Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Após três semanas de confrontos, Teerã amplia capacidade de dissuasão
Publicado em 24/03/2026 1:00 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A ofensiva militar iniciada por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro tinha objetivos claros: desarticular o regime iraniano, neutralizar seu arsenal de mísseis, interromper o programa nuclear e enfraquecer suas conexões com grupos armados como Hamas, na Faixa de Gaza, e Hezbollah, no sul do Líbano. Havia ainda um interesse estratégico mais amplo: reconfigurar o acesso às reservas energéticas do Golfo.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK E WHATSAPP
Passadas pouco mais de três semanas, o cenário diverge significativamente das expectativas iniciais. O regime iraniano não apenas permanece intacto como demonstra capacidade de reação, atingindo alvos estratégicos norte-americanos na região e centros sensíveis em território israelense, como Tel Aviv, Jerusalém e Dimona. Paralelamente, a instabilidade no Estreito de Hormuz pressionou o mercado internacional, elevando o preço do petróleo a patamares próximos de US$ 120 por barril.
A resposta iraniana alterou o cálculo político em Washington. Diante da resiliência de Teerã, Donald Trump recuou do ultimato de 48 horas que previa uma escalada contra infraestruturas civis — incluindo refinarias e usinas — e optou por estender em cinco dias o prazo para negociações. Na prática, a decisão reposiciona os Estados Unidos no mesmo ponto anterior ao início das hostilidades: a mesa de diálogo.
O contraste, contudo, é substancial. Antes da ofensiva, as negociações em Genebra ocorriam sob a expectativa de que o Irã cederia para evitar um colapso militar. Agora, após resistir ao ataque e demonstrar capacidade de infligir danos relevantes, Teerã retorna às tratativas em posição mais robusta — tanto no plano externo quanto interno. A guerra, ao contrário do esperado, contribuiu para conter dissidências domésticas e reforçar a coesão do regime.
O conflito também evidenciou fissuras entre Washington e aliados da Otan. Diversos países europeus não apenas se recusaram a apoiar a ação militar como criticaram sua legalidade, sinalizando um desalinhamento que pode se aprofundar no médio prazo.
Do ponto de vista histórico, o impasse atual representa um recuo em relação ao acordo nuclear firmado em 2015 durante o governo Barack Obama, que limitava o enriquecimento de urânio iraniano para fins civis. A retirada unilateral dos Estados Unidos desse pacto, em 2018, sob promessa de شروط mais rigorosas, culmina agora em um cenário no qual Washington sequer tem clareza sobre a localização do material nuclear iraniano remanescente.
A dinâmica interna do Irã também contrariou previsões iniciais. A morte do líder supremo Ali Khamenei, nos primeiros dias de bombardeio, não desencadeou mobilização popular contra o regime. Pelo contrário, resultou em uma transição rápida de poder, com a ascensão de Mojtaba Khamenei, que adota uma linha ainda mais dura, baseada na intensificação do confronto como estratégia de negociação.
A continuidade operacional do aparato militar iraniano, mesmo após a eliminação de figuras-chave, é atribuída por analistas à estrutura descentralizada de comando, que reduz vulnerabilidades a ataques de liderança.
No campo econômico e estratégico, Teerã preserva instrumentos relevantes de pressão. O país mantém fornecimento significativo de petróleo à China — cerca de 13% de suas importações — e exerce controle sobre o Estreito de Hormuz, por onde transita aproximadamente um quinto do petróleo comercializado globalmente. Esse posicionamento amplia sua capacidade de interferir diretamente no mercado energético internacional.
Embora o regime não possa reivindicar vitória conclusiva, sua sobrevivência em um contexto inicialmente adverso já altera a narrativa do conflito. Além disso, a flexibilização das sanções ao petróleo iraniano abre espaço para a entrada no mercado de cerca de 140 milhões de barris já extraídos, potencialmente fortalecendo uma economia há anos submetida a restrições severas.
A reconfiguração das sanções também produz efeitos colaterais mais amplos. A redução da pressão sobre exportações energéticas beneficia, indiretamente, a Rússia, permitindo a retomada de vendas com menor risco de retaliação por parte de Washington.
Ainda não há definição sobre o desfecho do conflito. O prazo estabelecido pelos Estados Unidos pode levar a uma nova escalada militar. No entanto, o quadro atual indica uma inversão parcial dos objetivos iniciais da campanha: em vez de enfraquecido, o regime iraniano emerge mais coeso, assertivo e com maior capacidade de barganha no tabuleiro geopolítico.
Pressão saudita expõe dilema dos EUA
Em meio ao impasse que reposicionou Washington na mesa de negociações, a Arábia Saudita surge como um ator central na disputa pelo rumo da guerra. Reportagem do New York Times aponta que o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman tem defendido, em conversas privadas com Donald Trump, a continuidade da ofensiva contra o Irã como oportunidade estratégica para reconfigurar o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
Segundo fontes informadas por autoridades norte-americanas, o argumento central de Riad é que uma interrupção prematura das operações poderia preservar — ou até fortalecer — a capacidade de projeção regional de Teerã. A avaliação é de que o conflito deveria avançar até comprometer de forma decisiva a estrutura de poder iraniana, incluindo sua infraestrutura energética, considerada um dos pilares do regime.
Publicamente, no entanto, o discurso saudita segue outra linha. Em comunicado oficial, o governo reafirmou apoio a uma solução negociada e negou atuar para prolongar a guerra, enfatizando preocupações com a própria segurança diante de ataques recorrentes. A dualidade entre bastidores e declarações formais revela um cálculo estratégico mais complexo: conter o Irã sem ampliar excessivamente a própria exposição.
O dilema se agrava à medida que o conflito pressiona diretamente o coração econômico do Golfo. A escalada de ataques com drones e mísseis já afeta instalações sensíveis e eleva o risco percebido pelos mercados. O Estreito de Hormuz, por onde escoa parcela significativa da produção regional, permanece como ponto crítico — não apenas pela circulação de petróleo, mas pela capacidade iraniana de interferir nesse fluxo.
Analistas ouvidos pelo jornal destacam que, embora Riad deseje o fim das hostilidades, há receio quanto aos termos desse desfecho. Um encerramento sem resultados tangíveis para conter Teerã poderia, na avaliação saudita, resultar em um cenário ainda mais instável, com um Irã fortalecido e disposto a retaliar de forma mais assertiva.
Esse cálculo foi sintetizado pela pesquisadora Yasmine Farouk, para quem “como a guerra termina” tornou-se questão central para os países do Golfo — mais até do que sua duração. A preocupação reflete um ambiente de segurança deteriorado, no qual tentativas recentes de distensão foram rapidamente revertidas.
A retomada das relações diplomáticas entre Riad e Teerã em 2023, que havia sinalizado uma possível reacomodação regional, perde relevância diante da atual dinâmica de confrontos. O chanceler saudita, Faisal bin Farhan, reconheceu que a confiança construída naquele período foi “completamente destruída”, indicando um retorno à lógica de rivalidade aberta.
No plano militar, a Arábia Saudita enfrenta limitações concretas. O uso intensivo de sistemas de defesa como os mísseis interceptadores Patriot tem reduzido estoques estratégicos, enquanto a reposição desses equipamentos enfrenta entraves logísticos e políticos. Ataques já atingiram alvos relevantes, incluindo infraestrutura energética e áreas diplomáticas, ampliando a percepção de vulnerabilidade.
Diante desse cenário, o governo saudita afirma mobilizar múltiplos instrumentos de pressão — políticos, econômicos e diplomáticos — para conter a escalada. Ainda assim, a atuação de Riad sugere uma tentativa de equilibrar dois objetivos potencialmente conflitantes: evitar uma guerra prolongada em seu território de influência e, ao mesmo tempo, impedir que o conflito termine sem alterar substancialmente a posição do Irã.
O resultado é um jogo de ambivalências que amplia a complexidade do tabuleiro geopolítico. Ao pressionar por maior contundência enquanto se protege de seus efeitos colaterais, a Arábia Saudita expõe não apenas os limites da estratégia americana, mas também as incertezas de uma região em que qualquer desfecho — inclusive o diplomático — carrega riscos significativos.
Israel amplia presença militar no Líbano
A abertura de uma nova frente terrestre no Líbano aprofunda a dimensão regional do conflito e indica uma mudança de estratégia por parte de Israel. O governo anunciou a criação de uma zona de segurança no sul do território libanês, com avanço das tropas até o rio Litani — movimento que sugere não apenas contenção tática, mas intenção de controle territorial mais duradouro.
A decisão, comunicada pelo ministro da Defesa, Israel Katz, prevê o estabelecimento de uma linha defensiva avançada em área que se estende por cerca de 30 quilômetros a partir da fronteira. Na prática, trata-se de uma reedição, em nova escala, da lógica de zona tampão adotada por Israel entre 1982 e 2000, durante sua presença militar no sul libanês.
O impacto imediato recai sobre a população civil. Segundo o próprio governo israelense, centenas de milhares de deslocados não poderão retornar às suas casas ao sul do Litani enquanto não houver garantias de segurança para o norte de Israel. A medida institucionaliza, ainda que de forma indireta, um deslocamento forçado de larga escala em uma região já marcada por sucessivos ciclos de conflito.
No terreno, a escalada militar se traduz em bombardeios contínuos e avanço de tropas em cidades fronteiriças. O Hezbollah afirma resistir à incursão e reivindica ataques contra forças israelenses, enquanto Israel intensifica operações tanto em áreas de combate quanto em regiões urbanas mais afastadas da linha de frente.
Relatos de ataques em zonas residenciais — inclusive fora de redutos tradicionais do Hezbollah — ampliam a pressão humanitária e colocam em evidência o custo civil da ofensiva. Episódios recentes incluem mortes e destruição de imóveis na região metropolitana de Beirute, reforçando a percepção de que o conflito ultrapassou limites geográficos anteriormente observados.
A expansão das operações no Líbano também se conecta diretamente à dinâmica mais ampla do conflito com o Irã. A entrada do Hezbollah no confronto, motivada por eventos recentes envolvendo a liderança iraniana, consolidou o país como um dos principais palcos indiretos da disputa entre Tel Aviv e Teerã.
Paralelamente à escalada militar, Beirute ensaia movimentos no campo diplomático. A revogação do credenciamento do embaixador iraniano, Mohammad Reza Raeuf Sheibani, indica uma tentativa de sinalizar distanciamento da influência direta de Teerã — especialmente no que diz respeito às operações do Hezbollah, frequentemente associadas à Guarda Revolucionária do Irã.
A decisão foi bem recebida por Israel. O chanceler Gideon Saar classificou a medida como necessária, mas elevou o tom ao cobrar ações mais concretas do governo libanês contra o Hezbollah — que, além de força armada, integra formalmente a estrutura política do país.
O cenário resultante combina avanço militar, deslocamento populacional e tensão institucional. Ao consolidar presença no sul do Líbano, Israel amplia sua margem de segurança imediata, mas também reabre um histórico de ocupação que, no passado, alimentou ciclos prolongados de instabilidade.
Mais do que um desdobramento lateral, a frente libanesa passa a operar como peça central no redesenho do conflito regional — onde cada movimento tático no campo de batalha repercute diretamente nas frágeis engrenagens diplomáticas que ainda tentam evitar uma escalada irreversível.
Opinião pública nos EUA se desloca
Um dos pilares históricos da política externa norte-americana começa a mostrar sinais de desgaste interno. Pesquisa divulgada pela rede NBC News revela uma mudança significativa na percepção dos eleitores dos Estados Unidos sobre o conflito no Oriente Médio: pela primeira vez, a simpatia declarada em relação aos palestinos supera — ainda que por margem estreita — o apoio a Israel.
O levantamento, realizado entre o fim de fevereiro e o início de março com cerca de mil eleitores, aponta não apenas uma divisão inédita nas preferências, mas uma deterioração consistente da imagem israelense. Atualmente, 39% dos entrevistados afirmam ter uma visão negativa de Israel, enquanto 32% expressam avaliação positiva — uma inversão expressiva em relação a 2023, quando predominava uma percepção favorável.
A mudança torna-se ainda mais evidente quando analisada em perspectiva histórica. Em 2013, a identificação com Israel era majoritária e amplamente dominante. Hoje, o cenário é de equilíbrio instável, com leve inclinação em direção aos palestinos — um dado que, segundo analistas, rompe com décadas de consenso político e cultural nos Estados Unidos.
A divisão partidária ajuda a explicar parte dessa transformação. Enquanto eleitores republicanos seguem majoritariamente alinhados a Israel, a base democrata apresenta uma guinada relevante, com cerca de dois terços manifestando maior empatia pelos palestinos. Para o pesquisador Bill McInturff, o cenário atual é “irreconhecível” quando comparado ao posicionamento tradicional do Partido Democrata nas últimas décadas.
Seu colega Jeff Horwitt atribui essa inflexão a eventos recentes no conflito, especialmente à condução militar israelense e à ampliação da guerra regional. Segundo ele, ainda que Israel tenha obtido resultados táticos relevantes, o custo reputacional junto à opinião pública americana foi elevado.
O impacto político dessa mudança, no entanto, tende a se manifestar de forma desigual no curto e no longo prazo. Para o analista James Green, a reconfiguração das percepções não deve influenciar de maneira decisiva as eleições legislativas mais imediatas, tradicionalmente pautadas por temas domésticos. Questões como inflação, custo de vida e desempenho econômico continuam a ocupar o centro das preocupações do eleitorado.
Esse diagnóstico é reforçado por avaliações acadêmicas, como a do professor emérito da Brown University, que aponta o desgaste interno do governo de Donald Trump como fator mais determinante no cenário eleitoral. Promessas não cumpridas na área econômica e o envolvimento crescente em um conflito externo contribuem para ampliar a insatisfação de parcelas do eleitorado.
Ainda assim, a mudança captada pela pesquisa tende a produzir efeitos mais profundos no médio prazo — especialmente nas disputas internas do Partido Democrata. A avaliação de McInturff é que as primárias presidenciais de 2028 ocorrerão em um ambiente político substancialmente distinto no que diz respeito à relação com Israel.
Sinais desse reposicionamento já emergem entre lideranças democratas. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, considerado um dos nomes mais competitivos para a próxima corrida presidencial, tem adotado um discurso que combina apoio histórico a Israel com críticas diretas à condução política do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Ao comentar o tema, Newsom indicou que a atual liderança israelense pode estar empurrando os Estados Unidos para uma revisão de sua parceria estratégica — algo que, até recentemente, seria politicamente impensável. A crítica também incorpora elementos da política interna israelense, incluindo disputas eleitorais e questionamentos sobre a condução institucional do país.
O resultado é a emergência de um debate mais amplo sobre os limites e os custos dessa aliança. Embora ainda distante de provocar rupturas imediatas, a mudança na opinião pública sugere que o apoio automático a Israel — por décadas um consenso bipartidário em Washington — passa a ser cada vez mais condicionado, disputado e politicamente sensível.
Nesse novo contexto, a relação entre Estados Unidos e Israel deixa de ser apenas um dado estrutural da política externa e se transforma, progressivamente, em tema de contestação interna — com potencial para redefinir prioridades estratégicas e reposicionar alianças no futuro próximo.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Trump anuncia pausa em ataques e fala em diálogo com Irã: Teerã nega negociações
Deixe um comentário