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Mundo

Israel encerra corredor humanitário em Gaza e agrava fome infantil

ONU estima que 43 mil crianças podem morrer de fome até 2026 na região

Publicado em 29/08/2025 9:42 - Semana On

Divulgação Al Jazeera

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O Exército de Israel declarou ontem (29) a Cidade de Gaza como “zona de combate perigosa” e suspendeu o corredor humanitário que permitia a entrada de alimentos e ajuda médica na região. A decisão, anunciada em comunicado oficial, foi tomada após uma “avaliação situacional” e seguiu “recomendações do escalão político israelense”. O fechamento ocorre em meio ao avanço da ofensiva militar de Israel contra o Hamas e intensifica uma crise alimentar que, segundo a ONU, pode matar 43 mil crianças em um ano.

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A Cidade de Gaza, ao norte do enclave palestino, concentra cerca de um milhão de moradores e é considerada a área mais populosa do território. Desde o início da guerra, em outubro de 2023, a região vem enfrentando escassez extrema de alimentos, água potável e medicamentos. O corredor agora encerrado funcionava durante pausas táticas nas operações militares e era uma das poucas vias de acesso para a entrada de ajuda humanitária.

A decisão do governo liderado por Benjamin Netanyahu ocorre no momento em que a crise humanitária em Gaza atinge níveis catastróficos. Em relatório apresentado ao Conselho de Segurança da ONU, a vice-secretária-geral para Assuntos Humanitários, Joyce Msuya, foi categórica: “Mais de meio milhão de pessoas enfrentam atualmente a fome, a miséria e a morte. Até o final de setembro, esse número poderá ultrapassar 640 mil”.

Segundo dados apresentados pela ONU, aproximadamente 1 milhão de pessoas estão na Fase 4 (Emergência) da classificação internacional de insegurança alimentar — em uma escala de 1 a 5 — e outras 390 mil estão na Fase 3 (Crise). “Praticamente ninguém em Gaza está imune à fome”, declarou Msuya.

O alerta mais grave, porém, diz respeito às crianças: de acordo com as projeções da ONU, 132 mil crianças com menos de cinco anos sofrerão de desnutrição aguda até meados de 2026, das quais mais de 43 mil correm risco real de morte. “Essa fome não é resultado de uma seca ou desastre natural. É uma catástrofe criada — resultado de um conflito que causou mortes em massa, deslocamento forçado e destruição em larga escala”, afirmou a representante da ONU.

A entidade também destacou que, apenas no último mês, a média de mortos palestinos por dia chegou a 100 — o dobro do registrado em maio. Estima-se que 800 mil pessoas tenham sido deslocadas no período recente, muitas delas empurradas para zonas superlotadas e desprovidas de saneamento básico, abrigos e condições mínimas de higiene. Quase 98% das terras cultiváveis de Gaza estão inutilizadas e o rebanho local foi praticamente dizimado.

A ofensiva de Israel se intensificou neste mês, com autorização formal do gabinete israelense para “tomar Gaza” e “destruir as forças do Hamas”. Nos últimos dias, tanques israelenses cruzaram áreas urbanas, e os bombardeios se intensificaram, resultando na morte de cinco jornalistas, além de centenas de civis.

Impasse diplomático

As denúncias da ONU sobre o bloqueio israelense e o uso da fome como arma de guerra foram imediatamente contestadas pelos Estados Unidos, tradicional aliado de Israel. Em discurso no Conselho de Segurança, a embaixadora americana, Dorothy Shea, afirmou que “não existe uma política de fome em Gaza” e acusou o Hamas de desviar alimentos da população civil.

“Desde o início da guerra, Israel permitiu que uma quantidade sem precedentes de mais de dois milhões de toneladas de ajuda chegasse à Faixa de Gaza. Trabalhamos para garantir que a ajuda chegue aos civis sem beneficiar o Hamas”, afirmou Shea, defendendo o estreitamento da cooperação entre os dois governos.

A representante americana ainda acusou a ONU de “ecoar narrativas falsas” que, segundo ela, “prolongam a guerra e prejudicam os civis”. A fala evidencia o impasse diplomático crescente entre as potências e a ONU, em um cenário que combina alta letalidade militar com colapso humanitário.

Catástrofe anunciada

A ONU tem reiterado que a única forma de impedir uma tragédia em massa é com o aumento urgente do fornecimento de ajuda humanitária, inclusive com acesso irrestrito a todas as áreas de Gaza. Segundo Joyce Msuya, “os pequenos avanços na liberação de ração animal ou insumos não reverterão a fome nem impedirão o agravamento da catástrofe”.

“Para acabar com esta crise causada pelo homem, precisamos agir como se fossem nossos pais, nossos filhos, nossa família tentando sobreviver em Gaza hoje”, apelou a representante.

A crise alimentar em Gaza se soma a uma série de violações dos direitos humanos denunciadas por organizações internacionais e jornalistas no local, que apontam para um cenário de punição coletiva à população civil palestina — uma prática proibida pelo direito internacional humanitário.

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