Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Bloqueio humanitário deixa milhares de crianças em risco de morte em Gaza
Publicado em 22/05/2025 11:48 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A diplomacia foi alvejada. A infância está sendo dizimada. Quando tropas israelenses abriram fogo contra uma missão diplomática na Cisjordânia, na quarta-feira (21), o som dos tiros não apenas ecoou sobre Jenin — reverberou também sobre o já frágil edifício do direito internacional. A delegação de representantes de 20 países, incluindo França, Reino Unido e Canadá, estava em missão oficial da Autoridade Palestina para avaliar a situação humanitária no território ocupado. O ataque, embora não tenha deixado feridos, selou simbolicamente o que as Nações Unidas já vêm alertando: a guerra em Gaza rompeu todos os limites morais, jurídicos e humanitários.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Enquanto diplomatas corriam para se proteger, em Gaza, 14 mil bebês estavam prestes a morrer de fome, segundo alerta de Tom Fletcher, diretor de ajuda humanitária da ONU. Após 11 semanas de bloqueio, mesmo os 93 caminhões de suprimentos liberados por Israel não chegaram à população — retidos por novas etapas de checagem militar. É um cerco sem trégua: mais de 53 mil palestinos civis mortos, 1,9 milhão de deslocados e uma população sobrevivendo com “sopas que nem cachorros comeriam”, como afirmou Somaia Abu Amsha à agência AP.
A desintegração de um princípio universal: o direito humanitário
O disparo contra diplomatas simboliza mais do que um erro militar. Ele encarna a erosão do próprio conceito de neutralidade humanitária, pedra angular do direito internacional desde a Convenção de Genebra. Se representantes de Estados soberanos podem ser alvejados sem consequências, que garantias restam a civis famintos, crianças doentes ou hospitais sem energia?
Esse é o quadro descrito por Ahmed al-Farra, diretor de pediatria do Hospital al-Tahreer, no sul de Gaza: “Nenhum suprimento médico chegou. Estamos falando de muitas doenças devido à desnutrição grave, à falta de alimentos, à falta de leite”. O hospital, que abriga centenas de crianças deslocadas, opera em condições que beiram o colapso total. A situação se agravou com a destruição do Hospital Europeu — um dos poucos centros de atendimento especializado na região.
O cerco militar e moral de Israel
O governo israelense afirma que só encerrará a ofensiva quando todos os reféns capturados pelo Hamas em 7 de outubro forem libertados e o grupo for completamente desarmado e exilado. Mas os custos dessa estratégia tornaram-se politicamente insustentáveis: 1.218 israelenses foram mortos e 251 feitos reféns; 58 permanecem cativos. Em troca da libertação de parte deles, o Hamas exige o fim da ocupação militar, a retirada total de Gaza e o encerramento da guerra. O impasse se converteu em tragédia.
Mesmo aliados históricos começam a se afastar. O Reino Unido suspendeu negociações de livre comércio com Israel, e a União Europeia anunciou revisão de seus laços comerciais. Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, foi direta: “Os países veem que a situação em Gaza é insustentável. Queremos desbloquear a ajuda humanitária”. O Brasil, por meio do chanceler Mauro Vieira, classificou a ofensiva como “carnificina”, e citou os números: “Mais de 15,6 mil crianças mortas e 8,3 mil mulheres”.
Quando aliados silenciam e a sociedade civil se levanta
Mesmo os Estados Unidos, tradicional pilar de sustentação do Estado israelense, demonstram desconforto. Fontes próximas ao ex-presidente Donald Trump, segundo a imprensa americana, indicam que ele vem pressionando Netanyahu a pôr fim à guerra. Paralelamente, setores da sociedade civil em Israel agem para impedir a entrada de ajuda humanitária, reforçando a lógica do cerco total. No ponto de fronteira de Kerem Shalom, manifestantes de ultradireita prometeram bloquear todos os caminhões com alimentos e remédios. “Cada caminhão que entra prolonga a guerra”, disse Asriel Machlev, um dos líderes do movimento.
Essas ações alimentam a crítica de que Israel está promovendo um castigo coletivo, proibido pelas convenções internacionais. A retórica de segurança nacional, embora compreensível diante dos ataques do Hamas, não pode justificar a destruição sistemática de estruturas civis, a obstrução de ajuda e o cerco a hospitais. “É suicídio nacional impedir comida por reféns. Isso rompe qualquer moralidade de guerra”, declarou Amos Goldberg, historiador israelense do Holocausto.
Infância como campo de batalha: 14 mil bebês no limite
O dado mais brutal desta guerra não está nos drones ou mísseis, mas nos corpos pequenos de 14 mil bebês à beira da morte por inanição, segundo a ONU. Um número que não é colateral, mas previsível. Gaza precisa de 500 caminhões de suprimentos por dia para conter a fome. Israel autorizou menos de 100. É a matemática da negligência — e da morte.
O bloqueio, intensificado desde março, impede a entrada de alimentos, medicamentos e combustíveis, essencialmente paralisando hospitais e cozinhas comunitárias. Em um dos trechos mais duros do relato humanitário, al-Farra afirmou: “Gaza precisa de quase 500 caminhões todos os dias para resolver o problema. Estamos lidando com desnutrição grave e doenças em crianças. É insustentável”.
O silêncio dos princípios e a falência das instituições
Diante de tal quadro, cabe perguntar: onde está a ordem internacional? Onde está a capacidade das organizações multilaterais de conter um Estado quando ele extrapola os limites da legalidade? A ONU, frequentemente criticada por sua ineficácia, assiste de mãos atadas, limitada pelo poder de veto de potências no Conselho de Segurança. A Corte Internacional de Justiça, acionada por países como África do Sul e Brasil, ainda não teve poder real de dissuasão.
O filósofo Zygmunt Bauman escreveu que “a era moderna criou a capacidade de matar à distância, mas perdeu a capacidade de sentir empatia à proximidade”. Gaza é hoje o retrato desse distanciamento ético: milhares de mortes, muitas delas infantis, são contabilizadas como estatísticas, sem que provoquem rupturas políticas decisivas.
Um chamado ao fim
Diante desse cenário, o que resta? O apelo por um cessar-fogo imediato, acesso irrestrito à ajuda humanitária, libertação dos reféns e responsabilização internacional de quem viola convenções de guerra. O que está em jogo não é apenas o futuro da Palestina ou a segurança de Israel, mas a credibilidade da comunidade internacional em garantir o mínimo civilizatório.
Se diplomatas estrangeiros já não estão seguros, se hospitais são cercados, se crianças morrem de fome e se a ajuda é bloqueada por manifestantes, então é o próprio conceito de humanidade que está em risco. A guerra não é apenas contra Gaza — é contra a dignidade humana.
Deixe um comentário