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Mundo
Médicos Sem Fronteiras: palestinos estão sendo massacrados em filas de comida
Publicado em 07/08/2025 12:32 - Camila Boehm (Agência Brasil), Semana On
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O historiador israelense antissionista Ilan Pappe defendeu o uso de “linguagem correta” para definir o que acontece na Faixa de Gaza atualmente: genocídio, colonização, limpeza étnica e apartheid. A declaração foi feita ontem (6), no evento Da Limpeza Étnica ao Genocídio na Palestina, realizado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
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“Chamar os atos praticados pelo estado de Israel desde outubro de 2023 como genocídio é uma contribuição importante para que a gente enderece o assunto, usando a linguagem correta, não apenas sobre o que aconteceu nos últimos dois anos, mas o que aconteceu nos últimos 140 anos.”
Pappe é professor na Universidade de Exeter, na Inglaterra. Mídia, instituições políticas, acadêmicos e lideranças, segundo ele, têm utilizado uma linguagem equivocada sobre os acontecimentos na Palestina, o que perpetua uma série de mitos que atendem ao projeto sionista e que levam à situação atual, em que há uma ofensiva de Israel contra Gaza. Essa narrativa foi desenvolvida e praticada, alertou o professor, para justificar o que é feito contra a população palestina e dar imunidade ao estado israelense.
O historiador criticou a forma como a história da Palestina é contada em diversas universidades, especialmente no Hemisfério Norte.
“Quase não há universidade no Norte Global que ensine sionismo como um projeto de colonização e as resistências como um movimento anticolonial.”
“Fica claro que Israel é considerado pela Europa como parte dela. Nesse contexto, há muito pouca esperança de que o Norte Global tome alguma ação para coibir a ação de Israel sobre o povo palestino”, avaliou. Pappe aponta que Israel é resultado de uma solução europeia para o antissemitismo europeu, o que aconteceu às custas da população árabe e palestina.
Para combater esse cenário, ele defende que o tema seja alvo de estudos.
“Limpeza étnica é mais do que uma política, é uma ideologia. E, se a gente não estudar, não analisar a conexão entre a ideologia sionista e o genocídio, a gente nunca vai conseguir impedir as ações do estado israelense contra a população palestina.”
O historiador relata que, inicialmente, o projeto sionista foi chamado de movimento de retorno e de redenção, e não o que era na prática: um projeto de colonização. “Continuaram chamando os palestinos de nômades, como se fosse uma população que não se importaria em seguir o caminho por outras terras, em vez de chamá-los corretamente como vítimas de uma limpeza étnica e vítimas do projeto sionista de colonizar o estado palestino”, disse Pappe.
“A gente tinha esperança de que as cenas [divulgadas] de Gaza, que o horror [divulgado], que cenas tão explícitas, seriam suficientes para mudar a linguagem de como é tratada essa dinâmica, esses atos criminosos.”
Pelo contrário, segundo o historiador, acadêmicos que ousaram dar nome ao extermínio da população palestina sofreu ameaças, além de ser rotulado como apoiadores do terrorismo.
Pappe ressalta, no entanto, que a sociedade civil e alguns acadêmicos de poucos países têm trazido uma nova compreensão sobre a situação. “Me dá muita esperança e encorajamento que, em uma universidade de São Paulo, nós podemos usar a linguagem correta para nos referir à Palestina. Mas não devemos tomar isso como dado, devemos lembrar que isso pode ruir. Eu falo em universidades ao redor do mundo inteiro e eu sei quão precioso isso é.”
O evento reuniu ainda vozes ativas em defesa da Palestina, representantes de diversas instituições renomadas, que denunciaram uma colonização sionista, limpeza étnica, apartheid, ocupação militar e o atual genocídio na Faixa de Gaza.
Entre os participantes, estavam Arlene Clemesha (diretora do CEPal-FFLCH/USP), Francisco Rezek (ex-ministro do STF), Paulo Casella (professor e membro do Fórum Permanente sobre Genocídios e Crimes contra a Humanidade da USP), Paulo Sérgio Pinheiro (professor e ex-Ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Soraya Misleh (dirigente da Frente Palestina São Paulo), Júlia Wong (presidenta do Centro Acadêmico XI de Agosto) e Maira Pinheiro (advogada).
Relatório da MSF denuncia massacre de civis palestinos
Palestinos foram mortos a tiros como animais durante distribuição de comida na Faixa de Gaza, diz Médicos Sem Fronteiras (MSF). Em relatório contundente divulgado nesta quinta-feira (7), a organização humanitária afirma que civis desarmados — incluindo crianças, mulheres e idosos — foram baleados em centros da Fundação Humanitária de Gaza (FHG), entidade apoiada por Israel e Estados Unidos. A MSF descreve os episódios como um “massacre orquestrado” e exige a suspensão imediata do apoio político e financeiro à fundação.
Entre 7 de junho e 24 de julho, clínicas da MSF em Al-Mawasi e Al-Attar, no sul de Gaza, atenderam 1.380 vítimas de violência nos arredores dos centros da FHG. Ao menos 28 chegaram sem vida. Do total de feridos, 71 eram crianças e adolescentes baleados — 25 deles com menos de 15 anos. Lesões na cabeça, pescoço, tórax e costas sugerem, segundo o relatório, disparos com “precisão anatômica” e “intenção deliberada de matar”.
“Em quase 54 anos de operações, raramente vimos tais níveis de violência sistemática contra civis desarmados”, afirmou Raquel Ayora, diretora-geral da MSF. “Isto precisa acabar agora.”
A MSF não atribui diretamente as mortes às Forças Armadas de Israel, mas denuncia a militarização do sistema de ajuda alimentado pela FHG. Segundo o documento, todos os centros de distribuição operam sob controle israelense e são protegidos por seguranças privados armados, contratados por empresas americanas. A presença de portões metálicos e a concentração de multidões famintas criam, de acordo com a organização, um cenário de armadilha letal.
A Fundação Humanitária de Gaza foi criada como alternativa ao sistema de ajuda gerenciado pela ONU, que vinha sofrendo acusações de desvios por parte do Hamas. Em maio de 2025, após decisão do governo israelense, a FHG assumiu a centralização das entregas de alimentos. Os Estados Unidos apoiaram o modelo, alegando maior segurança e controle. A MSF contesta esse argumento.
“São infundados os motivos apresentados por Israel e pelos EUA. A FHG apenas institucionaliza a política de fome imposta desde 2 de março, quando teve início o cerco total à Faixa de Gaza”, aponta o relatório.
Os números da MSF correspondem apenas à parcela de vítimas atendidas diretamente por suas equipes. A ONU, por sua vez, estima que mais de 1.300 palestinos foram mortos por forças israelenses ao tentarem acessar ajuda humanitária — a maioria em torno dos centros da FHG.
Além da violência armada, os pontos de distribuição são palco frequente de tumultos, saques e pisoteamentos. Um menino de cinco anos com traumatismo craniano e uma mulher asfixiada estão entre os 196 pacientes tratados por ferimentos não causados por tiros.
A diretora da MSF diz que o cenário é incompatível com qualquer definição de ajuda humanitária. “Os locais de distribuição da FHG, que se apresentam como de ajuda, transformaram-se num laboratório de crueldade”, afirma Ayora.
O relatório intitulado “Não é ajuda, é um massacre orquestrado” representa um raro posicionamento político da MSF, que tradicionalmente adota neutralidade em zonas de conflito. A denúncia, no entanto, marca uma ruptura com esse protocolo diante da gravidade dos fatos relatados.
A FHG nega a ocorrência de mortes em seus centros e responsabiliza outros comboios de ajuda pelos incidentes mais letais. Já os militares israelenses alegam ter disparado apenas “tiros de advertência” contra pessoas que se aproximavam de forma ameaçadora. As evidências clínicas apresentadas pela MSF, porém, reforçam a tese de que não se tratou de ações isoladas ou reações improvisadas.
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