Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Medida aprofunda projeto autoritário e revela uma sociedade precarizada e em disputa
Publicado em 23/05/2025 12:31 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A Argentina atravessa um de seus momentos mais críticos desde o retorno da democracia em 1983. Sob o governo de Javier Milei, um economista ultraliberal e agitador midiático convertido em presidente, o país mergulhou em um experimento radical de desmonte estatal, regressão de direitos sociais e reconfiguração simbólica das formas de pertencimento político.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Para entender a gravidade do momento, é preciso enxergar para além da conjuntura: o que se vive hoje no país vizinho é o cruzamento entre a falência de um progressismo institucionalizado e o surgimento de uma nova espiritualidade política à direita, capaz de mobilizar afetos e ressentimentos plebeus contra os pilares da democracia social moderna.
O cenário combina, de um lado, um brutal ajuste fiscal imposto sob a promessa de “libertar” a economia das amarras do Estado e, de outro, uma repressão sistemática à mobilização popular — tudo isso conduzido sob uma retórica de guerra contra “a casta política”, “o marxismo cultural” e o “vírus woke”, e com um verniz messiânico que apelidou seus aliados de “forças do céu”.
Decreto contra a greve e a restrição da democracia trabalhista
O episódio mais recente da escalada autoritária do governo Milei é o decreto que, publicado em maio de 2025, amplia a definição de serviços essenciais e praticamente inviabiliza o direito à greve em setores como educação, telecomunicações, portos, transportes e alfândega. A exigência de manutenção de 75% das atividades durante paralisações, sob pena de multas e sanções aos sindicatos, foi imediatamente denunciada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT) como uma “eliminação do direito à greve por assinatura”.
Trata-se de uma ruptura direta com o modelo histórico argentino de negociação coletiva e mobilização sindical — um modelo que, mesmo com falhas, se manteve como um dos pilares do contrato social no país. A estratégia do governo não é apenas econômica; é civilizacional: tenta redefinir os limites do conflito político admissível sob o argumento da “eficiência fiscal”.
Ajuste econômico e colapso social
Desde a posse de Milei, o país passou a viver sob o mantra do “maior ajuste da história”. A austeridade tem sido imposta com cortes drásticos em programas sociais, congelamento de salários, privatizações, desregulação ambiental, e desmonte de órgãos públicos. A inflação, que começou a desacelerar, o fez ao custo de uma recessão profunda e da ampliação da miséria.
Segundo a CGT, “o custo do ajuste recaiu sobre os trabalhadores ativos e aposentados, enquanto o setor financeiro multiplicou obscenamente seus lucros”. A denúncia vai além da crítica fiscal: trata-se de um alerta sobre o desequilíbrio social crescente e sobre a transformação da política econômica em doutrina de castigo aos pobres.
Para Paulo Gala, economista e professor da FGV, a recessão ajudou a controlar os preços, mas não resolve os problemas estruturais: “É um voo cego com o piloto automático da ortodoxia fiscal”. Enquanto isso, medidas como o Régimen de Incentivo para Grandes Inversiones (RIGI) prometem trinta anos de facilidades para investidores externos, sobretudo no setor de lítio e energia, tornando a Argentina um enclave exportador sem soberania fiscal ou ambiental.
A juventude precarizada como base política: entre a raiva e a fé
Por que, então, Milei ainda conta com apoio popular? A resposta mais convincente reside na interseção entre estrutura econômica, subjetividade social e espiritualidade política.
Durante os anos kirchneristas, as classes populares argentinas foram socializadas na sobreocupação: múltiplos empregos, trabalhos informais, “corres” para garantir a sobrevivência. Essa ginástica da precariedade não criou sujeitos politizados no sentido clássico, mas indivíduos cansados, desiludidos com a política, e seduzidos por narrativas de ruptura total.
Pesquisas qualitativas com eleitores populares de Milei, realizadas antes das eleições de 2023, revelaram um sentimento dominante: a impossibilidade de planejar o futuro. A inflação crônica destruiu a experiência temporal das classes populares — o tempo tornou-se um presente contínuo, marcado pela urgência da sobrevivência. É neste contexto que Milei surge como a voz que nomeia essa violência invisível: a inflação como roubo, o Estado como predador, a política como farsa.
Sua comunicação performática — com direito a ameaças de explodir o Banco Central — não é apenas histrionismo. É a encarnação de uma “espiritualidade plebeia” dirigida contra os símbolos de uma ordem social que falhou. Ele mobiliza não só a raiva, mas também a fé. Como no Brasil de Bolsonaro, assiste-se à fusão entre neoliberalismo econômico e messianismo político, com apoio explícito de setores religiosos e empresariais.
O libelo de Davos e o despertar dos anticorpos democráticos
No Fórum Econômico Mundial, em Davos, Milei escandalizou até os financistas ao fazer um discurso que conectava homossexualidade e pedofilia, e clamava por uma cruzada contra o “marxismo cultural”. Foi o ponto de inflexão. O feminismo popular argentino, que liderou nos últimos anos mobilizações massivas contra o feminicídio, percebeu que estava sob ataque direto.
No dia 1º de fevereiro, uma marcha antifascista e antirracista tomou Buenos Aires, convocada por uma assembleia popular no Parque Lezama. Ali se reuniram mães, jovens, indígenas, sindicalistas e estudantes — corpos e vozes que, como diria Judith Butler, afirmam sua presença política no espaço público. Foi a primeira resposta ampla e articulada à política de terra arrasada do governo.
Desde então, aposentados organizam vigílias semanais em frente ao Congresso, retomando práticas de resistência dos anos de chumbo. Um episódio marcou a virada afetiva do momento: a repressão violenta contra um aposentado do clube Chacarita Juniors gerou uma marcha intergeracional com torcedores exigindo respeito aos mais velhos. “Como no voy a defender a los jubilados?”, ecoava a frase de Maradona.
Essa série de mobilizações, culminando na marcha de 12 de março, ativou os chamados anticorpos democráticos da sociedade argentina. Em um momento de apatia institucional e fragmentação da oposição peronista, foi a rua — não os tribunais — que impôs limites à prepotência do governo.
O que se disputa na Argentina?
O caso argentino transcende as fronteiras do país. Ele nos obriga a repensar as formas contemporâneas de subjetivação política em contextos de crise. Milei não é apenas um populista ou um neoliberal. Ele é a expressão de uma reconfiguração do laço social, de uma revolta canalizada não contra a injustiça, mas contra os mediadores tradicionais da política.
A filósofa Chantal Mouffe advertia que “a democracia requer conflito para sobreviver”. O que se vive na Argentina é a tentativa de eliminar o conflito como forma legítima de participação, substituindo-o por uma verdade imposta de cima, uma fé política verticalizada, com cheiro de pólvora e salvação.
Mas o país ainda resiste. Com seus sindicatos, feminismos, torcidas organizadas, aposentados e jovens. Com sua memória viva das ditaduras. Com suas praças e seus afetos políticos. Em tempos de tecnofeudalismo global, o povo argentino nos recorda que nem toda história é linear — e que, mesmo sob o peso do autoritarismo, é possível inventar novas formas de liberdade.
Deixe um comentário