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Mundo
Brasileiro defende soberania e paz; Trump responde com desinformação, ataques à ONU e desprezo ao direito internacional
Publicado em 23/09/2025 11:04 - Semana On
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Ao abrir a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso incisivo em defesa da democracia, da soberania dos povos e da urgência por soluções multilaterais para os conflitos que ameaçam a estabilidade mundial. Sem citar nomes, traçou o perfil de um autocrata perigoso — e foi impossível não reconhecer Donald Trump no retrato. O presidente dos Estados Unidos, que discursou na sequência, preferiu atacar a ONU, promover desinformação e ignorar os 65 mil mortos em Gaza.
“Podemos vencer os falsos profetas e oligarcas”, afirmou Lula ao final de sua fala, após denunciar o genocídio em curso no Oriente Médio, criticar o descaso com a emergência climática e reafirmar que “a democracia e a soberania brasileira são inegociáveis”. A resposta veio na forma de aplausos efusivos da plenária — com exceção notável da delegação americana, liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio, que permaneceu impassível.
Lula apresentou o Brasil como exemplo de resistência institucional. Relembrou que o país enfrentou ataques sem precedentes à sua democracia — numa referência direta ao 8 de janeiro de 2023 — e destacou que a recente condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro não foi “um ato de revanchismo, mas a afirmação da força de nossas instituições”.
“Democracias sólidas vão além do ritual eleitoral”, declarou. Ao abordar a fome, a desigualdade e o extremismo, apontou que a pobreza é tão perigosa quanto a violência autoritária — e defendeu a única guerra que vale a pena ser vencida: a guerra contra a fome. O país, lembrou, saiu do Mapa da Fome da ONU e lidera uma aliança internacional pelo combate à insegurança alimentar.
Em um momento simbólico, Lula alertou para o risco das plataformas digitais se tornarem “campos férteis para crimes e violência”, e defendeu sua regulação não como censura, mas como garantia de que as leis democráticas também valham no mundo digital.
A ausência e o desprezo de Trump
Donald Trump, por sua vez, não assistiu ao discurso de Lula nem à fala do secretário-geral da ONU, António Guterres. Quando subiu à tribuna, preferiu minimizar a importância da organização que o recebia. Questionou o papel da ONU, reclamou do mau funcionamento da escada rolante e do teleprompter, e acusou, sem provas, a entidade de financiar imigrantes rumo aos Estados Unidos. “Qual o objetivo da ONU?”, provocou. “Ela não estava lá para nós.”
A fala foi marcada por ironias e ressentimentos. Trump criticou a reforma do prédio-sede da ONU, se disse ignorado pela diplomacia global e voltou a atacar o reconhecimento do Estado Palestino, equiparando-o a um prêmio ao terrorismo. Ignorou completamente o massacre em Gaza e poupou Israel de qualquer crítica, mesmo diante da catástrofe humanitária. Enquanto Lula se propôs a ajudar, ao lado da China, na busca por uma saída pacífica para a guerra na Ucrânia, Trump preferiu se exaltar como único responsável por uma suposta paz em tempos recentes.
O contraste não poderia ser mais evidente: enquanto um clama por diálogo entre as nações e fortalecimento das instituições internacionais, o outro investe contra elas. Um é a voz do Sul Global pedindo espaço e respeito. O outro, o eco de um nacionalismo excludente e ressentido.
A reação do mundo
Lula foi aplaudido ao menos cinco vezes por chefes de Estado e diplomatas durante sua fala — especialmente ao afirmar que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”. O gesto foi um recado direto aos que tentam interferir em assuntos internos do Brasil, incluindo pressões recentes dos EUA em defesa de Bolsonaro.
A delegação norte-americana, porém, não reagiu. Apenas Scott Bessent, secretário do Tesouro, aplaudiu ao final. A frieza da reação explicitou o desconforto com as críticas à postura americana em relação a Gaza, ao multilateralismo e à ingerência internacional.
Segundo análise do jornalista Jamil Chade, do UOL, diplomatas relataram “profundo mal-estar” após o discurso de Trump. O próprio Guterres havia alertado minutos antes: “O poder sem legitimidade é insustentável”.
Um espelho da disputa global
O embate entre os discursos de Lula e Trump sintetiza um momento crucial da geopolítica contemporânea. De um lado, a aposta na cooperação, na justiça social e no multilateralismo como caminhos para a paz. De outro, a tentativa de deslegitimar instituições globais, negar a ciência, atacar a democracia e espalhar desinformação.
Ao evocar o legado de figuras como Pepe Mujica e o papa Francisco, Lula reforçou que ainda há lugar para lideranças com visão histórica e compromisso ético com o futuro comum da humanidade. Trump, ao se perder em queixas sobre escadas rolantes e conspirações imigratórias, revelou o empobrecimento moral e político de seu projeto.
A ONU, diante disso, serviu como espelho: refletiu a grandeza de um país que tenta reconstruir sua credibilidade internacional — e a pequenez de quem insiste em se colocar acima das regras que sustentam a convivência entre as nações.
Veja trechos do discurso de Lula
Soberania nacional, multilateralismo e extrema direita
Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas.
Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades. Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa.
Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade.
Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela.
‘Genocídio’ em Gaza
Nenhuma situação é mais emblemática do uso desproporcional e ilegal da força do que a da Palestina. Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo. Mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza.
Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes. Ali também estão sepultados o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente.
Regulação das redes sociais e das big techs
As plataformas digitais trazem possibilidades de nos aproximar como jamais havíamos imaginado, mas têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação. A internet não pode ser uma “terra sem lei”. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis.
Regular não é restringir a liberdade de expressão, é garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual. Ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia.
COP e clima
A COP30, em Belém, será a COP da verdade. Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta.
Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios. Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões.
Guterres alerta para “era de caos” e confronta Trump em discurso na ONU
Em um dos discursos mais contundentes de seus sete anos à frente da ONU, o secretário-geral António Guterres alertou que o mundo caminha para um “período de caos” diante do colapso da ordem multilateral. Em tom direto e crítico, denunciou o desmonte da capacidade de ação da entidade, numa referência clara — ainda que indireta — ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, responsável por suspender repasses financeiros e minar a autoridade do organismo internacional.
O cenário, descrito por Guterres como uma “era de perturbação imprudente e sofrimento humano implacável”, marcou o início da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, uma das mais tensas em décadas. “Os pilares da paz e do progresso estão cedendo sob o peso da impunidade, da desigualdade e da indiferença”, afirmou.
Trump, possível candidato republicano à presidência em 2024, não apenas retirou os EUA de acordos multilaterais como o Acordo de Paris e o Conselho de Direitos Humanos da ONU durante seu mandato, como também promoveu uma política de hostilidade aberta à organização. Nesta nova edição da Assembleia, optou por não comparecer sequer ao prédio da ONU em Nova York, num gesto visto por diplomatas como boicote deliberado ao discurso do secretário-geral.
Ataques indiretos, reformas drásticas
Em sua fala, Guterres não mencionou Trump diretamente, mas o alvo era evidente. “Nossa capacidade de realizar nosso trabalho está sendo cortada de nós”, disse, em referência à decisão da Casa Branca de suspender parte dos repasses financeiros à entidade — medida iniciada na gestão Trump e que ainda reverbera no orçamento da organização.
Para tentar preservar a relevância da ONU, Guterres anunciou uma reforma estrutural considerada a maior desde a fundação da entidade em 1945. As mudanças incluem a redução de agências e o deslocamento de parte das operações para fora dos Estados Unidos, em resposta tanto à crise financeira quanto à instabilidade política que ameaça o funcionamento da sede em Nova York.
“O mundo é cada vez mais multipolar”, afirmou, “mas, sem instituições fortes, a multipolaridade pode gerar caos”, evocando o exemplo da Europa nos anos 1930, quando o enfraquecimento das estruturas internacionais levou à Segunda Guerra Mundial.
Gaza: “decisões que desafiam a humanidade”
Guterres também dedicou parte central do discurso à crise humanitária em Gaza, que chamou de “o terceiro ano monstruoso” de um conflito sem precedentes em sua gestão. Denunciou o cerco à população civil e o desrespeito às ordens do Tribunal Internacional de Justiça, que exigem de Israel ações concretas para prevenir o genocídio e ampliar a ajuda humanitária.
“São o resultado de decisões que desafiam a humanidade básica”, disse Guterres. “Nada pode justificar os horríveis ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro. E nada pode justificar a punição coletiva do povo palestino e a destruição sistemática de Gaza.”
A delegação de Israel não estava presente na plenária no momento do discurso.
O secretário-geral foi categórico ao defender uma solução política: “Sabemos o que é necessário: cessar-fogo permanente agora. Todos os reféns libertados agora. Acesso humanitário total agora. E não devemos ceder na única resposta viável para uma paz sustentável no Oriente Médio: uma solução de dois Estados”.
A crise da ordem internacional
O apelo de Guterres acontece em um momento em que a ONU se vê acuada por potências que antes lideravam sua construção. Trump simboliza essa ruptura: sob seu governo, os EUA reduziram drasticamente sua contribuição financeira, rejeitaram acordos multilaterais e estimularam o nacionalismo como resposta a problemas globais.
Como destaca Richard Gowan, diretor da ONU no International Crisis Group, “Trump sempre viu a ONU como um obstáculo ao poder americano, não como um instrumento para ampliá-lo” (fonte: Foreign Policy, 2020). A crítica de Guterres, portanto, é não apenas um repúdio ao passado, mas uma advertência sobre o futuro.
A multipolaridade sem coordenação institucional, segundo o secretário-geral, abre espaço para a anarquia internacional. Sua fala, permeada por imagens de cidades bombardeadas, sociedades fragmentadas e litorais submersos, soa como uma última tentativa de mobilizar os Estados-membros antes que a ONU se torne irrelevante.
Resistência e legado
Guterres encerrou o discurso com um tom pessoal e combativo, evocando sua juventude sob a ditadura de Salazar em Portugal. “Nunca vou desistir”, declarou. A frase, mais do que uma defesa da ONU, é um apelo à sobrevivência de um projeto coletivo de humanidade — aquele que nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial e que, 80 anos depois, luta para não ser soterrado pela indiferença das potências.
Em tempos de guerra, crise climática, colapso da confiança institucional e retrocesso democrático, o discurso de Guterres marca um ponto de inflexão: ou os líderes mundiais escolhem a cooperação — como fizeram em 1945 — ou legitimam o caos que já se anuncia.
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