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Mundo

Israel e EUA atacaram quase 400 unidades de saúde no Líbano e Irã

Canadá, Austrália e França condenam plano israelense de ocupar sul do Líbano

Publicado em 25/03/2026 11:34 - Agência Brasil e Semana On

Divulgação Hossein Zohrevand/Press TV

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O número de ataques de Israel ou dos Estados Unidos (EUA) contra centros e profissionais de saúde segue crescendo ao longo da nova fase do conflito no Oriente Médio. No Líbano, 70 unidades de saúde foram alvo de bombardeios. No Irã, cerca de 300 equipamentos do setor foram danificados.

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Ataques contra unidades de saúde representam uma violação do direito humanitário internacional. Não foram registrados, até o momento, ataques a centros médicos em Israel ou outros países do Golfo Pérsico alvos de ataques iranianos.

No Líbano, o Ministério da Saúde informou, na terça-feira (24), que 70 unidades de saúde foram atingidas por bombardeios desde o dia 2 de março. Há duas semanas, o número de centro médicos atacados eram de 18.

Dois paramédicos foram assassinados hoje na cidade libanesa de Nabatieh, após um ataque de Israel contra um comboio de motocicletas, segundo relatou a Agência Nacional de Notícias do Líbano, veículo estatal de notícias.

Ao todo, os ataques a unidades de saúde no Líbano mataram 42 profissionais e feriram outros 119. Os bombardeios obrigaram o fechamento de cinco hospitais no país, causando danos parciais a outras nove unidades. Ao menos 54 unidades básicas de saúde foram fechadas, segundo as informações do governo local.

A Força de Defesa de Israel (FDI) afirma que o Hezbollah tem feito “uso militar extensivo” de ambulâncias e instalações médicas e que agirá contra o grupo caso mantenha essa prática, segundo o porta-voz Avichay Adraee, em comunicado publicado no jornal israelense The Times Of Israel.

A Anistia Internacional diz que Israel não apresenta provas das acusações que faz, destacando que o país também usou a estratégia de assassinato de profissionais de saúde no conflito no Líbano de 2024.

“Lançar acusações alegando que instalações de saúde e ambulâncias estão sendo usadas para fins militares sem apresentar qualquer prova não justifica tratar hospitais, instalações médicas ou transporte médico como campos de batalha, nem tratar médicos e paramédicos como alvos”, diz Kristine Beckerle, diretora Regional Adjunta para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional.

Os danos vêm sobrecarregando o saturado sistema de saúde do Líbano, que precisa atender mais de 2,9 mil feridos pelo conflito, além dos pacientes em tratamento ou em recuperação de ataques anteriores.

“Desde o início da escalada, profissionais e instalações de saúde no Líbano têm sido repetidamente afetados por ataques, incluindo incidentes que resultaram em múltiplas mortes e feridos. A infraestrutura de saúde foi gravemente afetada”, diz informe da Organização Mundial da Saúde (OMS), que vem confirmando os dados do governo libanês.

No Irã, o Ministério da Saúde local informou, nesta terça-feira (24), que ataques de Israel e dos EUA causaram danos a 313 centros médicos, hospitais, ambulâncias ou outros equipamentos do sistema de saúde. Os ataques teriam assassinado 23 profissionais da área no país.

O número oficial do governo iraniano é semelhante ao cálculo da Crescente Vermelha Iraniana, organização de ajuda humanitária que atua em diversos países. A entidade informou que os ataques dos EUA e de Israel danificaram 281 centros médicos, hospitais, farmácias e filiais da Crescente Vermelho.

“Dezessete bases do Crescente Vermelho no país foram alvejadas pelo inimigo agressor e 94 ambulâncias e veículos de resgate foram alvejados diretamente por mísseis inimigos”, informou Pir-Hossein Kolivand, presidente do Crescente Vermelho Iraniano.

Até o dia 18 de março, a OMS havia reconhecido ataques a 20 unidades de saúde no Irã, com nove mortes.

Os EUA têm negado ataques a instalações civis no Irã. O secretário de Estado, Marco Rubio, ponderou que “efeitos colaterais” dos ataques são possíveis durante os combates.

Destruição como estratégia

O jornalista e especialista em geopolítica Anwar Assi avalia que o alto número de unidades de saúde atacadas no Irã e no Líbano indicam que não se trata de efeito colateral da guerra, mas de uma estratégia deliberada.

“É um crime de guerra e pretendem, com isso, pressionar e aterrorizar a população civil, mostrando que eles vão atacar e não vai ter ninguém para ajudar eles. Isso é uma estratégia que Israel usa desde a década de 1990”, afirmou.

Filho de libaneses, Anwar acrescenta que o objetivo é forçar a população a se revoltar para promover uma “mudança de regime” no Irã ou se voltarem contra o Hezbollah no Líbano. “É a mesma estratégia que eles pensaram no Irã. Atacar civis, o povo vai para a rua, faz uma rebelião. Mas nunca acontece”, completou.

O especialista acrescenta que, além de ataques diretos a hospitais, tem sido realizado muitos ataques aos prédios do entorno das maiores unidades, prejudicando o atendimento e forçando uma evacuação de pacientes.

“Assim, quando eles atacam um prédio que fica ao lado do hospital, acabam quebrando os vidros dentro do hospital. Acabam quebrando um quarto. Então, assim, eles vão destruindo os grandes hospitais de forma indireta”, completou.

Gaza

Os ataques a centros e unidades de saúde por Israel também foram uma marca dos conflitos mais recentes na Faixa de Gaza, depois de 7 de outubro de 2023. A OMS registrou 931 ataques a unidades de saúde em Gaza nesse período, além de outros 940 ataques a equipamentos do sistema de saúde na Cisjordânia, seja por meio do uso da força ou da obstrução dos serviços.

A organização informa que 991 profissionais de saúde foram assassinados em Gaza desde o dia 7 de outubro, com outros 2 mil feridos. Israel sempre justificou esses ataques dizendo que o Hamas estaria utilizando as unidades de saúde como “escudo”. O grupo palestino negou essas alegações.

Ainda segundo as Forças de Defesa de Israel, os militares respeitam o direito humanitário e buscam evitar a perda de vidas civis, inclusive por meio de avisos prévios para evacuações de áreas que serão bombardeadas.

Canadá, Austrália e França rejeitam ofensiva israelense

Canadá, Austrália e França elevaram o tom contra os planos de Israel de avançar militarmente sobre o sul do Líbano, em um momento de crescente tensão regional e deterioração das condições humanitárias no país. As três nações defendem que qualquer operação terrestre comprometeria a soberania libanesa e agravaria um conflito já marcado por elevado número de vítimas civis.

Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (25), o governo canadense expressou solidariedade ao Líbano e reiterou que todas as partes envolvidas devem agir conforme o direito internacional. Ottawa também pediu a proteção de civis e a preservação de estruturas essenciais, incluindo unidades de saúde e forças de paz, segundo informações da Al Jazeera.

Na mesma linha, a ministra das Relações Exteriores da Austrália, Penny Wong, manifestou oposição direta à proposta israelense de estabelecer uma “zona de proteção defensiva” no território libanês — medida apresentada pelo governo de Benjamin Netanyahu como resposta à atuação do Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã. Em conversa com o chanceler israelense, Gideon Sa’ar, Wong reafirmou o apoio australiano à integridade territorial do Líbano e reforçou que Canberra não aceita qualquer ocupação da região sul do país.

A posição foi reiterada publicamente pelo governo australiano, que demonstrou preocupação com a ampliação do conflito, o aumento das mortes e o deslocamento em massa de civis. Estimativas indicam que mais de um milhão de pessoas já foram forçadas a deixar suas casas em decorrência dos ataques.

A França também se posicionou contra a ofensiva planejada. O ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, advertiu que uma incursão terrestre teria consequências humanitárias graves e poderia aprofundar a crise no Líbano. Em declaração à agência AFP, ele instou Israel a recuar da operação para evitar um agravamento do cenário.

A escalada ocorre em um contexto de conflito ampliado no Oriente Médio. Após confrontos diretos entre Estados Unidos e Israel contra o Irã no fim de fevereiro, o Hezbollah declarou apoio a Teerã e prometeu retaliar a morte do líder iraniano Ali Khamenei. Apesar de um cessar-fogo firmado em novembro de 2024, ataques israelenses continuaram a atingir território libanês, alimentando a instabilidade.

Desde o início de março, quando o Hezbollah intensificou suas ações, os confrontos deixaram ao menos 1.072 mortos e cerca de três mil feridos. Bombardeios recorrentes atingiram o sul, o leste e áreas da capital, Beirute, enquanto organizações internacionais alertam para o risco iminente de colapso humanitário caso a ofensiva terrestre seja concretizada.

O impasse diplomático evidencia a dificuldade de contenção do conflito e reforça a pressão internacional sobre Israel, num momento em que a guerra ameaça se expandir para além das fronteiras já afetadas.

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