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Mundo

Tanques de Israel avançam sobre civis em Gaza

Itamaraty rebate ofensas a Lula e reforça denúncia de genocídio

Publicado em 27/08/2025 12:04 - Semana On

Divulgação Dawoud Abu Alkas - Al Jazeera

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Tanques israelenses avançaram durante a madrugada no bairro de Ebad-Alrahman, na periferia da Cidade de Gaza, forçando uma nova leva de deslocamentos de civis, destruindo residências e agravando a já crítica situação humanitária na região. O ataque ocorre às vésperas de uma reunião liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a guerra no enclave palestino.

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Segundo relatos de testemunhas, os blindados israelenses entraram na área norte da cidade — que abriga atualmente cerca da metade dos 2 milhões de habitantes da Faixa — disparando contra casas e surpreendendo moradores durante a noite. “De repente, ouvimos que os tanques entraram em Ebad-Alrahman, os sons das explosões ficaram cada vez mais altos e vimos pessoas fugindo”, disse Saad Abed, 60, ex-trabalhador da construção civil, à Reuters.

Israel afirma que se prepara para uma nova ofensiva na Cidade de Gaza, descrita como o último bastião do Hamas. A população civil foi orientada a deixar a área, mas muitos permanecem por falta de alternativas ou por decisão consciente. Em comunicado conjunto, o Patriarcado Ortodoxo Grego e o Patriarcado Latino de Jerusalém afirmaram que “o clero e as freiras decidiram permanecer e continuar a cuidar de todos aqueles que estarão nos complexos”, declarando que fugir “seria nada menos que uma sentença de morte”.

Reorganização forçada e retórica oficial

O porta-voz árabe das Forças Armadas israelenses, Avichay Adraee, afirmou nesta terça-feira que “a retirada da Cidade de Gaza é inevitável” e que Israel iniciou a entrada de barracas no enclave para facilitar o deslocamento dos civis. No entanto, segundo autoridades palestinas e da ONU, seriam necessárias ao menos 1,5 milhão de novas barracas para atender à demanda atual.

O cenário de deslocamento em massa — já com cerca de um milhão de pessoas em movimento para o sul — é agravado pelo bloqueio contínuo à ajuda humanitária. Desde 2 de março, Israel tem impedido a atuação da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) e de outras 100 ONGs internacionais. Em contrapartida, tem priorizado a atuação da recém-criada ONG americana GHF (Gaza Humanitarian Foundation), acusada por diplomatas europeus de violar princípios humanitários e de militarizar a distribuição de ajuda — o que, segundo o documento, resultou na morte ou ferimento de milhares de palestinos que buscavam socorro.

Críticas da diplomacia europeia

Diante do agravamento da crise, mais de 200 diplomatas europeus — incluindo 110 ex-embaixadores — assinaram uma carta conjunta exigindo medidas urgentes da União Europeia contra o que classificam como ações ilegais de Israel em Gaza e na Cisjordânia. A carta sugere nove medidas concretas, entre elas:

– Suspensão de licenças de exportação de armas;

– Proibição de comércio com assentamentos ilegais;

– Restrição a centros de dados europeus que hospedem informações de empresas ou órgãos governamentais israelenses ligados à ocupação.

O documento condena ainda os planos de construção de 3.400 unidades habitacionais na área E1, entre Jerusalém Oriental e a Cisjordânia — o que inviabilizaria a solução de dois Estados ao dividir geograficamente os territórios palestinos. Também denuncia o assassinato do ativista Odeh Hathalin, consultor do documentário No Other Land, vencedor do Oscar, morto a tiros por um colono judeu em julho.

A carta aponta que a omissão da UE no caso Gaza enfraquece sua autoridade moral em outros conflitos, como a guerra na Ucrânia. “A falta de ação enfraquece a posição da UE no mundo e compromete sua credibilidade junto ao Sul Global”, diz o texto.

Ataque a hospital reacende debate sobre crimes de guerra

Na segunda-feira, um ataque israelense contra um hospital no sul da Faixa de Gaza deixou ao menos 20 mortos, incluindo cinco jornalistas. A ação reacendeu o debate sobre possíveis crimes de guerra, conceito que engloba ataques deliberados contra civis, deslocamentos forçados e o uso desproporcional da força.

De acordo com a Convenção de Genebra e o Estatuto de Roma, crimes de guerra podem ser julgados pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia. Apesar disso, a efetividade do tribunal é limitada. Sem força policial própria, depende da colaboração dos Estados — que, por vezes, se recusam a cooperar. A Rússia, por exemplo, deixou de reconhecer o TPI em 2016 e não extradita cidadãos.

Especialistas em direito internacional têm alertado para a escalada da violência em Gaza e suas implicações legais. Segundo Michael Lynk, ex-relator especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, “ações que visam civis ou que resultam em sofrimento desproporcional violam o direito internacional e podem configurar crimes de guerra” (The Guardian, 17/08/2025).

Cenário humanitário e liberdade de imprensa sob cerco

A situação em Gaza é descrita por agências da ONU como “catastrófica”. Estima-se que meio milhão de pessoas estejam em risco de morte por inanição e que 132 mil crianças menores de cinco anos enfrentem risco de desnutrição severa até meados de 2026.

Além disso, a carta dos diplomatas denuncia a repressão à imprensa internacional. Pelo menos 200 jornalistas foram mortos desde o início do conflito, em outubro de 2023 — um número sem precedentes. Relatórios da ONG Repórteres Sem Fronteiras e da Federação Internacional de Jornalistas apontam violações sistemáticas contra profissionais da comunicação, incluindo prisões arbitrárias, censura e ataques diretos a veículos de imprensa.

Trump e a diplomacia americana

O presidente dos EUA, Donald Trump, preside nesta terça uma reunião sobre Gaza na Casa Branca. O enviado especial Steve Witkoff afirmou que Washington espera que o conflito seja resolvido “até o final do ano”, mas não forneceu detalhes. O Departamento de Estado também confirmou encontro entre o secretário Marco Rubio e o chanceler israelense Gideon Saar, mas não divulgou a lista de participantes da reunião principal.

Enquanto o cerco militar se intensifica e a retórica oficial promete novas fases da guerra, cresce a pressão internacional por uma resposta firme da comunidade global — não apenas no campo diplomático, mas em termos jurídicos e humanitários.

Itamaraty rebate acusações de Israel e reforça denúncia de genocídio em Gaza

O governo brasileiro reagiu com dureza às declarações do ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, que classificou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “antissemita declarado” e “apoiador do Hamas”. Em nota oficial, o Itamaraty qualificou as falas como “ofensas, inverdades e grosserias inaceitáveis” e cobrou de Katz a responsabilidade sobre ações do Exército israelense que, segundo o Brasil, configuram genocídio contra o povo palestino.

O confronto diplomático se dá em meio à escalada da ofensiva militar de Israel na Faixa de Gaza, onde mais de 63 mil palestinos já morreram desde outubro de 2023 — um terço deles mulheres e crianças, segundo dados citados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE). Nesta semana, Israel bombardeou o hospital Nasser, em Khan Younis, matando ao menos 20 civis, entre eles jornalistas e trabalhadores humanitários.

“Espera-se do sr. Katz, em vez de habituais mentiras e agressões, que assuma responsabilidade e apure a verdade sobre o ataque de ontem contra o hospital Nasser, em Gaza”, afirmou o Itamaraty em comunicado. O texto reforça que Israel está sob investigação da Corte Internacional de Justiça (CIJ) por suspeita de violação da Convenção da ONU para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio — processo movido originalmente pela África do Sul, com adesão posterior do Brasil.

Críticas não são antissemitismo: são dever democrático

Ao contrário do que insinua Katz, a crítica à política expansionista e colonial de Israel em Gaza e na Cisjordânia não é antissemitismo — é, de fato, um exercício legítimo da defesa do direito internacional e dos direitos humanos. Confundir essas críticas com ódio ao povo judeu é não apenas intelectualmente desonesto, mas perigosamente conveniente para encobrir crimes cometidos por um Estado.

Como ressaltou o historiador israelense Ilan Pappé, autor do livro A limpeza étnica da Palestina (2006), “o uso do antissemitismo como escudo contra qualquer crítica à política israelense banaliza o próprio conceito, desrespeita a memória das vítimas do Holocausto e sabota a luta legítima contra o preconceito racial e religioso”. A afirmação consta em entrevista ao The Guardian, em meio à intensificação das operações militares em Gaza.

Ao contrário do discurso de Katz, a retirada do Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), em julho deste ano, está ligada justamente à politização da definição de antissemitismo adotada pelo órgão. A definição promovida pela IHRA foi criticada por juristas e estudiosos internacionais, como o relator especial da ONU para direitos humanos nos Territórios Palestinos, Michael Lynk, por associar quase automaticamente a crítica ao Estado de Israel ao antissemitismo.

Crise diplomática e rebaixamento das relações

As tensões entre os dois países vêm se agravando desde fevereiro de 2024, quando Lula foi declarado “persona non grata” por Israel após afirmar que as mortes de civis em Gaza configuravam genocídio. Desde então, o Brasil retirou seu embaixador em Tel Aviv, Frederico Meyer, e não indicou substituto. Israel, por sua vez, não obteve resposta ao pedido de agrément para o novo embaixador Gali Dagan — fato interpretado como recusa silenciosa.

Segundo o jornal The Times of Israel, diante do impasse, Israel optou por “rebaixar” formalmente suas relações diplomáticas com o Brasil.

Durante reunião ministerial na terça-feira (26), Lula voltou a criticar duramente os ataques israelenses: “Temos a continuidade do genocídio na Faixa de Gaza, que não para. Crianças aparecem na mídia totalmente esqueléticas atrás de comida e são assassinadas como se estivessem em guerra. São assassinadas como se fossem do Hamas”, afirmou, em discurso no Palácio do Planalto.

Lula também voltou a defender a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com mais protagonismo para países do Sul Global. “O mundo não pode ser governado apenas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial”, disse recentemente em entrevista à Al Jazeera.

O pano de fundo: ocupação, cerco e crimes de guerra

Desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 — que matou cerca de 1.200 pessoas e resultou na captura de reféns israelenses e estrangeiros —, Israel respondeu com bombardeios massivos, cerco total a Gaza e operações terrestres, com denúncias de punição coletiva à população civil.

Organizações de direitos humanos, como Human Rights Watch e Anistia Internacional, têm denunciado o uso da fome como arma de guerra, bombardeios deliberados contra hospitais e escolas, além de restrições sistemáticas ao trabalho de jornalistas e da ONU. Pelo menos 200 jornalistas foram mortos desde o início do conflito, e 500 mil pessoas estão em risco iminente de morte por inanição, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Escritório da ONU para Assuntos Humanitários (OCHA).

Especialistas do Tribunal Penal Internacional (TPI) já classificam o cerco a Gaza como violação direta da Convenção de Genebra. “Privar intencionalmente civis de acesso à comida, água e cuidados médicos é crime de guerra”, afirmou Karim Khan, promotor-chefe do TPI, à BBC em abril deste ano.

Diplomacia sob cerco, princípios sob teste

A reação do Itamaraty, ao denunciar de forma explícita os crimes cometidos em Gaza, reafirma uma tradição da diplomacia brasileira baseada na defesa do multilateralismo e do direito internacional humanitário. Ao mesmo tempo, revela uma mudança de postura — mais assertiva — frente a um cenário internacional que tem se mostrado conivente com violações sistemáticas dos direitos humanos.

A banalização do termo “antissemitismo” para silenciar críticas à ocupação israelense não apenas enfraquece a luta contra o ódio verdadeiro, mas também colabora para a perpetuação de políticas de apartheid, limpeza étnica e destruição de um povo.

Criticar essas práticas não é negar a dor do povo judeu — é, ao contrário, afirmar que nenhum povo pode ser rebaixado em sua humanidade.

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