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Mundo

Mundo à beira da meia-noite nuclear

O fim do tratado entre EUA e Rússia, as negociações com o Irã e o Relógio do Juízo Final

Publicado em 04/02/2026 1:35 - Semana On

Divulgação Lukas Lehotsky - Unsplash

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Poucas vezes, desde o fim da Guerra Fria, a sensação de que a humanidade caminha sobre um fio tão estreito foi tão palpável. Enquanto o último tratado nuclear entre Estados Unidos e Rússia se aproxima do fim, negociações delicadas tentam conter a proliferação no Oriente Médio e cientistas ajustam, mais uma vez, o simbólico Relógio do Juízo Final para mais perto da aniquilação. O cenário é de erosão acelerada das estruturas que, por décadas, funcionaram como diques contra a destruição em massa — e de uma ordem internacional cada vez mais marcada pelo nacionalismo agressivo, pela desconfiança e pela ausência de liderança cooperativa.

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A expiração do tratado New START, assinado em 2010, marca um ponto de inflexão. Pela primeira vez em mais de meio século, desde a crise dos mísseis de Cuba, em 1962, as duas maiores potências nucleares do planeta — Estados Unidos e Rússia — ficam sem qualquer limite formal para o número de ogivas nucleares estrategicamente implantadas.

O New START é herdeiro direto de uma arquitetura de controle de armas construída a partir do trauma da Guerra Fria, quando a humanidade esteve à beira de um confronto nuclear deliberado. Esses acordos não apenas reduziram arsenais, como criaram mecanismos de verificação, inspeção e previsibilidade — elementos centrais da estabilidade estratégica. Sua extinção representa, portanto, mais do que um detalhe técnico: é a desmontagem de uma lógica de contenção baseada na racionalidade do medo administrado.

Segundo Matt Korda, diretor associado do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, sem o tratado, “cada lado estará livre para carregar centenas de ogivas adicionais em seus mísseis e bombardeiros pesados, praticamente dobrando o tamanho de seus arsenais atualmente implantados no cenário mais maximalista” (Reuters). Embora Korda ressalte que os custos elevados tornam improvável uma corrida imediata, o risco estrutural permanece.

Hoje, os estoques globais somam cerca de 12 mil ogivas — número muito inferior ao pico de mais de 70 mil registrado em 1986. Ainda assim, Estados Unidos e Rússia seguem modernizando seus arsenais, enquanto a China mais do que dobrou sua capacidade nuclear na última década, alterando o equilíbrio estratégico global.

Às vésperas do fim do tratado, até mesmo o Papa Leão 14, primeiro pontífice norte-americano, fez um apelo público para que Washington e Moscou não abandonem os limites acordados. “É mais urgente do que nunca substituir a lógica do medo e da desconfiança por uma ética compartilhada, capaz de orientar as escolhas em direção ao bem comum”, afirmou.

Do outro lado do tabuleiro, o presidente Donald Trump mantém uma postura ambígua: ora critica os tratados como entraves à soberania, ora promete “um acordo melhor”. A proposta do presidente russo Vladimir Putin de estender os limites por mais um ano sequer recebeu resposta formal.

O Oriente Médio como fronteira sensível

Em paralelo ao colapso do controle bilateral entre superpotências, outro foco de tensão se impõe: o programa nuclear iraniano. Nesta sexta-feira, negociadores dos Estados Unidos e do Irã se reúnem em Omã para conversas indiretas que tratarão exclusivamente de questões nucleares e do possível levantamento de sanções.

A delegação iraniana será chefiada pelo chanceler Abbas Araghchi, enquanto Washington será representado pelo enviado especial Steve Witkoff. Trata-se da retomada de um diálogo interrompido após Israel lançar uma ofensiva aérea de grandes proporções, dois dias antes da sexta rodada prevista de negociações, o que resultou em uma guerra de 12 dias.

O episódio ilustra como a diplomacia nuclear contemporânea se dá sob constante ameaça militar. Diferentemente da Guerra Fria clássica, marcada por canais diretos e previsibilidade entre rivais, o atual cenário é fragmentado, multipolar e permeado por conflitos regionais capazes de escalar rapidamente — muitas vezes sob a sombra de arsenais atômicos.

O relógio avança

Esse ambiente de instabilidade levou o Bulletin of the Atomic Scientists a ajustar o Relógio do Juízo Final para 85 segundos antes da meia-noite, o ponto simbólico da aniquilação global — o mais próximo desde sua criação, em 1947. Fundada por cientistas como Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer, a organização alerta para a convergência de riscos nucleares, climáticos, tecnológicos e informacionais.

Para Alexandra Bell, presidente do Bulletin e especialista em política nuclear, “o que vimos foi uma falha global na liderança”. Em entrevista à Reuters, ela foi categórica: “Uma mudança em direção ao neoimperialismo e a uma abordagem orwelliana de governança só servirá para empurrar o relógio para a meia-noite”.

Bell aponta como fatores centrais a guerra da Rússia na Ucrânia — onde Moscou empregou armamentos como o míssil hipersônico Oreshnik, com capacidade nuclear —, os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, as tensões entre Índia e Paquistão e os confrontos latentes na Península Coreana e em torno de Taiwan. Soma-se a isso a decisão de Trump de ordenar a retomada do processo de testes nucleares, rompendo uma moratória informal de mais de três décadas.

“Em termos de riscos nucleares, nada em 2025 apresentou tendência na direção certa”, afirmou Bell. “O risco de uso nuclear é insustentável e inaceitavelmente alto.”

Democracia, desinformação e risco sistêmico

O diagnóstico do Bulletin vai além das ogivas. A organização alerta para o uso não regulamentado da inteligência artificial em sistemas militares, seu potencial para facilitar ameaças biológicas e seu papel central na disseminação global de desinformação. Nesse ponto, a presença da jornalista Maria Ressa, Prêmio Nobel da Paz, no anúncio do ajuste do relógio foi simbólica.

“Estamos vivendo um Armagedom de informações provocado pela tecnologia que governa nossas vidas”, afirmou Ressa. “Nenhuma dessas tecnologias está ancorada em fatos.” Sua advertência conecta diretamente a crise nuclear à crise democrática: sociedades intoxicadas por desinformação tornam-se menos capazes de exigir responsabilidade, cooperação internacional e políticas baseadas em evidências.

Um alerta histórico

A combinação entre o fim do New START, a fragilidade das negociações com o Irã e o avanço do Relógio do Juízo Final revela um padrão inquietante: a substituição gradual da diplomacia por uma lógica de força e competição de soma zero. A história do século XX ensina que a estabilidade nuclear nunca foi produto da boa vontade, mas da consciência clara de que o custo do erro seria absoluto.

Desmontar os mecanismos que contiveram esse risco por décadas é, no mínimo, um experimento perigoso. Em um mundo atravessado por crises climáticas, tecnológicas e democráticas, a normalização da ameaça nuclear não é apenas uma escolha estratégica — é um teste moral sobre a capacidade da humanidade de aprender com sua própria história.

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