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Mundo

A nova diplomacia do grito

Como Trump redesenha a ordem mundial na base da coação

Publicado em 01/03/2025 11:16 - Semana On

Divulgação Photoshop

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O século XXI iniciou-se com a promessa de um mundo cada vez mais interconectado e diplomático, onde o multilateralismo e as instituições internacionais garantiriam a estabilidade global. No entanto, a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, e seu retorno ao poder, trouxe uma nova lógica às relações internacionais. Sob sua liderança, a política externa americana abandonou a diplomacia tradicional e passou a ser conduzida na base da intimidação, do bullying e da chantagem econômica e militar. Em vez de costurar acordos, Trump impõe condições. Em vez de construir alianças, ele as sabota quando não se alinham irrestritamente aos seus interesses.

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O recente embate público entre Trump e Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, expôs essa nova abordagem com brutalidade. O que deveria ser um encontro diplomático estratégico em Washington transformou-se em uma humilhação pública para o líder ucraniano, revelando a crescente indiferença dos Estados Unidos ao destino de Kiev e escancarando as fissuras dentro da aliança ocidental. Ao mesmo tempo, esse episódio marcou um dos mais importantes triunfos geopolíticos de Vladimir Putin, que viu, do Kremlin, a fragmentação do apoio ocidental à Ucrânia avançar de forma significativa.

Neste contexto, é impossível não perguntar: estaríamos testemunhando o colapso da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial? E, se sim, quem sairá fortalecido desse cenário?

Trump e a coação como ferramenta de poder

Desde o seu primeiro mandato, Trump demonstrou uma aversão sistemática ao modelo clássico de diplomacia. Em seu lugar, adotou uma política externa baseada na coerção e na imprevisibilidade, reforçando o uso da chantagem econômica e da intimidação direta como formas de negociação. Como observa Steven Levitsky, cientista político e coautor de Como as Democracias Morrem, “Trump sente prazer em humilhar nações estrangeiras”, e isso se reflete em sua postura nas relações internacionais.

Seu estilo agressivo não é apenas uma estratégia pontual, mas parte de um plano maior de desmonte do sistema global de regras e normas estabelecido ao longo do último século. O presidente americano não hesitou em sair de organismos internacionais essenciais, como o Acordo de Paris sobre o clima e o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Além disso, retirou financiamentos de dezenas de entidades internacionais, enfraquecendo mecanismos multilaterais que garantiam um equilíbrio geopolítico mínimo.

Essa abordagem se manifesta de diversas formas:

Chantagem econômica: Trump pressionou países como a Colômbia, ameaçando impor sanções devido à crise migratória. No Panamá, forçou o governo a interromper sua aproximação com a China, sob risco de represálias comerciais.

Pressão territorial: Insistiu para que a Dinamarca cedesse a Groenlândia aos Estados Unidos, ameaçando retaliações caso o governo dinamarquês não aceitasse discutir o assunto.

Revisão de fronteiras e tratados históricos: Trump determinou que seus aliados não mais se referissem à Cisjordânia com esse nome, mas sim como “Judeia e Samaria”, em uma tentativa de legitimar uma narrativa de anexação do território palestino por Israel.

Humilhação de líderes estrangeiros: O episódio recente com Zelensky é apenas um de muitos em que Trump ridiculariza chefes de Estado publicamente. Ele já havia feito isso com o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e chegou a sugerir que os EUA poderiam anexar o Canadá.

As redes sociais também desempenham um papel fundamental nesse jogo. Em conluio com bilionários como Elon Musk, Trump utiliza a internet para amplificar suas políticas de coerção. Musk, por exemplo, tem usado suas plataformas para atacar governos europeus e latino-americanos, atuando como um braço paralelo do governo Trump na desestabilização de nações que possam representar qualquer tipo de resistência a seus planos expansionistas.

Trump vs. Zelensky: quando a guerra da Ucrânia virou uma guerra retórica

A relação entre Trump e Zelensky nunca foi das mais amistosas. Em 2019, Trump pressionou o líder ucraniano a abrir uma investigação contra Hunter Biden, filho de seu rival político, Joe Biden. A recusa do governo ucraniano enfureceu Trump e minou a relação entre os dois países. Agora, com a guerra entre Rússia e Ucrânia em andamento há três anos, o líder americano aproveitou a fragilidade da Ucrânia para impor novas condições e desmoralizar Zelensky publicamente.

Durante o encontro na Casa Branca, Trump exigiu que Kiev considerasse concessões territoriais para alcançar a paz com Moscou. Zelensky, por sua vez, rechaçou a ideia, afirmando que não faria “concessões a um assassino”, em referência a Putin. Trump, irritado, acusou o líder ucraniano de ser “ingrato” e de estar “apostando na Terceira Guerra Mundial”.

As declarações de Trump causaram um choque diplomático imediato. Se antes havia dúvidas sobre a postura americana em relação à guerra, agora ficou claro que os EUA estão reduzindo seu comprometimento com a defesa da Ucrânia. Essa mudança tem implicações geopolíticas profundas, e a principal delas é a vantagem que Putin pode extrair dessa situação.

A Europa reage

Diante da postura hostil dos Estados Unidos, os líderes europeus rapidamente se mobilizaram para reforçar seu apoio à Ucrânia. Ursula von der Leyen e António Costa garantiram a Zelensky que ele “nunca estará sozinho”. O chanceler alemão Olaf Scholz e o presidente francês Emmanuel Macron reafirmaram que o apoio europeu à Ucrânia permanecerá firme, independentemente da posição americana.

A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, foi ainda mais incisiva ao afirmar que “o mundo livre precisa de um novo líder”. Essa declaração reflete um sentimento crescente na Europa de que a liderança dos EUA no cenário internacional está em declínio e que o bloco europeu precisa assumir um papel mais ativo na defesa da ordem liberal ocidental.

Contudo, há um grande desafio pela frente: a Europa tem capacidade econômica e militar para sustentar a Ucrânia sem o apoio norte-americano? Com a guerra prolongada e os custos aumentando, há dúvidas sobre se os países europeus conseguirão manter esse nível de envolvimento sem uma participação ativa dos Estados Unidos.

Moscou observa e vence sem disparar um tiro

Enquanto Trump e Zelensky trocam acusações, Vladimir Putin assiste à cena do Kremlin e contabiliza os ganhos políticos. A guerra de narrativas dentro do Ocidente favorece a Rússia, que há anos trabalha para enfraquecer a unidade entre seus adversários.

O Ministério do Exterior russo não hesitou em chamar a visita de Zelensky a Washington de um “fracasso diplomático e político completo”. Dmitry Medvedev, ex-presidente russo e atual vice-presidente do Conselho de Segurança, comemorou a humilhação imposta a Zelensky por Trump. Para Moscou, a desarticulação da aliança ocidental é um sinal de que a resistência à ofensiva russa está enfraquecendo.

No campo de batalha, os russos continuam avançando sobre territórios ucranianos. O desgaste do exército ucraniano, combinado com a diminuição do apoio norte-americano, pode acelerar o processo de desestabilização de Kiev.

O que está em jogo para o futuro da ordem mundial?

O embate entre Trump e Zelensky não é um evento isolado. Ele representa uma mudança estrutural na política global: o declínio da diplomacia multilateral, o aumento da imprevisibilidade das grandes potências e a ascensão de um modelo de governança baseado na imposição de força.

Se a liderança americana se torna errática e inconsistente, quem assumirá o vácuo de poder? A União Europeia? A China? Ou entramos em uma era de caos geopolítico, onde cada nação precisará lutar sozinha por sua sobrevivência?

O mundo aguarda os próximos desdobramentos, mas uma coisa é certa: quando o diálogo dá lugar ao grito, os únicos vitoriosos são aqueles que sabem explorar a desordem. E, por enquanto, esse papel pertence a Vladimir Putin.

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