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Mundo

Política migratória leva desaprovação de Trump a 58%

Em seis meses, o desmonte dos pilares da democracia americana

Publicado em 22/07/2025 12:30 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A desaprovação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alcançou 58%, segundo pesquisa divulgada no domingo (20) pela CBS/YouGov. A queda na aprovação, agora em 42%, ocorre em um momento de crescente descontentamento com a política migratória — eixo central da retórica trumpista desde 2016. Para 61% dos entrevistados, as ações do governo em relação à imigração e deportações são determinantes na avaliação da presidência. A pesquisa, realizada entre 16 e 18 de julho com 2.343 adultos e margem de erro de 2,5 pontos percentuais, aponta um cenário de erosão no apoio ao mandatário fora da base republicana.

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A queda na aprovação das políticas migratórias é particularmente reveladora. De acordo com o levantamento, o índice de apoio às medidas caiu de 54% em fevereiro para 44% em julho, enquanto a desaprovação saltou para 56%. O apoio ao programa de deportações em massa, antes majoritário, recuou dez pontos percentuais em cinco meses — de 59% para 49%. A rejeição é mais acentuada entre eleitores independentes (59%) e democratas (86%). Entre os republicanos, o apoio permanece altíssimo: 91%.

A divisão também se expressa no apoio ao uso de centros de detenção para imigrantes. A maioria da população (58%) desaprova essa prática, contrastando com a forte aprovação entre republicanos (85%). Democratas manifestam rejeição praticamente na mesma proporção (85%). A persistência dessa clivagem ilustra como o trumpismo remodelou a política migratória em termos de identidade partidária, transformando o tratamento de imigrantes em marcador ideológico mais do que em política pública baseada em resultados.

Esse descompasso entre base e eleitorado geral coloca Trump diante de um paradoxo político. Se, por um lado, sua retórica nacionalista fortalece o apoio entre conservadores, por outro, amplia sua rejeição em setores moderados — especialmente entre independentes. Esse grupo, crucial em eleições majoritárias, revela cansaço com a radicalização da agenda migratória: apenas 41% aprovam as deportações.

Historicamente, presidentes americanos que enfrentaram altos índices de desaprovação à beira de processos eleitorais tiveram dificuldades para sustentar maiorias no Congresso ou buscar a reeleição. Em 1992, George H. W. Bush viu sua popularidade despencar após a recessão, pavimentando o caminho para a vitória de Bill Clinton. Mais recentemente, Donald Trump já enfrentou níveis semelhantes de rejeição durante seu primeiro mandato — o que não impediu sua derrota em 2020 para Joe Biden. A novidade, agora, é que a rejeição se intensifica mesmo com a economia em relativa estabilidade, deslocando o foco para aspectos morais e humanitários de sua gestão.

A socióloga norte-americana Arlie Russell Hochschild, autora de Strangers in Their Own Land (The New Press, 2016), alerta que o populismo conservador nos EUA é sustentado por uma “história profunda” — uma narrativa emocional de ressentimento e perda de status — que a política migratória de Trump explora com eficácia. Contudo, à medida que a realidade da deportação em massa se torna visível — centros de detenção superlotados, separação de famílias, denúncias de abusos —, parte da sociedade se desloca dessa narrativa para um juízo ético mais severo.

O cenário se torna ainda mais complexo quando observado à luz do contexto histórico da imigração nos Estados Unidos, país que construiu sua identidade sobre fluxos migratórios. A retórica de Trump rompe com a tradição republicana do “melting pot” e adere a um nativismo reminiscentemente associado à política de quotas de imigração da década de 1920, quando a xenofobia foi institucionalizada por meio do Immigration Act de 1924.

A polarização em torno do tema também reflete uma tendência global. Em países como Hungria, Polônia, Itália e, mais recentemente, na França sob Marine Le Pen, a imigração tem sido utilizada como bode expiatório para canalizar insatisfações sociais. A diferença, nos EUA, está na centralidade que o tema assumiu na própria estratégia presidencial, funcionando como cimento ideológico de uma coalizão reacionária que vê no “invasor estrangeiro” o responsável por suas frustrações econômicas, culturais e existenciais.

As pesquisas do The New York Times e do Real Clear Politics corroboram o diagnóstico: a aprovação de Trump permanece estagnada na casa dos 44% a 45,5%, com desaprovação entre 52% e 53%. Em um sistema eleitoral como o americano — onde estados-pêndulo decidem a corrida presidencial — esse percentual pode ser fatal. Ainda que Trump mantenha apoio maciço entre republicanos, sua rejeição crescente entre independentes tende a comprometer sua competitividade eleitoral em estados-chave como Michigan, Wisconsin, Pensilvânia e Arizona.

O desafio, portanto, não é apenas de comunicação, mas de identidade política. O trumpismo moldou o Partido Republicano à sua imagem, mas ao custo de alienar segmentos crescentes do eleitorado. O risco, agora, é que a radicalização o empurre para um isolamento eleitoral que nem mesmo o entusiasmo da base consiga reverter.

Trump desmonta pilares da democracia americana em apenas seis meses

Em apenas seis meses de seu segundo mandato, Donald Trump transformou os Estados Unidos em um laboratório de autoritarismo em tempo real. Ordens executivas que violam o estado de direito, tentativas de coagir o Judiciário, ataques sistemáticos à liberdade de imprensa e uma campanha deliberada de instrumentalização do aparato estatal para fins pessoais marcam uma guinada inédita na história recente do país. A avaliação não parte apenas de opositores políticos, mas de especialistas internacionais em democracia e direitos humanos. Para Staffan Lindberg, diretor do respeitado instituto V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade de Gotemburgo, “se isso continuar assim, os EUA não serão mais considerados como uma democracia em 2026” — uma previsão que, à luz dos últimos meses, deixou de parecer alarmista para soar como um diagnóstico.

A ofensiva de Trump não é pontual nem improvisada: é meticulosamente arquitetada para corroer os freios e contrapesos da democracia liberal. Na Casa Branca, os limites entre o público e o privado foram desfeitos com naturalidade. Parentes e empresários ligados ao conglomerado Trump exploram símbolos nacionais para vender desde telefones e criptomoedas até bíblias e perfumes — mais de 150 produtos com associação direta ao poder presidencial. O Estado tornou-se vitrine para interesses particulares, em total desacordo com princípios republicanos fundamentais.

Simultaneamente, o presidente tem aprofundado o uso político da religião. “Tele-evangelistas” ocupam o Salão Oval, políticas públicas são pautadas por critérios religiosos, e investigações foram abertas para apurar uma suposta “perseguição contra cristãos”, numa tentativa explícita de mobilizar emocionalmente sua base evangélica e enfraquecer a laicidade do Estado — um dos pilares da Constituição americana desde o século XVIII.

Na área migratória, o governo transformou as deportações em espetáculo, com tintas de reality show e forte apelo xenófobo. As ações, longe de se restringirem à retórica, envolvem detenções em massa, perseguições a famílias e o uso de centros de detenção como ferramentas de intimidação. O Departamento de Educação foi esvaziado, programas sociais desmontados, universidades hostilizadas, e órgãos de controle paralisados — um processo de desmonte institucional que ecoa estratégias de regimes iliberais em diferentes partes do mundo.

O ataque mais frontal, no entanto, é dirigido à imprensa. Desde o início do mandato, Trump tem pressionado pela demissão de jornalistas, movido processos milionários contra veículos de comunicação e cortado verbas públicas essenciais. Ao estrangular financeiramente a NPR (National Public Radio) e a PBS (Public Broadcasting Service), ele ameaça fechar mais de 1.500 emissoras locais, que dependem desses conteúdos para manter jornalismo acessível à população. Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), trata-se de uma campanha articulada para impor um clima de autocensura. Clayton Weimers, diretor-executivo da RSF nos EUA, é taxativo:

“Trump tornou-se uma figura importante em um movimento político global antijornalismo que contribuiu para o declínio da liberdade de imprensa no mundo. É a mesma cartilha usada por predadores da imprensa globalmente, agora amplificada a partir da Casa Branca”.

O impacto transcende as fronteiras americanas. Os cortes de Trump à US Agency for Global Media resultaram no desmonte da Voice of America e no fim do apoio à mídia independente em países autoritários, abrindo espaço para potências como a Rússia preencherem o vácuo informacional. O canal estatal russo RT chegou a celebrar o fechamento da emissora americana como uma “decisão fantástica”.

Esse colapso da imagem internacional dos EUA como bastião da liberdade de expressão e das instituições democráticas marca o fim de um ciclo iniciado no pós-guerra. Durante décadas, Washington exportou o “modelo democrático americano” como ideal normativo. Agora, esse modelo está sob ataque interno — e não por forças externas, mas por ação direta do próprio chefe de Estado. A ironia histórica é inescapável.

O desmonte das garantias democráticas se apoia também na crença — agora fragilizada — de que as instituições americanas seriam suficientemente sólidas para conter impulsos autoritários. Esse “mito da resiliência institucional”, como tem sido chamado por acadêmicos como Yascha Mounk (Johns Hopkins University) e Steven Levitsky (Harvard University), revelou-se ilusório. Segundo Levitsky, coautor do livro How Democracies Die (2018), “as democracias não morrem mais com tanques nas ruas, mas com o gradual esvaziamento das instituições por dentro, feito por líderes eleitos que minam as regras do jogo democrático”.

Trump atua nesse sentido. Sua recusa em reconhecer limites constitucionais e a normalização do discurso autoritário levaram até mesmo setores tradicionalmente conservadores a soarem o alarme. A ideia de um novo mandato — hoje ilegal — não é tratada como delírio retórico, mas como hipótese política, especialmente diante da fragilidade das instituições responsáveis por conter abusos.

Diante desse cenário, o que se vê é um experimento sombrio, cujo desfecho ainda está em aberto. A democracia americana, construída sobre princípios iluministas, parece agora à mercê de um projeto personalista, antipluralista e antidemocrático. A pergunta que se impõe, seis meses após o início deste segundo governo, já não é se Trump ameaça a democracia americana — mas o quanto ainda resta dela.

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