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Mundo
Cessar-fogo em Gaza é pausa em projeto de colonização que une exploração econômica, apagamento cultural e controle das narrativas globais
Publicado em 24/01/2025 10:44 - Semana On
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Desde outubro de 2023, mais de 46 mil palestinos perderam suas vidas em Gaza, um número que análises independentes indicam ser ainda maior. Para além dos números, a realidade é de destruição, trauma e desumanização. O cessar-fogo, iniciado em 19 de janeiro de 2025, oferece um respiro a um povo cercado por décadas de colonização, apartheid e genocídio. Mas as raízes desse conflito vão além da violência militar: estão no controle das narrativas, na exploração econômica e na indiferença histórica que perpetua a barbárie.
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A história da Palestina moderna é inseparável do colonialismo. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, sob o pretexto de reparar injustiças históricas contra o povo judeu, o território palestino foi reduzido de forma sistemática. A cada década, mapas revelam a expansão israelense sobre terras originalmente árabes, numa dinâmica que ecoa os regimes coloniais do passado.
Essa realidade é reconhecida por organizações como a ONU, que classificou a ocupação dos territórios palestinos como ilegal em resoluções reiteradas. Em setembro de 2024, a Assembleia Geral exigiu a retirada israelense em 12 meses. No entanto, essas demandas esbarram na recusa histórica de Israel, amparada por potências ocidentais.
Essa colonização contemporânea mistura características clássicas — como a apropriação de terras — a elementos modernos, como o controle de recursos naturais estratégicos. A bacia de gás natural próxima à Faixa de Gaza, avaliada em 453 bilhões de dólares, é explorada exclusivamente por Israel, enquanto os palestinos sofrem bloqueios que restringem até mesmo o acesso a água e alimentos. Esse paradoxo reflete o cerne da exploração colonial: o uso do território e de sua população como instrumentos para a consolidação de poder econômico e político.
Desumanização e Narrativas de Poder
Ao longo dos séculos, o filósofo Frantz Fanon destacou que o colonialismo não apenas domina territórios, mas também subjuga a humanidade de seus povos, reduzindo-os a “objetos de uso”. Essa lógica é evidente na forma como os palestinos são representados na mídia e nas políticas de grandes potências.
O conflito israelo-palestino é frequentemente enquadrado como uma disputa entre “dois lados”, ignorando o profundo desequilíbrio de poder. Israel, uma potência militar com o apoio incondicional dos Estados Unidos, enfrenta uma população sitiada, privada de soberania e direitos básicos. Ainda assim, termos como “terrorista” são usados para descrever palestinos, enquanto ações israelenses são justificadas como “defesa”.
Esse enquadramento não é acidental. A mídia ocidental desempenha um papel central na construção de narrativas que legitimam a violência. Como analisou o jornalista Alex Hercog, há uma predominância de fontes israelenses na cobertura internacional, enquanto o contexto histórico e as violações de direitos humanos na Palestina são ignorados.
Essa parcialidade é reforçada pelas grandes plataformas digitais. Relatórios indicam que redes como Facebook e YouTube censuram conteúdos pró-palestinos enquanto lucram com anúncios que promovem discursos de ódio contra árabes. O Observatório Palestino de Violações de Direitos Digitais documentou mais de 10 mil casos de censura desde 2021, incluindo remoção de postagens e suspensões de contas.
A desumanização também se manifesta na indiferença global diante das atrocidades. O genocídio de mais de 18 mil crianças em Gaza desde 2023, relatado pela ONU, deveria ser motivo de indignação universal. No entanto, como observou o filósofo Giorgio Agamben, vivemos em uma época onde vidas são reduzidas a números, desprovidas de sua singularidade e, consequentemente, de sua importância.
Tecnologia e Guerra: A Desinformação Como Arma
O uso de tecnologia para manipular narrativas e intensificar a violência é uma característica marcante do conflito contemporâneo. Em Gaza, apagões de internet foram usados como tática militar, isolando o território e impedindo que violações fossem documentadas. Essa prática, denunciada por organizações como a 7amleh, revela o potencial da tecnologia não apenas como ferramenta de controle, mas como arma de guerra.
Ao mesmo tempo, as big techs desempenham um papel ambíguo. Enquanto lucram com anúncios que incitam o ódio, também são coniventes com o apagamento de vozes críticas. A meta, empresa proprietária do Facebook, foi acusada de remover conteúdos palestinos sob pressão de lobbies pró-Israel, enquanto permitia a disseminação de fake news que alimentavam o preconceito.
Esse cenário reflete o que a socióloga Zeynep Tufekci chama de “desordem informativa”, na qual a verdade é diluída em um mar de mentiras cuidadosamente projetadas para gerar indignação seletiva. A informação torna-se mais uma arma no arsenal da guerra, exacerbando preconceitos e anestesiando a opinião pública.
A Tragédia Humana: Mulheres e Crianças Sob o Cerco
O impacto mais devastador do conflito recai sobre as mulheres e crianças palestinas. De acordo com a UNICEF, mais de 70% das vítimas em Gaza são mulheres e crianças. Muitas morreram em bombardeios a hospitais e escolas, enquanto as que sobrevivem enfrentam traumas profundos.
O sistema de encarceramento israelense também perpetua essa violência. Crianças palestinas são presas sem julgamento, sob a justificativa de “segurança nacional”. Em muitos casos, elas são privadas de seus direitos básicos, submetidas a torturas físicas e psicológicas. Relatórios da Save the Children revelam que entre 500 e 700 crianças são detidas anualmente, numa prática que viola convenções internacionais.
Essa realidade, como ressaltou o historiador Sayid Marcos Tenório, é parte de um sistema projetado para desumanizar e desmobilizar. “Trata-se de um projeto de apagamento cultural, no qual o sofrimento se torna uma ferramenta de controle”, argumenta.
O Futuro da Palestina: Cessar-Fogo ou Pausa no Genocídio?
O cessar-fogo de janeiro de 2025 traz alívio temporário, mas não aborda as raízes do conflito. Sem a garantia do direito à autodeterminação, o genocídio em Gaza continuará. A troca de reféns por prisioneiros e a abertura de corredores humanitários são avanços pontuais, mas não suficientes para alterar o status quo.
A visão de “direito bíblico” sobre os territórios palestinos, promovida por líderes israelenses e apoiada por figuras como a diplomata de Trump na ONU, legitima um projeto de expansão territorial que viola princípios básicos do direito internacional. Para a Palestina, a soberania continua sendo um horizonte distante.
Gaza Como Símbolo da Luta Contra a Barbárie
O conflito em Gaza não é apenas uma questão local; é um símbolo de um mundo onde a desumanização e o colonialismo ainda prosperam. Ele nos força a questionar as estruturas de poder que sustentam a violência, desde as big techs até os governos que legitimam o genocídio.
Como escreveu Mahmoud Darwish, poeta palestino: “Aqui, no limite da morte, a vida explode”. A Palestina, apesar de cercada, permanece como um testemunho da resistência humana frente à opressão. Que a luta por justiça e dignidade ultrapasse as fronteiras de Gaza e inspire o mundo a rejeitar a barbárie em todas as suas formas.
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