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Flotilha humanitária é atingida por drone em águas da Tunísia: Israel ataca o Catar
Publicado em 09/09/2025 10:41 - Semana On
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Moradores da Cidade de Gaza acordaram na segunda-feira (8) sob uma nova onda de pânico: panfletos lançados do céu pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) ordenavam a evacuação imediata da população, antecipando o que o governo israelense promete ser um ataque devastador contra os últimos redutos do Hamas. A medida, que afeta diretamente cerca de um milhão de civis ainda presentes no principal centro urbano do enclave, marca uma nova escalada na guerra que já matou mais de 63 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
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“Vocês foram avisados — saiam de lá!”, declarou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em tom categórico, afirmando que a ofensiva será decisiva para eliminar o grupo militante. A ordem oficializa o plano aprovado em agosto pelo Gabinete de Segurança de Israel, que prevê a ocupação militar total da cidade até 7 de outubro, exatamente dois anos após o ataque do Hamas que matou 1.200 israelenses e deu início à ofensiva.
Enquanto isso, moradores relatam que não há mais rotas seguras de fuga: o sul está superlotado e também é alvo de bombardeios frequentes. “Ficar e morrer em casa, ou sair e morrer no sul”, resume Um Samed, mãe de cinco filhos. A angústia ecoa em uma cidade transformada em escombros, onde barracas improvisadas substituem edifícios históricos e cozinhas comunitárias tentam alimentar uma população em exaustão extrema.
Colapso humanitário e deslocamento em massa
O deslocamento forçado tornou-se a regra em Gaza. A maioria dos civis já foi expulsa de suas casas múltiplas vezes desde o início da guerra, em outubro de 2023. Segundo a ONU, mais de 80% do território da Faixa de Gaza é hoje inabitável para palestinos. As FDI indicaram a região costeira de Al-Mawasi, próxima a Rafah, como “zona humanitária” — mas o local já está saturado, sem infraestrutura básica, e também vem sendo bombardeado.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC) declararam oficialmente a existência de fome na Faixa de Gaza, atribuída inteiramente a causas humanas, como o bloqueio israelense e restrições severas à distribuição de ajuda.
“A vida é aterrorizante em todos os sentidos da palavra”, disse Ezzedine Mohammed, de 41 anos, morador da Cidade de Gaza. “Todos os dias há morte, há medo da morte, e a destruição de lares prossegue.”
A Corte Internacional de Justiça (CIJ) reconheceu em janeiro de 2024 que é “plausível” que Israel esteja cometendo atos que violam a Convenção sobre o Genocídio. A análise final pode levar anos, mas diversas organizações internacionais de direitos humanos, incluindo a Genocide Watch e Human Rights Watch, já classificam as ações israelenses como genocidas.
Patrimônio em risco
Fundada por volta de 3.500 a.C., Gaza é uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo. O arqueólogo palestino Fadel al-Otol, atualmente exilado na Suíça, acompanha com angústia a destruição da cidade natal. “Gaza é uma terra de cultura e um berço de civilização. Casas podem ser reconstruídas, mas construir uma civilização leva muitos anos”, disse ele à imprensa suíça.
Locais históricos como o bairro Zaytun, que abriga a Grande Mesquita Omari e igrejas cristãs centenárias, estão em risco de destruição total. Além da perda de vidas, há uma aniquilação simbólica: a tentativa de apagar a história e a identidade de um povo inteiro.
Gaza como símbolo e advertência
“Gaza já é um cemitério dos nossos entes queridos, das nossas memórias e dos nossos sonhos”, diz Amjad Shawa, diretor da Palestinian NGOs Network (PNGO). Ele, que foi deslocado com a família para o sul e voltou durante o cessar-fogo em janeiro, relata agora uma realidade ainda mais desesperadora. “É o pior momento pelo qual Gaza já passou.”
A crise humanitária, aliada à ofensiva militar em curso, levanta temores sobre a repetição da Nakba — a catástrofe palestina de 1948, quando centenas de milhares foram expulsos ou fugiram com a criação de Israel. A narrativa do governo israelense, que equipara permanência civil a ameaça terrorista, levanta sérias preocupações no cenário internacional.
Relatos da mídia israelense indicam que quem permanecer na cidade poderá ser tratado como combatente. Para especialistas, isso pode agravar ainda mais o quadro jurídico e moral da ofensiva. “A distinção entre civis e combatentes é um princípio central do Direito Internacional Humanitário”, afirma Michael Lynk, ex-relator da ONU para direitos humanos nos territórios palestinos ocupados. “Violar essa linha tênue representa um grave risco de crimes de guerra”.
A cidade sem refúgio
Com cerca de 40% da Cidade de Gaza já sob controle israelense, segundo as FDI, o cerco se fecha cada vez mais sobre os moradores. Mesmo hospitais como o Al Shifa e o Al Ahli foram obrigados a evacuar, embora médicos insistam em não abandonar pacientes.
A mãe palestina Sham Mahmoud, de 30 anos, que vive com os filhos em um bairro do norte da cidade, resume o dilema: “Os bombardeios estão por toda parte, até mesmo no sul. Não quero expor meus filhos à morte, mas não temos para onde ir”.
A praia de Rimal, antes um ponto turístico com restaurantes e hotéis, agora abriga tendas. O mar, antes uma rota de escape para pescadores e moradores, foi oficialmente fechado por Israel desde julho — até nadar tornou-se proibido.
Gaza sitiada, humanidade em xeque
Após quase dois anos de guerra, Gaza enfrenta mais do que destruição física. Enfrenta o colapso de sua dignidade, cultura e existência como sociedade civil organizada. A Cidade de Gaza, símbolo de resiliência, pode estar à beira de um desaparecimento completo — não apenas geográfico, mas histórico e humano.
Em meio ao silêncio das potências internacionais e à paralisia diplomática, resta aos palestinos escolher entre o exílio ou o martírio, em uma terra sem abrigo, sem comida e, cada vez mais, sem esperança.
Barco de ajuda humanitária é atacado por drone em águas da Tunísia
Um barco da flotilha internacional Global Sumud Flotilla (GSF), que busca levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, foi atingido por um drone enquanto navegava em águas territoriais tunisianas. A embarcação, conhecida como Family Boat, transportava membros do Comitê Diretivo da missão e operava sob bandeira portuguesa. O ataque, cuja autoria ainda não foi confirmada, provocou incêndios no convés e danos em compartimentos internos do navio.
O incidente, classificado pelos organizadores como uma violação da soberania tunisiana, ocorre num momento de crescente tensão internacional em torno do cerco a Gaza. “Foi uma ação ilegal e uma tentativa clara de intimidação contra um movimento de solidariedade pacífico e legítimo”, disseram integrantes da GSF nas redes sociais.
Todos os seis passageiros e tripulantes estão em segurança. A embarcação já havia recebido ativistas de destaque, como a sueca Greta Thunberg, o brasileiro Thiago Ávila e o jornalista britânico Kieran Andrieu (Novara Media), antes de aportar na Tunísia. Segundo a organização, uma investigação foi aberta e novas informações serão divulgadas.
Missão sob ameaça, mas não interrompida
O ataque ao Family Boat representa mais do que uma agressão pontual: é uma ameaça direta à missão da flotilha, que reúne delegações de mais de 44 países e tem como objetivo romper simbolicamente o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza.
Em nota, a Global Sumud Flotilla afirmou que o ataque visa “desencorajar os esforços internacionais para cobrar a aplicação da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio”, ratificada por 153 países, diante da crescente acusação de genocídio contra Israel.
Apesar da ofensiva, os organizadores afirmaram que a missão segue determinada. No domingo (7), milhares de pessoas se reuniram no porto de Sidi Bou Said, em Túnis, para receber os ativistas e manifestar apoio à Palestina. A Tunísia, embora ainda não tenha se pronunciado oficialmente, é um dos países árabes que mais têm manifestado solidariedade ao povo palestino em fóruns internacionais.
Explosões em Doha e ataque a lideranças do Hamas
Horas após o incidente com a flotilha, explosões foram ouvidas em Doha, no Catar, segundo relato de jornalistas da AFP. Israel assumiu a autoria de ataques aéreos contra líderes do Hamas no país. Em nota publicada nas redes sociais, o Exército israelense afirmou que a operação teve como alvo membros de alto escalão do grupo, “responsáveis pelo massacre de 7 de outubro e pela condução da guerra contra o Estado de Israel”.
“O ataque foi totalmente independente”, afirmou o gabinete do primeiro-ministro Netanyahu. A ação, no entanto, atingiu diretamente a capital de um país aliado dos Estados Unidos e que atua como principal mediador nas negociações de cessar-fogo entre Israel e Hamas. O governo do Catar classificou o ataque como “covarde” e confirmou que residências de líderes do Hamas foram atingidas.
Segundo a rede Al Jazeera, o alvo do bombardeio seriam membros da equipe de negociadores do grupo palestino.
Escalada regional e risco de internacionalização
O ataque à flotilha e os bombardeios em território estrangeiro — como o ocorrido no Catar — apontam para uma perigosa expansão regional da guerra em Gaza. Especialistas alertam que ações militares fora do território palestino representam uma mudança de paradigma.
“Se confirmado que Israel está por trás do ataque em águas tunisianas e da ação em Doha, estamos diante de um padrão de extraterritorialidade que lembra o modus operandi de potências em guerras assimétricas”, analisa o professor de Relações Internacionais Tarek Baconi, presidente do Al-Shabaka, think tank palestino sediado em Nova York.
O histórico recente reforça o temor de uma campanha de intimidação contra iniciativas civis internacionais, como a flotilha, que têm ganhado apoio global. Em 2010, o ataque de Israel à flotilha turca Mavi Marmara, que também tentava romper o bloqueio de Gaza, deixou nove ativistas mortos e causou forte crise diplomática com Ancara. Desde então, várias iniciativas similares têm sido alvo de ameaças.
Solidariedade sob ataque
Para os organizadores da Global Sumud Flotilla, o ataque ao Family Boat é simbólico: representa uma tentativa de criminalizar a solidariedade internacional. “Seguiremos navegando. Nossa missão é legítima, pacífica e necessária”, afirmaram em nota.
No entanto, o episódio acende o alerta sobre a segurança de missões civis em águas internacionais e a escalada da retaliação militar israelense para além das fronteiras de Gaza.
Enquanto isso, a situação no enclave se agrava: hospitais sem recursos, população faminta e um milhão de civis encurralados entre as bombas e o mar — onde agora nem mesmo barcos humanitários estão seguros.
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