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Mundo
Entre a destruição e a resistência, eles desafiam o cerco israelense e o exílio forçado, enquanto o Ocidente patrocina o apartheid
Publicado em 29/01/2025 11:42 - Semana On
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Ao longo da estrada costeira Rashid, na Faixa de Gaza, milhares de palestinos caminham em silêncio. Eles retornam não a um lar, mas a escombros; não a uma cidade, mas a um cemitério. A travessia, antes interrompida pelo bloqueio israelense, foi reaberta após negociações diplomáticas. Mas o que os espera não é um recomeço, e sim um território destruído, onde o cheiro da morte impregna o ar.
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Mahmoud Ayoub, um trabalhador de 33 anos, embala suas roupas em um saco improvisado. Com sua esposa e seus três filhos, ele deixou o campo de refugiados de Nuseirat e iniciou a jornada de sete quilômetros até o que restou de sua casa no bairro Sheikh Radwan. “Se não pudermos morar na casa, viveremos em uma barraca ao lado”, disse Ayoub. Seu testemunho ecoa o drama de milhares de palestinos, forçados a um ciclo de fuga e retorno que se repete há gerações.
A travessia acontece sob o olhar vigilante dos soldados israelenses. No posto de controle de Netzarim, que divide Gaza ao meio, apenas os que passam pelos controles rigorosos são autorizados a prosseguir. Há quem espere dias na estrada. Outros, sem escolha, seguem adiante.
Mas a maioria não retorna apenas para reerguer o que foi destruído; muitos voltam para recuperar os corpos de seus familiares. Tamer al-Farani, funcionário de uma ONG local, perdeu contato com sua irmã, seu cunhado e seus sobrinhos em dezembro de 2023. Desde então, eles são apenas estatísticas entre os 6,8 mil desaparecidos registrados pela Cruz Vermelha. “Fomos informados de que a Defesa Civil não tem equipamentos. Mas usaremos nossas próprias mãos para encontrar seus corpos”, diz ele.
Diante de tal cenário, a travessia para Gaza não é um retorno ao lar. É uma descida aos escombros da própria humanidade.
Fome como Arma de Guerra: A Aniquilação Silenciosa
Se o fogo dos bombardeios destruiu cidades inteiras, é o cerco israelense que impõe a ruína lenta e meticulosa à população. De acordo com a Human Rights Watch (HRW), pelo menos 56 crianças morreram de fome desde o início da guerra, enquanto outras oito sucumbiram à hipotermia. O bloqueio total de Gaza impede a entrada de alimentos, água e assistência médica, resultando em um colapso humanitário sem precedentes.
O relatório da HRW, intitulado “Cinco Bebês em uma Incubadora”, denuncia que grávidas e recém-nascidos enfrentam um risco extremo. O acesso a hospitais é praticamente inexistente: das 18 unidades médicas de Gaza, apenas sete oferecem algum atendimento obstétrico emergencial. No entanto, a superlotação e a falta de recursos fazem com que as mulheres sejam expulsas das unidades de saúde poucas horas após o parto. Muitas sequer têm acesso a analgésicos.
Segundo a Federação Internacional de Planejamento Familiar, a taxa de abortos espontâneos aumentou 300% desde outubro de 2023. O organismo humano, sem comida e sem assistência, responde com tragédia à escassez imposta artificialmente.
O bloqueio israelense, além de contrariar a legislação internacional, configura o uso da fome como um método de guerra. Em 1949, a Quarta Convenção de Genebra determinou que a privação deliberada de bens essenciais a civis em tempos de guerra é um crime contra a humanidade. No entanto, as Nações Unidas assistem passivamente ao genocídio em curso.
O jurista sul-africano John Dugard, ex-relator especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, foi enfático ao classificar o cerco a Gaza como uma política de apartheid. Em 2007, Dugard afirmou: “O que estamos testemunhando em Gaza é mais grave do que o apartheid da África do Sul. É uma tentativa de tornar impossível a vida palestina.”
Desde então, a situação apenas se deteriorou.
A Lógica do Extermínio: Do Nakba ao Colonialismo do Século XXI
O que ocorre em Gaza hoje não é um fenômeno isolado. Ele é a continuação de um projeto colonial de ocupação e limpeza étnica que se iniciou em 1948, com a Nakba (“catástrofe”), quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos de suas casas e vilarejos inteiros foram destruídos para dar lugar ao novo Estado de Israel.
Setenta e cinco anos depois, Donald Trump ressuscita o projeto de deslocamento forçado, propondo a remoção da população de Gaza para Egito e Jordânia. Em um discurso recente, ele afirmou que seria necessário “limpar” Gaza e redistribuir seus habitantes para outros países. A ideia foi imediatamente endossada pelo ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, que declarou: “Após anos glorificando o terrorismo, os palestinos poderão estabelecer vidas novas e boas em outros lugares.”
A proposta é uma repetição da lógica colonialista que, historicamente, busca resolver conflitos por meio da remoção física de populações. O deslocamento forçado de civis é uma violação direta do Estatuto de Roma, que rege o Tribunal Penal Internacional. No entanto, essa estratégia tem precedentes históricos sombrios:
– A deportação de povos indígenas na América do Norte no século XIX, como a Trilha das Lágrimas nos Estados Unidos.
– A limpeza étnica dos bósnios pelos sérvios na década de 1990.
– O deslocamento forçado dos Rohingya em Mianmar, em 2017.
A retórica de Trump não apenas ignora esses precedentes históricos, mas os recicla e os legitima como política contemporânea.
EUA Reforçam Apoio a Israel em Meio a Acusações de Crimes de Guerra
Trump convidou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para ser o primeiro líder estrangeiro a visitar a Casa Branca desde o início de sua nova campanha presidencial. A decisão simboliza o fortalecimento dos laços entre Washington e Tel Aviv, mesmo diante das acusações contra Netanyahu no Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
A visita, marcada para 4 de fevereiro, ocorre em um contexto de forte tensão internacional. O convite é visto como um endosso ao governo de extrema-direita israelense.
Na carta oficial da Casa Branca, Trump escreveu que pretende discutir “como podemos trazer a paz para Israel e seus vizinhos” e os esforços para “combater nossos adversários em comum”. No entanto, suas recentes declarações sugerem um apoio irrestrito às ações militares israelenses e uma tentativa de reconfiguração demográfica na Palestina.
Trump sugeriu que países vizinhos, como Egito e Jordânia, deveriam acolher os palestinos deslocados de Gaza, proposta rapidamente rejeitada pelos governos regionais e por organizações de direitos humanos. Especialistas alertam que a ideia pode resultar em uma nova “Nakba”, o êxodo forçado de palestinos que ocorreu durante a criação do Estado de Israel em 1948.
Além disso, a sugestão de Trump ressoa com os interesses da ultradireita israelense, que deseja a colonização definitiva da Faixa de Gaza após a destruição em massa promovida pelas forças militares do país.
O Congresso e as Sanções ao TPI
Enquanto a aliança EUA-Israel se fortalece, parlamentares republicanos e democratas tentaram aprovar um projeto de lei que impunha sanções ao TPI por sua decisão de emitir um mandado de prisão contra Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa. A proposta previa punições a qualquer autoridade estrangeira que investigasse ou processasse cidadãos americanos ou de países aliados, como Israel.
A iniciativa passou na Câmara dos Deputados, mas foi barrada no Senado por não alcançar os votos necessários. Apesar da derrota, a tentativa reflete a influência do lobby pró-Israel em Washington e a disposição do governo americano em proteger seus aliados, mesmo quando acusados de crimes internacionais.
A Diplomacia Americana e o Apoio a Netanyahu
A visita de Netanyahu à Casa Branca reforça a cumplicidade de Washington com as ações do governo israelense. Enquanto o TPI busca responsabilizá-lo por crimes de guerra, os EUA continuam a fornecer bilhões de dólares em ajuda militar a Israel, garantindo a manutenção da ofensiva sobre Gaza e a expansão dos assentamentos ilegais na Cisjordânia.
A reunião entre Trump e Netanyahu ocorre em um momento crítico para a política internacional. Com eleições presidenciais se aproximando nos EUA, a relação com Israel se torna uma questão estratégica para Trump, que busca apoio entre eleitores pró-Israel e o lobby sionista.
Enquanto isso, os palestinos enfrentam um cenário de devastação e deslocamento forçado, com poucas perspectivas de justiça internacional. A comunidade global observa, mas os Estados Unidos seguem inabaláveis no apoio a Israel, mesmo diante das crescentes evidências de crimes contra a humanidade.
Gaza: Entre a Morte e a Resistência
A história da Faixa de Gaza não é apenas uma narrativa de destruição, mas também de resistência. O retorno dos palestinos ao território devastado não é um gesto ingênuo: ele é um ato de afirmação política, um desafio à lógica da aniquilação.
A frase de Amani Zahd, uma palestina que voltava ao bairro de al-Nasr, sintetiza essa resistência: “A cena é terrível e estranha. Há muitas pessoas, mas elas estão felizes. Apesar de todo o sofrimento, há felicidade. E eu também a sinto. Estou confiante de que o futuro será melhor.”
Diante da inércia da comunidade internacional e da cumplicidade silenciosa das grandes potências, os palestinos não esperam resgates. Não aguardam reconciliação diplomática. O que fazem é continuar existindo.
O mundo já falhou inúmeras vezes com os palestinos. Gaza é o retrato de uma catástrofe política que se repete. No entanto, se há algo que a história ensina, é que toda colonização tem um fim. A questão não é se os palestinos resistirão. Eles já resistem.
A questão é: até quando o Ocidente será cúmplice da barbárie?
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