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Mundo

Israel promete ‘destruir’ o Irã e escalada da guerra preocupa

Encurralado, Trump chama países da Otan de 'covardes'

Publicado em 20/03/2026 1:44 - Semana On, DW, UOL, Opera Mundi

Divulgação Reprodução

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O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, alegou nesta quinta-feira (20) que “Irã está sendo dizimado” e prometeu que o arsenal de mísseis e drones do país persa “será destruído”. A posição se deu em sua primeira coletiva presencial desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.

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Na avaliação dele, o governo iraniano “não tem capacidade de enriquecer urânio, nem para produzir mísseis balísticos”. “Estamos continuando a esmagar essas capacidades. Vamos esmagá-los até virar pó, virar cinzas”, disse.

Ao longo das primeiras horas desta sexta-feira, as forças israelenses informaram ter atacado Teerã, mirando o que alegaram ser “infraestrutura do regime terrorista iraniano”, sem fornecer detalhes adicionais. Por sua vez, o Irã disparou uma barragem de mísseis contra Israel, acionando sirenes de ataque aéreo em Tel Aviv.

De acordo com o jornal The Times of Israel, foram sete salvas de mísseis balísticos contra a nação liderada por Netanyahu, “pelo menos dois dos quais pareciam transportar ogivas de bombas cluster”. A ofensiva resultou em casas danificadas e pessoas feridas. Já na cidade central de Rehovot, os ataques iranianos incendiaram uma casa, e fragmentos de mísseis interceptados atingiram cerca de dez localidades.

Israel ataca Síria

Em meio à guerra contra o Irã, as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) afirmaram nesta sexta-feira ter atacado acampamentos do exército sírio ao longo da última noite, em resposta ao que alegaram serem ataques contra a comunidade drusa no sul do país. A ofensiva não está diretamente relacionada à campanha de agressões contra a nação persa, mas expande as tensões na região do Oriente Médio.

“Isso foi em resposta aos eventos de ontem, nos quais civis drusos foram atacados na área [de Suwayda]”, disse o exército israelense pelo Telegram.

De acordo com o observatório sírio de Direitos Humanos, no dia anterior, houve combates por parte das forças do governo e combatentes de tribos locais contra facções drusas opostas no interior ocidental de Suwayda.

O regime sionista realizou ataques contra tropas sírias e também bombardeou a capital Damasco sob o pretexto de proteger os drusos. Israel já havia avançado mais profundamente em território sírio após a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, chegando a ocupar a zona tampão.

Em um discurso proferido em Damasco, o presidente sírio Ahmed al-Sharaa disse, após os ataques israelenses, estar trabalhando para manter a Síria fora de qualquer conflito.

“É importante lembrar que a Síria sempre foi um cenário de conflito e conflito nos últimos 15 anos e antes disso, mas hoje está em harmonia com todos os países vizinhos, regional e internacionalmente”, disse ele, acrescentando que a sua nação está “em total solidariedade com os Estados árabes”.

“O que está acontecendo agora é um evento grande e raro na história que não testemunhamos desde a Segunda Guerra Mundial. Estamos calculando cuidadosamente nossos passos e trabalhando para manter a Síria afastada de qualquer conflito, para que ela possa manter seu caminho de desenvolvimento e reconstrução”, afirmou al-Sharaa.

Irã ameaça resposta ‘sem restrições’

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que Teerã empregou apenas uma “fração” de sua capacidade militar em ataques à infraestrutura energética regional, após a ofensiva israelenses contra o campo de gás de South Pars, no Irã, na quarta-feira (18). Ele alertou que não haverá “nenhuma contenção” em caso de um novo ataque contra as instalações energéticas iranianas.

“Nossa resposta ao ataque de Israel à nossa infraestrutura usou apenas uma fração do nosso poder. A única razão pela qual ficamos de lado foi por respeito à desescalada solicitada. Não haverá contenção se atacarem nossa infraestrutura novamente”, escreveu o ministro nas redes sociais.

O ministro, no entanto, deixou claro que essa postura pode mudar rapidamente caso novos ataques sejam realizados contra o território iraniano. O governo iraniano também condicionou qualquer eventual cessar-fogo a exigências políticas e humanitárias, como a reparação dos danos causados à infraestrutura do país e aos impactos sobre áreas civis atingidas pelos bombardeios.

Uma série de ações em retaliação ao ataque israelense contra o campo de gás iraniano foi realizada pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). Nesta manhã, a entidade anunciou uma ofensiva contra a base militar de Al-Dhafra, localizada nos Emirados Árabes Unidos. Também foram realizados ataques em Jerusalém Ocidental, Haifa e bases militares norte-americanas na região.

Na quinta-feira (19), um míssil iraniano atingiu a Israel Oil Refineries em Haifa, danificando infraestruturas elétricas. No Kuwait, a Petroleum Corporation sofreu um incêndio na refinaria de Mina Al-Ahmadi. No Bahrein, equipes de defesa civil extinguiram um incêndio em um armazém de uma empresa, causado por estilhaços de um ataque iraniano.

O Catar, por sua vez, avalia que o ataque do Irã às instalações de gás de Ras Laffan poderá reduzir a capacidade de exportação de gás natural liquefeito do país em cerca de 17%, o que interromperia o fornecimento para a Europa, Ásia e outras regiões.

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) anunciou a conclusão da 66ª fase da operação “Verdadeira Promessa 4”, que teve como foco bases militares norte-americanas na região e posições israelenses no sul e no centro dos territórios ocupados, incluindo Tel Aviv.

A operação, segundo a IRGC, foi conduzida “com total sucesso” e utilizou um amplo arsenal, incluindo mísseis de médio alcance e drones suicidas, como projéteis com combustível sólido e líquido, alguns com múltiplas ogivas; além de armamentos como Qader, Khorramshahr, Khaybar Shekan, Qiam e Zulfiqar.

Desde o começo da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o número de vítimas no país ultrapassou 1.444 pessoas, segundo o Crescente Vermelho iraniano, incluindo pelo menos 204 crianças e altas autoridades do país, como o líder supremo, o aiatolá Khamenei e o chefe das Forças de Segurança, Ali Larijani. No Líbano, os ataques israelenses já deixaram mais de 1.000 pessoas mortas.

Trump chama países da Otan de ‘covardes’

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a cobrar da Otan, aliança militar do Ocidente, ajuda para liberar a passagem no Estreito de Hormuz —via marítima no Oriente Médio por onde passam embarcações transportando cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural do mundo.

Trump culpou a organização pela alta no preço do petróleo. “Covardes”, escreveu o presidente dos EUA na rede social. “Não querem ajudar a abrir o Estreito de Hormuz, uma simples manobra militar que é a única razão para os altos preços do petróleo. Tão fácil para eles fazerem, com tão pouco risco, covardes, nós nos lembraremos”, disse.

O republicano voltou a dizer que a guerra contra o Irã já foi vencida e minimizou a importância da Otan. “Sem os EUA, a Otan é um tigre de papel. Eles não quiseram se juntar à luta para deter um Irã com armas nucleares. Agora que essa luta foi vencida militarmente, com muito pouco perigo para eles, reclamam dos altos preços do petróleo que são obrigados a pagar”, escreveu.

Irã se recusa a reabrir Hormuz enquanto a guerra durar. O novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, defendeu o fechamento da rota até que cessem os ataques dos EUA e de Israel ao seu território.

EUA pediram ajuda da Europa e da China para reabrir Hormuz. A China não respondeu ao pedido da Casa Branca. Antes, em sua rede social Truth Social, Trump escreveu que “nós não precisamos mais, nem desejamos, a ajuda dos países da Otan” e do Japão, da Austrália e da Coreia do Sul — que também negaram o pedido de Trump.

Os países europeus inicialmente se recusaram ajudar Washington. Mas com a alta do preço do petróleo, as potências europeias passaram a sinalizar apoio ao governo americano.

Trump acusa a organização de ser omissa e de não servir aos interesses norte-americanos. “Sempre considerei a Otan, onde gastamos centenas de bilhões de dólares por ano protegendo esses mesmos países, uma via de mão única: nós os protegemos, mas eles não fazem nada por nós, especialmente em um momento de necessidade”, continuou.

Países divulgaram comunicado em conjunto

Ontem (19), países europeus e Japão falaram em ajudar a liberar Hormuz. Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Japão e Países Baixos condenaram as recentes represálias iranianas contra infraestruturas energéticas no Golfo e se declararam “dispostos a contribuir” para a segurança no Estreito de Hormuz.

Os seis países divulgaram um comunicado conjunto. “Pedimos uma moratória imediata e geral sobre os ataques a infraestruturas civis, em particular as instalações de petróleo e de gás. Nos declaramos dispostos a contribuir aos esforços necessários para garantir a segurança da passagem pelo Estreito de Hormuz”, afirmaram.

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, afirmou que o ministro das Relações Exteriores do país entrou em contato com seu correspondente no Irã para falar sobre o estreito. “Nosso ministro teve uma troca direta com o ministro das relações exteriores iraniano e pediu que eles parem com essas atividades [de bloqueio em Hormuz]”, disse, em visita à Casa Branca ontem.

Em tempos normais, 20% do petróleo e do Gás Natural Liquefeito consumidos a nível mundial passam por este estreito. Seu fechamento por parte do Irã, em represália ao ataque dos Estados Unidos e Israel, em curso desde 28 de fevereiro, aumentou os problemas logísticos e de abastecimento e elevou o preço do barril de petróleo bruto para mais de US$ 110 dólares (cerca de R$ 573).

Guerra racha base de Trump

A guerra pode mudar o rumo do segundo mandato de Donald Trump e reduzir sua força política, avaliou ontem a revista britânica The Economist. A análise afirma que o conflito foi mal calculado e tende a cobrar um preço alto do presidente. Para a publicação, mesmo uma guerra curta já alteraria a trajetória do governo, enquanto um confronto de meses poderia provocar uma crise mais profunda.

A revista diz que o embate atinge três pontos que sustentam Trump na política: Sua capacidade de impor sua própria versão dos fatos, o uso agressivo de pressão sobre outros atores e o controle que mantém sobre o Partido Republicano.

O artigo aponta que a realidade do campo de batalha contraria a narrativa de vitória rápida. Segundo o texto, o regime iraniano segue de pé apesar de ataques e mortes de lideranças, e parte do urânio enriquecido do país continua fora de controle.

O The Economist diz que o Irã tenta ampliar o custo global da guerra ao atingir energia e rotas marítimas. Ataques no Estreito de Ormuz e em infraestrutura de países vizinhos são exemplos disso. Enquanto isso, o mercado reage, com o Brent passando de US$ 110 o barril em 18 de março após um ataque iraniano a um polo de gás no Catar.

A capacidade de Trump de usar pressão sobre aliados estaria encontrando mais resistência do que antes. O texto relata que, ao pedir ajuda de aliados para reabrir o Estreito de Ormuz e advertir sobre um futuro “muito ruim” para a Otan caso recusassem, Trump recebeu um não e depois recuou, dizendo que não precisava do apoio.

O Irã, por sua vez, estaria tentando construir sua própria vantagem ao sinalizar tratamento diferente a países “amigos”. Segundo a análise, Teerã indicou que pode dar passagem segura no estreito a navios de nações alinhadas, usando o acesso como instrumento de barganha.

A revista avalia que, mesmo se Trump quiser encerrar o conflito, o Irã pode manter ataques a embarcações. O texto afirma que, se a via marítima ficar fechada até o fim de abril, o petróleo poderia chegar a US$ 150 o barril, o que aumentaria a pressão por concessões como alívio de sanções ou mudanças na presença militar dos EUA no Oriente Médio.

Custo político nos EUA

A guerra pode corroer o apoio republicano ao presidente. A revista lembra que Trump fez campanha prometendo poupar eleitores de guerra e inflação e afirma que já houve 13 mortes de militares americanos, além do risco de operações terrestres elevarem as baixas.

A revista projeta impacto eleitoral e perda de influência de Trump no Congresso. O texto afirma que os republicanos têm alta chance de perder a Câmara nas eleições de meio de mandato em novembro e que o risco de perder o Senado também aumentou, o que tornaria o presidente um “pato manco” e reduziria seu poder sobre a sucessão no partido.

O fim dos combates não resolveria tudo de imediato. A revista afirma que, mesmo com uma interrupção rápida, a normalização de produção de petróleo, mercados e navegação poderia levar de semanas a meses, mantendo preços altos e vulnerabilidade a novas ações iranianas.

Trump enfraquecido pode reagir com mais agressividade dentro e fora do país. O texto cita a possibilidade de medidas contra veículos de mídia críticos à guerra, novos atritos com o Federal Reserve e ações mais duras em temas como imigração e alianças internacionais.

Para a revista, a combinação de guerra prolongada, petróleo caro e instabilidade financeira tende a minar a imagem de vencedor que sustenta Trump. A análise conclui que, se o presidente parecer derrotado, pode buscar retaliação e se tornar mais imprevisível.

Guerra leva países do Golfo a questionar aliança com os EUA

As declarações feitas após a reunião de emergência dos ministros das relações exteriores dos países árabes e islâmicos, realizada na quinta-feira (19) em Riad, na Arábia Saudita, tiveram um único tema: o Irã.

No dia anterior, em uma grave escalada da guerra que teve início no final de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel atacaram o país persa, uma ofensiva iraniana atingiu um importante centro de produção de energia no Catar. O fato ocorreu após um ataque israelense contra o campo de gás de South Pars, no Irã.

A paciência da Arábia Saudita está se esgotando, afirmou o ministro do Exterior do país, o príncipe Faisal bin Farhan, em uma coletiva de imprensa após a reunião. O reino saudita prefere uma solução diplomática e deixou claro que não permitirá que o país seja usado para lançar ataques contra o Irã, acrescentou Farhan. Mas a Arábia Saudita também pode utilizar todos os meios para fazer com que o Irã pare de atacar países vizinhos que não estão diretamente envolvidos no conflito, declarou.

Os sinais são claros: os países do Golfo Pérsico estão cada vez mais perto de serem arrastados para uma guerra da qual nunca quiseram fazer parte.

Não é nossa guerra, dizem países do Golfo

Embora o Irã seja o país que os está atacando, há também, no Golfo, uma crescente desilusão com os Estados Unidos. Observadores afirmam que a ideia de que o Washington defenderia os Estados do Golfo por terem importantes bases militares na região revelou-se ilusória, ou pelo menos não tão eficaz quanto se esperava. Muitos dos mísseis e drones iranianos que tinham como alvo o Golfo Pérsico não foram interceptados pelas forças armadas da região nem pelos EUA.

O Irã justificou os ataques aos países do Golfo alegando que eles abrigam essas bases americanas – embora mísseis iranianos também tenham atingido infraestrutura petrolífera e instalações civis, como aeroportos e hotéis.

“Essa guerra é de Netanyahu”, afirmou o príncipe Turki al-Faisal, ex-chefe dos serviços de inteligência da Arábia Saudita, em entrevista à CNN no início de março, referindo-se ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. “De alguma forma, ele convenceu o presidente [Donald Trump] a bancar suas intenções.”

Aparentemente, os EUA também ignoraram os alertas dos países do Golfo ao decidirem prosseguir com a guerra, informaram fontes anônimas da região à agência de notícias Associated Press, em março.

Foi assim que os países do Golfo aprenderam uma lição amarga: que essas bases americanas não garantem necessariamente dissuasão ou proteção. Pelo contrário: na verdade, elas transformam o país que as abriga também em um alvo.

Fim da era da “neutralidade”

De fato, as bases americanas têm levado os países do Golfo a perderem a autonomia, diz um artigo em árabe publicado no jornal Al Araby Al Jadeed, financiado pelo Catar. As bases americanas não protegem os países do Golfo, argumentou o periódico, mas os impedem de tomar decisões de forma independente e de se defenderem.

A guerra com o Irã deu início a um debate sobre estratégia e segurança, afirmam os observadores. O Middle East Council on Global Affairs, um think tank com sede no Catar, define a atitude pré-guerra como de “neutralidade cautelosa”. Tal postura tinha como objetivo impedir que os países do Golfo se tornassem campos de batalha e evitar que o conflito colocasse em risco os planos de desenvolvimento futuro na região.

“A percepção inicial era de que Israel – e, em certa medida, os EUA – eram responsáveis pela escalada”, afirma Bruno Schmidt-Feuerheerd, cientista político e pesquisador da Universidade de Oxford. Depois que o Irã começou a atacar os países do Golfo, ficou claro que a segurança desses países dependia de terceiros, diz ele. “Nesse sentido, a frustração é direcionada principalmente a atores externos”, acrescenta.

Pauline Raabe, analista sênior da consultoria Middle East Minds, com sede em Berlim, também aponta que as críticas dirigidas aos Estados Unidos estão se tornando mais vocais e públicas. “Os países do Golfo estão unidos, antes de tudo, pelo choque que sentiram.” A Arábia Saudita, em particular, “criticou abertamente Trump e Netanyahu”, enquanto o Catar reagiu com mais cautela, continua.

Nesta semana, o ministro do Exterior de Omã, Badr al-Busaidi, escreveu em um artigo de opinião no semanário britânico The Economist que “os Estados Unidos perderam o controle de sua própria política externa” e que os aliados de Washington devem ajudar a livrar o país “desse emaranhado indesejado”.

Os Emirados Árabes Unidos têm sido alvo de ataques particularmente intensos por parte do Irã.”Logo, talvez não se trate apenas das bases americanas, mas também de colocar sob pressão os modelos [econômicos] de sucesso na região – como o de Dubai”, aponta Schmidt-Feuerheerd.

A reputação de Dubai como um local seguro para negócios e como atração turística é um pilar central dos planos dos Emirados Árabes para desenvolver setores não petrolíferos de sua economia. E é por isso que a cidade é particularmente sensível ao tipo de instabilidade que a guerra traz, como já havia apontado anteriormente o think tank americano Atlantic Council.

Mudança nas relações com os EUA

A longo prazo, é provável que a guerra no Irã leve os países do Golfo Pérsico a reavaliarem suas relações com Washington. “Acredito que isso acontecerá após a guerra”, afirma Schmidt-Feuerheerd. Segundo ele, os países do Golfo terão de decidir “se as bases militares dos EUA representam um benefício para a segurança ou um risco”.

No entanto, acrescenta o especialista, a integração militar com os EUA é tão profunda que uma mudança levaria anos. “Enquanto isso, o acordo de décadas que prevê petróleo barato em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos está começando parecer um modelo ultrapassado”, argumenta Raabe.

A pesquisadora também acredita ser improvável uma ruptura repentina. Segundo ela, os laços entre os EUA e os países do Golfo evoluíram ao longo de décadas e vão muito além da cooperação militar.

No entanto, diz, já havia sinais, antes mesmo da guerra, de que uma nova orientação estava surgindo. A Arábia Saudita vem desenvolvendo parcerias com o Paquistão e a Turquia, enquanto o Catar se aproximou de países europeus como o Reino Unido e a França.

“Esses desenvolvimentos já estavam em andamento”, explica Raabe. “Mas, dada a situação atual, eles se tornaram ainda mais significativos.”

Em busca da diversificação

Schmidt-Feuerheerd concorda. “Nos últimos anos, os observadores têm falado sobre uma estratégia de diversificação”, conta ele. Essa nova abordagem levou ao desenvolvimento de laços mais estreitos com vários outros parceiros, incluindo a China, a Turquia e países europeus.

O termo “diversificação” (“hedging”, em inglês) tem origem na economia. No entanto, não está muito claro como ele funciona quando se fala de segurança e defesa. É difícil, por exemplo, que a segurança no Golfo possa ser diversificada tão facilmente quanto um portfólio de investimentos.

“Nenhum desses [novos] parceiros representa uma alternativa militar genuína”, aponta Schmidt-Feuerheerd. Além disso, os países do Golfo nem sempre estão unidos quando se fala de orientação política. “De forma alguma é certo que eles agirão como uma entidade unificada”, explica.

Antes do início da guerra, que os obrigou a se unir novamente, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, por exemplo, vinham caminhando para uma relação cada vez mais antagônica. Há, porém, algo que eles têm em comum. “A estabilidade regional é o fator decisivo para todos os países do Golfo”, diz Raabe.

Todos os planos desses países para desenvolver suas economias longe do petróleo e rumo a um futuro próspero – desde o Visão 2030 da Arábia Saudita até as ambições globais de Dubai e Doha – dependem da paz e de um ambiente regional estável e, portanto, também da capacidade deles de se defender.

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