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Mundo
Desgaste do governo argentino aumenta diante da pobreza e exclusão social
Publicado em 28/08/2025 10:14 - Semana On
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O presidente argentino Javier Milei foi retirado às pressas de uma carreata em Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires, após ser alvo de pedras e garrafas. O episódio, ocorrido durante um evento de campanha legislativa, expôs não apenas a crescente insatisfação popular com o governo, mas também o esgarçamento do discurso anticorrupção do presidente, em meio a denúncias que envolvem sua irmã e principal conselheira, Karina Milei.
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A caravana, parte das mobilizações para as eleições legislativas de outubro, teve de ser interrompida por questões de segurança. Dois suspeitos chegaram a ser detidos, mas foram liberados em seguida. Apesar da ausência de feridos, o impacto político foi imediato. Milei, ao lado da irmã e do deputado José Luis Espert, deixou o local em uma motocicleta. Espert declarou à imprensa: “As pedras caíram muito perto do presidente. A situação ficou muito violenta”.
O porta-voz presidencial, Manuel Adorni, tentou desviar o foco ao responsabilizar a oposição: “Ativistas da velha política, do kirchnerismo puro, de um modelo de violência que só os homens das cavernas do passado desejam”, afirmou no X. Já o próprio Milei usou a rede social para simplificar o embate: “Civilização ou barbárie. Kirchnerismo nunca mais. Fim”. No entanto, como observou o analista político argentino Bruno Cotrim, “não há provas até o momento. O governo Milei está colocando a culpa na conta da oposição, mas ninguém foi identificado”.
A radicalização do discurso oficial revela uma tentativa de reforçar a polarização, estratégia recorrente em momentos de crise. Mas os limites dessa narrativa começam a ficar evidentes. A sociedade argentina vive uma deterioração acelerada de suas condições sociais, e os sinais de exaustão se acumulam.
Miséria crescente, direitos em queda
Desde que assumiu o governo em dezembro de 2023, Javier Milei tem aplicado uma agenda ultraliberal marcada por cortes brutais nos gastos sociais, privatizações aceleradas e desregulamentação do mercado de trabalho. O resultado é um país em retração: segundo o INDEC (Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina), a pobreza atingiu 55% da população no primeiro semestre de 2025 — o maior índice desde a crise de 2001. A indigência já ultrapassa os 18%.
Na educação, 60% das universidades públicas enfrentam cortes que comprometem seu funcionamento. Hospitais relataram falta de insumos básicos, e a inflação, embora desacelerando, ainda corrói o poder de compra da população. O FMI, que endossa parte das reformas de Milei, reconhece que a política fiscal do país é “austera em excesso”, nas palavras do economista-chefe Pierre-Olivier Gourinchas (FMI, abril de 2025).
O colapso do discurso anticasta
O desgaste político do presidente se agravou com as denúncias contra Karina Milei, secretária-geral da Presidência e figura central do governo. Gravações vazadas mencionam seu nome em um suposto esquema de propina na compra de remédios e próteses pela Agência Nacional para Pessoas com Deficiência (Andis). As gravações citam diretamente Diego Spagnuolo, ex-chefe da agência, exonerado após o escândalo vir à tona.
Embora a autenticidade dos áudios ainda não tenha sido confirmada judicialmente, fontes próximas à investigação indicam que os indícios são fortes. Buscas realizadas incluíram uma farmácia ligada ao esquema, onde foram apreendidos mais de US$ 266 mil em espécie. O caso corre sob sigilo, mas já minou a credibilidade de Milei, que construiu sua imagem como outsider e inimigo da “casta política corrupta”.
A politóloga Maristella Svampa, pesquisadora do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas da Argentina), analisou o paradoxo em entrevista à Página/12: “Quando o discurso anticasta se vê contaminado por práticas que ele próprio condena, o risco é de colapso simbólico. O governo Milei passa a ser percebido não como alternativa, mas como continuidade daquilo que dizia combater”.
Este plano de la huida de Milei en el conurbano es cine ????pic.twitter.com/RlKXn0rj7l
— mauro (@MauroFdz) August 27, 2025
O fio curto da sociedade civil
O ataque em Lomas de Zamora não pode ser isolado da insatisfação que cresce nas ruas. Greves gerais, paralisações de transporte, ocupações de universidades e manifestações massivas têm se tornado rotina em grandes cidades argentinas. A central sindical CGT estima que 1,2 milhão de pessoas participaram das marchas contra a “Lei Ônibus”, proposta que flexibiliza direitos trabalhistas e limita o direito à greve.
Entidades de direitos humanos, como a HIJOS — cujos integrantes foram injustamente associados ao ataque da caravana —, também têm sido alvos de estigmatização por parte do governo. “É preocupante que movimentos legítimos sejam associados à violência sem provas. Isso configura tentativa de deslegitimar a sociedade civil organizada”, afirmou Estela de Carlotto, presidente da organização Avós da Praça de Maio.
A resposta repressiva às manifestações soma-se ao empobrecimento generalizado e à perda de direitos, configurando um cenário de tensão social crescente. A retórica de confronto constante adotada por Milei parece ter perdido efeito, sobretudo quando os escândalos tocam o núcleo familiar e político do próprio presidente.
Democracia em risco
A Argentina atravessa um momento delicado. As promessas de renovação institucional e moral do governo Milei enfrentam a dura realidade de um país em crise econômica e política. O ataque à caravana presidencial, longe de ser apenas um ato isolado de violência, é sintoma de um mal-estar social profundo e de um governo que já não consegue conter as contradições entre o discurso e a prática.
Como resumiu o sociólogo argentino Gabriel Vommaro, professor da Universidade Nacional de San Martín: “Quando a política se transforma em espetáculo e o governo em performance, a realidade cobra seu preço — e ele costuma ser alto”.
Se o governo Milei insiste em negar a crise social e atribuir tudo à “velha política”, corre o risco de se tornar ele mesmo parte dela. Para a população argentina, a paciência parece estar chegando ao limite.
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