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Especial

BIG BROTHER

Big Techs tornam realidade a ficção de Orwell na construção de um mundo totalitário

Publicado em 19/09/2025 5:33 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Não foi preciso erguer uma “tela onipresente” para que o Big Brother de Orwell saísse da ficção: ele já mora nos nossos bolsos, terceirizado a plataformas que coletam, cruzam e monetizam cada gesto. A conversão da IA em pauta de governo, marketing e guerra simboliza uma simbiose entre poder político e corporativo que esvazia a fronteira entre interesse público e interesse privado.

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Da coordenação de narrativas online ao lobby que atravessa capitais latino-americanas, das promessas de inovação à captura regulatória, as Big Techs operam como novos ministérios do olhar: definem o que vemos, o que vale e o que pode ser dito. No lugar do velho totalitarismo de botas, um regime suave e eficaz, alimentado por dados, algoritmos e contratos. O resultado é conhecido: quando quem vigia também escreve as regras, a democracia vira apenas mais um item nos termos de uso.

Chamou a atenção do mundo o jantar promovido no último dia 4 pela Casa Branca entre o presidente Donald Trump e os executivos das maiores big techs do planeta. Cercado por gente como Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), Bill Gates (Microsoft), Satya Nadella (Microsoft), Sundar Pichai e Sergey Brin (Google), Sam Altman (OpenAI) e Safra Catz (Oracle), entre outros, o presidente americano foi paparicado e elogiado em uma cena grotesca que, mais que submissão, aponta uma parceria que põe em risco a democracia em todo o mundo. A grande ausência da noite foi O CEO da Tesla e da SpaceX, Elon Musk. O empresário foi um dos principais apoiadores de Trump durante a campanha eleitoral de 2024. Em maio, porém, deixou o cargo de conselheiro especial do Doge (Departamento de Eficiência Governamental) e, desde então, ele e o presidente norte-americano trocaram críticas publicamente.

Durante o jantar, Trump circulou entre os convidados perguntando quanto cada empresa estava investindo nos Estados Unidos. Zuckerberg e Cook responderam: US$ 600 bilhões. Pichai mencionou US$ 250 bilhões. Satya Nadella estimou até US$ 80 bilhões por ano pela Microsoft. “Ótimo”, disse Trump. “Muito bom.” O tom foi de pragmatismo econômico — mas o subtexto político era evidente.

A ocasião também marcou a primeira reunião da nova força-tarefa de Educação em Inteligência Artificial da Casa Branca, presidida pela primeira-dama Melania Trump. “Os robôs estão aqui. Nosso futuro não é mais ficção científica”, declarou ela — uma frase que soa tanto como anúncio quanto como alerta.

Mas o que preocupa críticos e observadores é menos o entusiasmo com a inovação e mais o uso político e ideológico da tecnologia. Donald Trump tem sido um usuário frequente de imagens geradas por inteligência artificial nas redes sociais, mesmo após criticar a tecnologia por disseminar conteúdos enganosos. Recentemente, alegou que um vídeo onde objetos eram jogados de uma janela da Casa Branca havia sido “feito por IA” — apesar de sua própria equipe ter confirmado a autenticidade do vídeo horas antes. Em seguida, declarou: “Se algo realmente ruim acontecer, talvez eu tenha que culpar a IA”.

A dubiedade da relação de Trump com a IA reflete uma estratégia de poder: ao mesmo tempo em que critica a tecnologia, ele a incorpora como ferramenta de comunicação, desinformação e controle de narrativa. Para o senador republicano Josh Hawley, um dos aliados mais próximos de Trump, isso é motivo de preocupação. Em uma conferência conservadora em Washington, Hawley afirmou: “O governo deveria inspecionar todos esses sistemas de IA de ponta para que possamos entender melhor o que os titãs da tecnologia planejam construir e destruir.”

Hawley, que vem defendendo maior regulação das big techs, destacou empresas como a Meta e a OpenAI como exemplos do poder desmedido que se concentra em poucas mãos. Segundo relatório do Center for Humane Technology, publicado em abril deste ano, apenas quatro empresas controlam cerca de 87% do mercado global de plataformas de IA generativa.

A aproximação entre Trump e os gigantes tecnológicos não é uma exceção americana, mas um sinal de uma tendência global. Em regimes autoritários e democracias fragilizadas, a tecnologia tem sido instrumentalizada para consolidar poder. O pesquisador Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism, já alertava em 2020 que “quando as empresas de tecnologia se tornam cúmplices do poder político, o resultado não é inovação, mas vigilância e controle social.”

Ao alinhar-se publicamente com CEOs das maiores empresas do planeta, Trump não apenas busca apoio financeiro e simbólico: ele tenta moldar os rumos da próxima revolução tecnológica segundo seus próprios interesses. E isso, como já demonstrado por episódios anteriores envolvendo redes sociais, algoritmos e campanhas políticas, coloca em risco os pilares da democracia — transparência, pluralidade e controle público.

A mão invisível das Big Techs na política latino-americana

Extensa reportagem da Agência Pública mostra que a atuação de Google, Meta, Amazon, Microsoft e outras gigantes tecnológicas na América Latina ultrapassa a oferta de serviços digitais: elas influenciam diretamente a formulação de leis e políticas públicas nos países da região. Por meio de associações empresariais, como a Alai (Associação Latino-Americana de Internet), e lobistas disfarçados de especialistas, essas empresas mantêm canais diretos com legisladores, pressionam contra regulações desfavoráveis e financiam estudos que sustentam seus interesses comerciais. A investigação jornalística transnacional “A Mão Invisível das Big Techs”, liderada pela Agência Pública e pelo CLIP, mostra como essa influência ocorre com intensidade e sofisticação, em pelo menos 13 países latino-americanos.

Em abril de 2025, um vídeo aparentemente inofensivo publicado no Instagram do deputado colombiano Diego Caicedo expôs parte desse mecanismo. Ao lado de Pablo Nieto, representante da Alai, Caicedo discute a necessidade de marcos regulatórios para inteligência artificial. A cena ocorreu durante o Digiecon 2025, na Cidade do México, evento que reuniu 15 parlamentares latino-americanos com executivos de empresas como Google, TikTok, Meta, Rappi e Mercado Livre. O encontro, organizado pela Alai, ilustra como essas corporações acessam diretamente o processo legislativo, muitas vezes longe do olhar do público.

Lobby transnacional: de Montevidéu a Brasília

Fundada em 2015 no Uruguai, a Alai transformou-se numa das principais ferramentas de lobby das Big Techs na região. Hoje, representa 14 empresas, entre elas Amazon, TikTok, Airbnb e a própria Rappi. Segundo registros oficiais, cada uma pode pagar até 50 mil dólares por ano para integrar a associação, que em 2023 arrecadou mais de 1 milhão de dólares. Em nome da “inovação” e da “competitividade”, a entidade pressiona legisladores e tribunais contra regulações que possam afetar seus modelos de negócio.

O caso brasileiro é exemplar. A deputada Any Ortiz (Cidadania-RS) participou do Digiecon e, semanas depois, pediu uma audiência pública na Câmara para discutir um estudo da Alai que criticava o PL 2.768/2022, que regula mercados digitais no país. O estudo afirma que a proposta pode gerar custos de mais de R$ 2 bilhões aos usuários. Ortiz, relatora do projeto, ecoou argumentos da Alai durante a audiência: “algumas regras do DMA [lei europeia que inspira o PL] não se aplicam no Brasil” e “poderia impactar o custo para o consumidor”. A deputada negou relação entre sua participação no evento e suas posições, mas não informou quem financiou sua viagem ao México.

Em outra frente, a Alai atuou ativamente contra o PL das Fake News (2.630/2020), que visava responsabilizar plataformas digitais pela disseminação de desinformação. Entre março e maio de 2023, publicou três comunicados contrários à proposta, alegando risco de “controle estatal das redes”. Para Artur Romeu, da Repórteres sem Fronteiras, o argumento não se sustenta: “Regulação não é censura. O PL 2.630 foi amplamente debatido durante anos com a sociedade e se baseia em modelos democráticos”.

Porta giratória e bastidores jurídicos

Outra tática recorrente é o uso da chamada porta giratória: contratação de ex-servidores públicos para atuar como representantes da indústria tecnológica. Um levantamento do Núcleo Jornalismo identificou 51 casos no Brasil, sendo que 68% dos lobistas já haviam trabalhado no setor público. O caso mais notório é o de Michel Temer, ex-presidente da República, envolvido em articulações com plataformas. Já Sérgio Garcia Alves, gerente da Alai no Brasil, passou por Anatel, Casa Civil e Ministério da Ciência e Tecnologia antes de assumir seu cargo atual.

O lobby também se dá por vias jurídicas. O escritório Bialer Falsetti Associados (BFA), por exemplo, defende a Meta perante a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), ao mesmo tempo em que atua como consultor do ITI (Information Technology Industry Council), uma associação internacional de Big Techs. A sócia Ana Paula Bialer visitou a Câmara ao menos 12 vezes entre 2023 e 2025, inclusive durante votações-chave sobre regulação digital. Em 2021, Bialer chegou a assinar um artigo com a deputada Luísa Canziani (PSD-PR) — então presidente da Frente Digital — defendendo uma regulação de IA mais favorável ao setor privado.

Lobby disfarçado de “cooperação internacional”

Além da Alai, outras entidades globais como o ITI, o CIPL (Center for Information Policy Leadership) e a britânica Access Partnership promovem atividades de influência. O ITI, que inclui membros como Microsoft, Meta, Amazon e Apple, realizou 11 reuniões com autoridades brasileiras entre 2023 e 2024, tratando de regulação de IA e de infraestrutura digital. O grupo também organizou eventos com congressistas em Washington e seminários em Brasília, como o “Regulação do Uso das Redes de Telecomunicações”, realizado em parceria com a Editora Globo.

Em uma audiência pública sobre o PL 2.338/2023, que regula a inteligência artificial, Courtney Lang, vice-presidente do ITI, recomendou eliminar artigos que garantem direitos aos usuários: “parecem indicar que há riscos significativos aos direitos humanos no ciclo de vida da IA, o que nem sempre é o caso”. O senador Marcos Pontes (PL-SP), presente em encontros organizados pelo ITI, defendeu mudanças alinhadas às sugestões do grupo.

Estratégia regional, resistência localizada

A expansão da atuação do lobby digital se dá em países onde a regulação ainda é incipiente. A Aliança por uma Internet Aberta (AIA), fundada com apoio da Alai, opõe-se à “tarifa de rede” — proposta que prevê que Big Techs contribuam com a infraestrutura de telecomunicações. Criada no Brasil em 2023, a AIA se espalhou pela América Latina em 2025, com direção de Mercedes Aramendía, ex-reguladora do setor no Uruguai. Um típico caso de porta giratória.

Na Colômbia, o vídeo de Caicedo não foi um gesto isolado. Em 2024, o deputado impulsionou uma comissão para estudar projetos sobre IA, o que, segundo o senador Alirio Uribe, teve o real objetivo de “obstruir todos os projetos”. Pablo Nieto, gerente andino da Alai, visitou 22 vezes o Congresso colombiano entre 2023 e 2024, segundo revelou o site Cuestión Pública. No Equador, influenciou a regulação da Lei de Proteção de Dados, aprovada em 2022, sem participação relevante da sociedade civil.

A assimetria no jogo regulatório

Embora as empresas digam seguir a legislação local, seus relatórios aos acionistas expõem outra preocupação. Em seu relatório de 2024, a Alphabet (controladora do Google) afirma: “Cumprir essas leis e regulamentos pode ser oneroso para nós […] e reduzir a utilidade de nossos produtos”.

Enquanto isso, apenas 55% da população da Argentina, Brasil, Colômbia e México apoia a regulação da IA — número que sobe para 65% entre os que conhecem a tecnologia, segundo pesquisa da Ipsos. Na União Europeia, essa regulação já impede que a Meta use dados pessoais para treinar sistemas de IA, o que não ocorre em boa parte da América Latina, onde os dados dos usuários seguem sendo coletados sem transparência ou controle efetivo.

“O que vemos é um campo de jogo completamente desigual”, resume Andrés Hernández, da Transparência pela Colômbia. A regulação ainda engatinha, enquanto o lobby caminha a passos largos. Governos subfinanciados, marcos legais frágeis e conhecimento técnico limitado enfrentam gigantes com recursos quase ilimitados, estrutura global e influência direta nos centros de poder. A “mão invisível” das Big Techs, afinal, está em toda parte — menos sob controle.

Como as Big Techs sufocam a regulação no Brasil

A Agência Pública mostrou, em uma das reportagens da série “A mão invisível das Big techs”, que nos últimos dez anos, as grandes plataformas de tecnologia instalaram, de forma silenciosa porém eficaz, uma poderosa engrenagem de lobby no Brasil. O objetivo é claro: barrar, nos bastidores do Congresso Nacional, qualquer tentativa de regulação que possa restringir seus modelos de negócio ou impor responsabilidades legais sobre conteúdos e dados. Um mapeamento inédito revelou a amplitude dessa influência — e o quanto ela tem sido bem-sucedida.

Realizado pelo Núcleo Jornalismo, em parceria com a Agência Pública e o Centro Latino-americano de Investigação Jornalística (CLIP), o levantamento identificou 74 profissionais atuando diretamente em articulações com o Executivo e o Legislativo, ligados a 16 grandes empresas de tecnologia. Dois em cada três desses profissionais passaram por órgãos de governo — como a Presidência da República, ministérios, o Congresso ou agências reguladoras — antes de ingressar no setor privado. Trata-se de um caso emblemático da chamada porta giratória, um mecanismo que naturaliza a promiscuidade entre o público e o privado na formulação de políticas públicas.

Cerca de metade das contratações ocorreu entre 2021 e 2023, precisamente quando o Projeto de Lei 2.630/2020, o chamado PL das Fake News, ganhou força no Legislativo. Coincidência? Dificilmente. O projeto, que visava impor maior transparência e responsabilidade às plataformas digitais, acabou sendo sepultado em 2024 por Arthur Lira (PP-AL), então presidente da Câmara dos Deputados, que declarou que o texto estava “morto”.

A pesquisa, feita por meio da técnica de snowball sampling no LinkedIn, considerou apenas funcionários com cargos formalmente ligados a “relações governamentais” e “políticas públicas”. Apesar disso, os números não incluem profissionais de associações lobistas como a Câmara Brasileira de Economia Digital ou o Conselho Digital (ex-Instituto Cidadania Digital), organizações fortemente financiadas por essas mesmas empresas.

Meta lidera o jogo político

Dentre todas as plataformas, a Meta — controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp — desponta como a que mais investe em influência política: 19 profissionais identificados com funções relacionadas à articulação institucional. O Google aparece logo atrás, com 10 profissionais — número que sobe para 13 quando se inclui o YouTube. Ambas foram particularmente ativas na campanha contra o PL das Fake News entre 2022 e 2024.

O Google, por exemplo, contratou o ex-presidente Michel Temer como articulador político e publicou alertas contra o projeto em sua página inicial, manobra que gerou inquéritos por abuso de poder econômico. A Meta, por sua vez, alugou espaços publicitários em jornais e aeroportos para bombardear a proposta. Segundo relatos de bastidores obtidos pela investigação, os lobistas dessas empresas pressionaram até mesmo confederações de outros setores econômicos a se posicionarem contra a regulação.

A pressão atingiu tal ponto que, durante as negociações, discussões sobre concessões como a construção de data centers entraram em jogo. “É um aluguel ali muito nítido, que tinha uma troca colocada”, relatou uma fonte envolvida nas tratativas, sob condição de anonimato.

Um lobby cada vez mais profissionalizado

Essa profissionalização do lobby digital no Brasil é acompanhada de perto por Rafael Zanatta, diretor da Associação Data Privacy Brasil. Segundo ele, a transformação começou ainda em 2015, nas discussões sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). “A Brascom, que reúne gigantes como IBM e Microsoft, deixou de atuar apenas em questões tributárias e passou a influenciar ativamente o processo legislativo”, aponta. A LGPD, apesar das resistências, acabou aprovada em 2018.

Zanatta lembra que o lobby em si não é ilegal, mas que a ausência de uma regulação clara sobre essa atividade no Brasil cria brechas para práticas questionáveis. “O que não é permitido [nos EUA], por exemplo, é produzir um rascunho de lei para ser apresentado diretamente por um parlamentar, algo que aqui é comum”, afirma. A legislação norte-americana exige, inclusive, transparência pública sobre as causas defendidas e os agentes envolvidos — um contraste gritante com a opacidade brasileira.

Segundo o pesquisador, esse modelo veio importado dos EUA, mediado por organizações como a US Chamber of Commerce e a Business Software Alliance (BSA), que têm atuado diretamente em reuniões com membros do governo brasileiro. É a internacionalização do lobby como estratégia de contenção de riscos regulatórios.

O Brasil como peça-chave no tabuleiro global

A ofensiva das Big Techs no Brasil não é um caso isolado, mas uma peça estratégica num cenário global. Como explica Andressa Michelotti, doutoranda em Ciência Política pela UFMG, “se uma lei regulatória passa no Brasil, ela pode virar referência para outros países do Sul Global”. Por isso, as empresas atuam de forma coordenada para impedir qualquer avanço legislativo que possa servir de modelo internacional.

A mesma análise é feita por Bia Barbosa, coordenadora de Incidência da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) para a América Latina: “Era uma prioridade até internacionalmente barrar a votação aqui no Brasil. Era uma determinação dos times [das Big Techs] que essa lei não avançasse por causa da influência do Brasil na região”.

O poder sem rosto

Um dos aspectos mais simbólicos desse processo é a invisibilidade dos nomes por trás das ações. A investigação decidiu não divulgar os nomes dos profissionais identificados, por se tratar de atividade legal. No entanto, a omissão revela um paradoxo: trata-se de um poder real, com impacto direto sobre a democracia, mas que atua sem transparência ou responsabilização.

Além disso, ao menos 11 dos profissionais identificados vieram de setores como petróleo, mineração, tabaco e bancos — segmentos historicamente conhecidos por sua forte influência sobre o Estado. Isso sugere que o lobby digital não é uma criação original do Vale do Silício, mas uma continuação adaptada de velhas práticas corporativas.

A construção dessa “tropa do bloqueio” por parte das Big Techs no Brasil revela mais do que uma disputa por marcos regulatórios: expõe um desequilíbrio estrutural na relação entre poder econômico e instituições democráticas. Em nome da “liberdade de expressão” ou da “inovação tecnológica”, empresas como Meta e Google têm operado com eficácia cirúrgica para esvaziar projetos legislativos e manter o país em um vácuo regulatório conveniente — para elas.

A ausência de uma lei de lobby, a recorrência da porta giratória e a penetração estratégica nos corredores do poder não são sintomas de um sistema democrático saudável. São alertas. E quanto mais tarde forem levados a sério, mais difícil será retomar o controle público sobre as regras do jogo digital.

Governo propõe regulação econômica de big techs

O Governo Federal encaminhou à Câmara dos Deputados o projeto de lei da Concorrência Digital Justa, com o objetivo de regular a atuação econômica de grandes plataformas digitais no Brasil e fortalecer a capacidade de fiscalização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A proposta surge em um contexto de crescente domínio das big techs em diversos setores e prevê mudanças na Lei 12.529/2011 para enfrentar práticas que ameaçam a concorrência e comprometem a transparência e a liberdade de escolha de consumidores e empresas.

A medida responde a um cenário global em que gigantes digitais detêm poder concentrado sobre fluxos informacionais, comportamento do consumidor e infraestrutura digital. Nesse ambiente, as práticas anticompetitivas se tornam mais sofisticadas e difíceis de rastrear. O projeto brasileiro alinha-se a movimentos similares já em curso na União Europeia, com o Digital Markets Act, e nos Estados Unidos, onde propostas como a American Innovation and Choice Online Act buscam restringir abusos de poder de mercado.

Segundo o presidente do Cade, Gustavo Augusto, a proposta parte do reconhecimento de que “as rápidas mudanças trazidas pelo avanço da inteligência artificial e da economia digital têm criado a necessidade de as autoridades de defesa da concorrência reverem seus instrumentos de atuação, em todo o mundo”. Ele acrescenta que o foco do Cade será “proteger o bem-estar do consumidor e garantir que a competição no mercado digital se dê de uma forma justa e equilibrada”.

Designações e obrigações específicas

O projeto de lei propõe a criação de dois mecanismos administrativos novos, ambos sob responsabilidade do Cade:

– A designação de plataformas de relevância sistêmica nos mercados digitais;

– A atribuição de obrigações especiais a essas plataformas.

Para serem enquadradas, as plataformas precisam ter faturamento anual superior a R$ 5 bilhões no Brasil e R$ 50 bilhões globalmente. A designação será feita por meio de processo administrativo e deverá ser aprovada pelo Tribunal do Cade. Uma vez designadas, as plataformas terão obrigações específicas, cujo descumprimento poderá gerar multas e sanções corretivas.

A proposta visa mitigar os chamados efeitos de rede — quando o valor de uma plataforma cresce exponencialmente com o aumento de usuários — e os custos de mudança, que tornam consumidores e empresas dependentes de uma única solução digital. Ao propor equilíbrio regulatório sem inibir a inovação, o governo sinaliza que pretende atuar de forma seletiva e técnica, focando apenas nas empresas que exercem poder econômico significativo.

STF: regulação das redes sociais é “imprescindível”

Em paralelo à proposta do Executivo, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, defendeu a necessidade urgente de regulação das redes sociais, sobretudo diante da escalada de discursos de ódio, desinformação e abusos envolvendo crianças e adolescentes.

Durante seminário sobre liberdade de imprensa, Barroso reiterou a importância da liberdade de expressão, mas alertou para seus limites: “O discurso de ódio viola a dignidade da pessoa humana, a mentira deliberada prejudica a busca pela verdade e prejudica a participação esclarecida dentro do processo democrático”, afirmou.

A fala do ministro reflete um entendimento cada vez mais comum entre juristas e acadêmicos: o de que as plataformas digitais não podem continuar operando sem responsabilidade objetiva sobre o conteúdo que veiculam. Em decisão recente de junho deste ano, o STF firmou jurisprudência ao responsabilizar diretamente as plataformas por conteúdos ilegais postados por seus usuários.

Além disso, Barroso chamou atenção para o legado histórico do Brasil em relação à censura, afirmando que, apesar dos avanços constitucionais, ainda persiste uma “cultura censória”: “A Constituição foi bem obsessiva em matéria de liberdade de expressão. Mesmo assim, a cultura do país ainda continua a ser uma cultura relativamente censória”, declarou.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, em A Galáxia da Internet, já alertava que o poder comunicativo se tornou a principal arena de disputa no século XXI, e que “quem controla os fluxos de informação, controla a sociedade”.

Apesar da urgência e da articulação institucional, a tramitação do projeto de lei da Concorrência Digital Justa no Congresso Nacional deve enfrentar resistência. O lobby das big techs é notoriamente poderoso, e setores da sociedade ainda demonstram receio de que qualquer regulação possa significar cerceamento da liberdade de expressão.

No entanto, o argumento central do governo e do STF não é censurar, mas regras claras e proporcionais que limitem práticas abusivas, tanto na esfera econômica quanto no campo informacional. Como lembra o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto, “a liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades — mas, como toda liberdade, não é absoluta”.

O desafio, portanto, será equilibrar liberdade e responsabilidade, inovação e controle, concorrência e regulação. E fazê-lo com transparência, rigor técnico e diálogo social.

Risco militar

A relação entre Trump e as big techs aponta para uma nova configuração do poder global, em que empresas como Google, Microsoft, Meta, Amazon e Palantir são incorporadas ao aparato militar norte-americano, transformando-se em verdadeiras extensões do Estado.

Em junho, o Exército dos Estados Unidos anunciou a criação do Destacamento 201, unidade voltada para integração tecnológica das Forças Armadas. Executivos de empresas como OpenAI, Palantir e Meta foram nomeados tenentes-coronéis honorários. Segundo comunicado oficial, a intenção é “inspirar mais profissionais de tecnologia a servir sem abandonar suas carreiras”. A nomeação dos empresários, no entanto, está longe de ser apenas simbólica.

No recém-lançado livro As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-dataficado, o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), detalha a participação direta dessas empresas em operações de guerra conduzidas pelos EUA e seus aliados. “As big techs são máquinas geopolíticas. A tecnologia é um dos principais instrumentos do poder político, econômico e militar global. O próprio Trump diz que as big techs são a linha de frente do poder americano”, afirmou Amadeu à Agência Brasil.

O conceito-chave do livro — o “complexo militar-industrial-dataficado” — é uma atualização do termo cunhado pelo ex-presidente Dwight D. Eisenhower em 1961, quando advertiu sobre a influência excessiva da indústria bélica nas decisões políticas dos EUA. Segundo Amadeu, a lógica agora é outra: “Se antes empresas como a Lockheed apenas forneciam armas, hoje as big techs estão inseridas no centro das estratégias e ações militares, provendo inteligência artificial, infraestrutura de dados e mapeamento social”, explica.

Um dos exemplos mais contundentes dessa aliança é o Projeto Maven, desenvolvido inicialmente pela Google e que depois envolveu Amazon e Palantir. O objetivo era utilizar inteligência artificial para analisar imagens de drones e selecionar alvos militares. O projeto gerou protestos internos na Google, levando à demissão de funcionários e posterior retirada da empresa — ao menos publicamente. Mesmo assim, o Pentágono continuou ampliando contratos com essas corporações. Segundo reportagem da Bloomberg, o Departamento de Defesa dos EUA possui contratos ativos com big techs que somam mais de US$ 20 bilhões.

O uso da inteligência artificial em zonas de conflito também é denunciado por Amadeu como um marco na transformação digital da guerra. “O primeiro grande laboratório do uso de IA para fixação de alvos militares foi a Faixa de Gaza”, afirma o sociólogo. De acordo com ele, os sistemas desenvolvidos por essas empresas utilizam dados de redes sociais, geolocalização e outras fontes para identificar padrões de comportamento que possam ser associados ao Hamas. A partir desses modelos, supostos militantes são alvejados fora de áreas de combate. “É uma fabricação de alvos a partir de dados de redes sociais”, denuncia.

Além de fornecer ferramentas tecnológicas, as big techs também controlam as infraestruturas por onde circulam informações estratégicas de governos e instituições de todo o mundo. Um exemplo emblemático citado por Amadeu é o bloqueio dos arquivos digitais de juízes da Corte Penal Internacional, ordenado pelo governo Trump, em retaliação ao mandado de prisão expedido contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Os dados estavam armazenados em servidores da Microsoft.

No Brasil, essa dependência também é crítica. Hoje, grande parte da pesquisa acadêmica nacional está armazenada em servidores da Google e da Microsoft. O Ministério da Educação, universidades federais e mesmo órgãos da saúde pública recorrem a serviços dessas empresas. Em julho de 2024, o Gabinete de Segurança Institucional firmou acordo com a Amazon para a área de defesa. Segundo Amadeu, esse tipo de parceria coloca a soberania nacional em risco. “As Forças Armadas brasileiras têm sua infraestrutura de conectividade nas mãos de uma empresa americana que trabalha, em última análise, para o Departamento de Estado dos EUA”, alerta.

O lançamento da Nuvem Soberana, no último 7 de setembro, foi um passo na tentativa de recuperar o controle sobre os dados públicos. Desenvolvida em parceria com o Serpro e a Dataprev, a iniciativa busca armazenar dados estratégicos em infraestrutura sob gestão estatal. Ainda assim, o projeto utiliza tecnologia de empresas internacionais. “É um avanço, mas não é suficiente diante das políticas expansionistas de Trump. O Cloud Act obriga as empresas americanas a fornecerem dados ao governo dos EUA, mesmo que armazenados fora do território americano”, destaca.

Segundo relatório do Center for Strategic and International Studies (CSIS, 2024), os EUA pretendem manter a liderança global em inteligência artificial como um ativo estratégico. O governo Trump, em especial, adotou uma retórica agressiva contra qualquer tentativa de regulação das plataformas digitais em países estrangeiros, pressionando inclusive o Brasil. O motivo, segundo Amadeu, é claro: os dados globais são insumo essencial na corrida tecnológica. “Trump quer que essas empresas naveguem aqui, tomem os dados e não paguem tributos. Isso é imperialismo descarado.”

A disputa não se dá apenas no plano técnico. Há também uma dimensão política clara. A tentativa do grupo Meta de implantar um sistema de pagamentos via WhatsApp foi frustrada pela entrada em vigor do Pix — iniciativa do Banco Central que ganhou rápida adesão da população brasileira. Para Amadeu, a reação de Trump e das big techs a essa concorrência revela a resistência do modelo norte-americano ao surgimento de alternativas locais que desafiem sua hegemonia digital.

“O Brasil precisa entender que não existe soberania nacional sem soberania tecnológica e digital. Os dados do setor público não podem estar na mão das big techs, ainda mais em um contexto em que elas são a linha de frente do poder político de Trump”, conclui o sociólogo.

 

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