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Mundo

Lula acusa Israel de genocídio em conferência da ONU e reforça defesa de dois Estados

Reconhecimento da Palestina por países do G7 deixa EUA e Israel isolados

Publicado em 22/09/2025 6:06 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a acusar Israel de praticar genocídio e limpeza étnica na Faixa de Gaza, durante a abertura da 1ª Conferência Internacional para a Resolução Pacífica da Questão Palestina, promovida pela França e pela Arábia Saudita, nesta segunda-feira (22), na sede da ONU em Nova York. “Nada justifica usar a fome como arma de guerra”, afirmou o presidente brasileiro, ao destacar que mais de 50 mil crianças foram mortas ou mutiladas desde o início da ofensiva israelense.

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Com um discurso contundente, Lula questionou: “Como manter uma população diante da limpeza étnica a que assistimos em tempo real?”. Para ele, o extermínio de civis palestinos não apenas viola o direito internacional, como ameaça a própria possibilidade de um Estado palestino. “O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação”, disse.

A posição do governo brasileiro, que desde 2010 reconhece formalmente o Estado da Palestina — em decisão tomada no segundo mandato do próprio Lula —, tem sido uma das mais críticas à ofensiva militar de Israel, que já deixou mais de 65 mil mortos, segundo dados atualizados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas. Em paralelo, cresce a crise humanitária, com 90% das residências palestinas destruídas, segundo levantamento da ONU.

Reações internacionais e a crescente adesão à causa palestina

O evento marca uma inflexão no cenário diplomático. O presidente francês, Emmanuel Macron, formalizou o reconhecimento oficial do Estado da Palestina. A França é o terceiro país do G7 a reconhecer oficialmente o Estado palestino. Ontem, o Canadá e o Reino Unido, que também integram o grupo das maiores economias do mundo, já haviam oficializado o reconhecimento do território palestino como um Estado soberano. Além deles, Austrália e Portugal também seguiram na mesma direção, com o discurso de que a criação de dois Estados é a solução para a paz no Oriente Médio.

“Os palestinos têm história e dignidade, e o reconhecimento de seu Estado não subtrai nada do povo de Israel”, disse Macron. O presidente francês anunciou ainda a intenção de abrir uma embaixada na Palestina, condicionada à libertação dos reféns israelenses capturados em outubro de 2023 pelo Hamas. Macron foi enfático ao afirmar que a paz só será possível com a existência de dois Estados soberanos: “Depende da liderança Palestina e do Estado palestino dar ao seu povo, traumatizado por décadas de ocupação, a esperança de um sistema democrático.”

A ausência dos Estados Unidos e de Israel, que deixaram suas cadeiras vazias no encontro, evidenciou o isolamento diplomático dessas nações em relação ao crescente clamor global por um cessar-fogo e uma solução duradoura para o conflito. Na semana passada, os EUA vetaram mais uma resolução da ONU que exigia o fim das hostilidades em Gaza — uma posição que tem sido sistematicamente criticada por organizações internacionais e especialistas em direitos humanos.

ONU aponta genocídio e cobra resposta internacional

O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu com firmeza o reconhecimento do Estado palestino, alertando: “Se isso não acontecer, não haverá paz no Oriente Médio, e o radicalismo se espalhará pelo mundo.” Guterres também apelou por um cessar-fogo imediato e pela libertação dos reféns.

O tom adotado por Lula e Guterres ganhou respaldo em um inquérito recente da própria ONU, conduzido pela Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, que concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza. A investigação baseou-se em evidências de ataques sistemáticos a civis e uso de recursos como a fome e o cerco total como instrumentos de guerra. Israel rejeita a acusação, alegando que o Hamas utiliza civis como escudos humanos.

A defesa da solução de dois Estados não é nova. A proposta foi formalizada pela primeira vez em 1947, na Resolução 181 da ONU, que previa a divisão do território palestino em um Estado árabe e outro judeu. No entanto, a criação de um Estado palestino nunca se concretizou, enquanto o Estado de Israel foi proclamado em 1948, dando início a décadas de conflito, ocupação militar e deslocamento forçado de milhões de palestinos.

O Brasil tem mantido uma posição historicamente favorável à causa palestina, mas o tom adotado pelo atual governo é mais duro e direto, especialmente diante da escalada da violência. A presença da primeira-dama, Janja da Silva, com um lenço palestino durante o evento foi interpretada como um gesto simbólico de solidariedade, reforçando o posicionamento do país.

A ofensiva militar de Israel, intensificada desde os ataques do Hamas em outubro de 2023, transformou a Faixa de Gaza em um território devastado. Organizações como a Human Rights Watch e Médicos Sem Fronteiras denunciam repetidamente a destruição deliberada de infraestrutura civil, hospitais e escolas.

O reconhecimento do Estado palestino por parte de potências do G7 e de países estratégicos como Austrália e Portugal sinaliza uma mudança de eixo na diplomacia global. A pressão internacional aumenta, e a retórica antes marginalizada — de que há um projeto de limpeza étnica em curso — começa a ocupar o centro dos debates multilaterais.

Com Lula, Macron e Guterres afinando seus discursos em favor da criação de dois Estados, cresce o isolamento de Israel e dos Estados Unidos em fóruns internacionais. A guerra, prestes a completar dois anos, segue sem perspectiva de resolução — e com um custo humano que já ultrapassa os limites da barbárie.

Veja a íntegra do discurso de Lula

“Cumprimento o presidente Emmanuel Macron e primeiro-ministro Mohammed bin Salman por liderarem este importante processo.

A questão da Palestina surgiu no momento em que a Assembleia Geral adotou o chamado Plano de Partilha, há 78 anos.

A sessão em que ele foi aprovado foi presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha.

Naquela ocasião, nasceu a perspectiva de dois Estados. Mas só um se materializou.

O conflito entre Israel e Palestina é símbolo maior dos obstáculos enfrentados pelo multilateralismo.

Ele mostra como a tirania do veto sabota a própria razão de ser da ONU, de evitar que atrocidades como as que motivaram sua fundação se repitam.

Também vai contra sua vocação universal, bloqueando a admissão, como membro pleno, de um Estado cuja criação deriva da autoridade da própria Assembleia Geral.

Um Estado se assenta sobre três pilares: o território, a população e o governo.

Todos têm sido sistematicamente solapados no caso palestino.

Como falar em território diante de uma ocupação ilegal que cresce a cada novo assentamento?

Como manter uma população diante da limpeza étnica a que assistimos em tempo real?

E como construir um governo sem empoderar a Autoridade Palestina?

Como apontou a Comissão de Inquérito sobre os Territórios Palestinos Ocupados, não há palavra mais apropriada para descrever o que está ocorrendo em Gaza do que genocídio.

Por isso, o Brasil decidiu tornar-se parte do caso apresentado pela África do Sul à Corte Internacional de Justiça.

Os atos terroristas cometidos pelo Hamas são inaceitáveis. O Brasil foi enfático ao condená-los.

Mas o direito de defesa não autoriza a matança indiscriminada de civis.

Nada justifica tirar a vida ou mutilar mais de cinquenta mil crianças.

Nada justifica destruir 90% dos lares palestinos.

Nada justifica usar a fome como arma de guerra, nem alvejar pessoas famintas em busca de ajuda.

Meio milhão de palestinos não têm comida suficiente, mais do que a população de Miami ou Tel Aviv.

A fome não aflige apenas o corpo. Ela estilhaça a alma.

O que está acontecendo em Gaza não é só o extermínio do povo palestino, mas uma tentativa de aniquilamento de seu sonho de nação.

Tanto Israel, quanto a Palestina têm o direito de existir.

Trabalhar para efetivar o Estado palestino é corrigir uma assimetria que compromete o diálogo e obstrui a paz.

Saudamos os países que reconheceram a Palestina, como o Brasil fez em 2010. Já somos a imensa maioria dos 193 membros da ONU.

O Brasil se compromete a reforçar o controle sobre importações de assentamentos ilegais na Cisjordânia e manter suspensas as exportações de material de defesa, inclusive de uso dual, que possam ser usadas em crimes contra a humanidade e genocídio.

Diante da omissão do Conselho de Segurança, a Assembleia Geral precisa exercer sua responsabilidade.

Apoiamos a criação de um órgão inspirado no Comitê Especial contra o Apartheid, que teve papel central no fim do regime de segregação racial sul-africano.

Assegurar o direito de autodeterminação da Palestina é um ato de justiça e um passo essencial para restituir a força do multilateralismo e recobrar nosso sentido coletivo de humanidade.

Obrigado.”

Reconhecimento da Palestina expõe isolamento dos EUA e Israel na ONU

O reconhecimento formal da Palestina por França, Reino Unido e Canadá escancarou o crescente isolamento diplomático de Israel e dos Estados Unidos no cenário internacional. Em contraste com a ofensiva israelense sobre Gaza, mais de 140 dos 193 países da ONU já reconhecem a soberania palestina como um fato político e legal. O Brasil, por exemplo, tomou essa decisão em 2010, ainda durante o segundo mandato do presidente Lula.

A movimentação, embora com efeito simbólico imediato, representa uma virada estratégica inesperada. “Israel avançou esperando destruir a ideia de um Estado palestino. O efeito parece ter sido exatamente o contrário, pelo menos em termos legais”, afirmou um embaixador árabe presente na conferência da ONU em Nova York. O processo de reconhecimento ganhou força seis meses após os ataques do Hamas em outubro de 2023, quando Israel iniciou sua campanha militar em larga escala contra Gaza, causando uma das mais graves crises humanitárias do século.

O governo brasileiro esteve entre os articuladores da nova ofensiva diplomática em defesa da criação de um Estado palestino. A estratégia era clara: usar o reconhecimento da soberania palestina como contrapeso jurídico e político à política expansionista de Benjamin Netanyahu, que declarou na semana passada: “Não haverá um Estado palestino.”

Pela primeira vez em oito décadas, potências ocidentais tradicionalmente alinhadas com Israel rompem o silêncio e tomam a dianteira no apoio à causa palestina. A França e o Reino Unido, dois dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, colocam-se agora em oposição direta aos Estados Unidos — que permanecem como o único entre os cinco grandes a rejeitar qualquer reconhecimento formal do Estado palestino. A ruptura dentro do G7 é considerada, por diplomatas europeus, como um “acontecimento maior” na diplomacia global.

Em nota, o Itamaraty apontou para o “crescente consenso” em torno da soberania palestina e reiterou que o Brasil manterá apoio à solução de dois Estados como único caminho viável para a paz.

Boicote, veto e ataques diplomáticos

O reconhecimento da Palestina acentuou o mal-estar entre Washington e seus aliados históricos. Em Paris, o embaixador americano Charles Kushner atacou publicamente a decisão do presidente francês Emmanuel Macron, em coluna no Wall Street Journal. O Palácio do Eliseu respondeu de forma dura, afirmando que os comentários eram “inaceitáveis para alguém que se diz diplomata”.

O governo Trump também agiu para tentar sabotar a conferência da ONU. Inicialmente marcada para julho, a cúpula foi adiada após ataques conjuntos de Israel e EUA ao Irã interromperem o tráfego aéreo no Oriente Médio. A nova data, remarcada para setembro, enfrentou novo entrave: os EUA negaram vistos a autoridades palestinas, violando suas obrigações como país anfitrião da ONU. A solução foi recorrer à votação para que Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, falasse por videoconferência — aprovada pela Assembleia Geral, mas rejeitada por EUA, Israel e alguns poucos aliados.

Nesta segunda-feira (22), a sala da ONU ficou cheia, mas as cadeiras de EUA e Israel seguiram vazias em protesto, numa tentativa de deslegitimar o evento e isolar os defensores da causa palestina.

Risco de escalada e avanço sobre territórios ocupados

Enquanto cresce o apoio simbólico ao Estado palestino, aumenta também o temor de que Israel, acuado e isolado, opte por uma estratégia de “tudo ou nada”, segundo fontes diplomáticas árabes. Isso incluiria a anexação de novos territórios na Cisjordânia, aprofundando ainda mais o impasse.

A posição americana segue inalterada: qualquer Estado palestino só pode surgir de negociações bilaterais com Israel, o que muitos consideram inviável diante da atual radicalização do governo Netanyahu e do uso sistemático do veto pelos EUA no Conselho de Segurança da ONU.

A guerra já deixou mais de 65 mil mortos em Gaza, de acordo com dados do Ministério da Saúde local. A devastação causou um ponto de inflexão no cenário internacional. Diplomatas palestinos apontam que, pela primeira vez, um primeiro-ministro israelense teve sua prisão solicitada por um tribunal internacional. Além disso, a Comissão de Inquérito da ONU acusou formalmente Israel de genocídio contra o povo palestino.

Mesmo diante dessas evidências, o reconhecimento da Palestina não garante sua entrada na ONU, que depende da aprovação do Conselho de Segurança — onde os EUA já prometeram vetar qualquer resolução. O gesto, no entanto, tem peso político. Para diplomatas europeus, ele representa o início de uma nova fase, que exigirá passos concretos para tornar viável a criação de um Estado funcional.

A decisão britânica de apoiar a soberania palestina tem carga histórica: em 1917, foi o próprio Reino Unido que, pela Declaração Balfour, manifestou apoio à criação de uma pátria judaica na Palestina — documento amplamente responsabilizado por lançar as bases do conflito atual. A mudança de postura, mais de um século depois, é vista como um acerto de contas diplomático com o passado colonial.

Se o reconhecimento da Palestina ainda é, por ora, simbólico, seu efeito geopolítico é real: um eixo histórico está se deslocando. O que era uma causa marginalizada no Ocidente passou a ser assunto de Estado entre as maiores economias do mundo, com impacto direto nas alianças tradicionais, nas dinâmicas multilaterais e no futuro da paz — ou da guerra — no Oriente Médio.

ONU sob tensão geopolítica e questionamentos


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