de se afirmar como uma voz relevante, desde que consiga superar divisões internas e agir de forma coordenada.

O cenário que emerge é de desafios, mas também de possibilidades. A América Latina, incluindo o Brasil, pode não apenas responder às declarações de Trump, mas redefinir seu papel em um mundo em transformação. Afinal, como escreveu o filósofo francês Michel Foucault, “o poder é algo que circula, que funciona em rede”. Cabe ao Brasil e à região posicionarem-se como agentes ativos nessa rede global, defendendo seus interesses com firmeza e diplomacia.

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