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Colonos sionistas expulsam palestinos de aldeias da Cisjordânia e IDF os proíbe de entrar em Gaza
Publicado em 26/01/2026 2:02 - Semana On
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Para Jamila Rashid, Ras Ein el-Auja, uma aldeia palestino-beduína no sul do Vale do Jordão, foi o lar da sua família por décadas. Mas no início de janeiro ela se viu forçada a tomar a decisão de partir, na esteira do aumento da violência por parte dos colonos israelenses contra palestinos e seus bens na Cisjordânia.
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“A perseguição se tornou insuportável”, disse Rashid, uma jovem mãe. “Não há mais segurança. Sofremos há três anos, mas agora as provocações aumentaram.”
Segundo as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o Shin Bet, a agência de segurança interna israelense, os ataques por colonos extremistas contra palestinos e forças israelenses aumentaram 27% em 2025 em comparação com o ano anterior. A violência cresce desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023.
Desde janeiro daquele ano, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) documentou mais de 700 famílias palestinas cujo deslocamento esteve ligado à violência de colonos na Cisjordânia.
As mais afetadas são as comunidades beduínas e pastoris na Área C, que representa 60% da Cisjordânia e está sob total controle administrativo e de segurança de Israel. Segundo o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem, ao menos 44 comunidades foram completamente expulsas desde o início da guerra em Gaza.
Rotina de violência
A situação em Ras Ein el-Auja começou a se deteriorar no fim de dezembro de 2025, quando colonos israelenses estabeleceram um posto avançado ilegal dentro da aldeia. Eles araram a terra com tratores e bloquearam uma estrada que levava a um dos lados da comunidade.
O morador local Salameh Qa’abna havia testemunhado vários ataques e tentativas de se aproximar da comunidade nos últimos anos. Mas, quando os colonos montaram o pequeno posto avançado a apenas algumas dezenas de metros de sua casa e família, qualquer sensação remanescente de segurança desapareceu rapidamente.
“Eles nos impediram de usar a estrada e bloquearam os tanques de água”, disse Qa’abna, olhando para o posto avançado próximo, onde havia dois colonos. “À noite, vários deles se aproximaram das nossas áreas de moradia. As crianças ficaram apavoradas.”
Cerca de 130 pessoas foram forçadas a desmontar suas casas e deixar a aldeia no início deste mês devido aos ataques contínuos dos colonos à comunidade.
Rashid e sua jovem família agora se juntarão a elas. “Isso é humilhante, é doloroso”, disse ela. “Existe algo mais difícil do que demolir sua própria casa com as próprias mãos? E nem sabemos para onde iremos.”
Padrão na Cisjordânia
Muitos outros também estavam empacotando seus pertences naquele dia frio, ensolarado, de inverno no Vale do Jordão, em meio aos balidos de cabras, ovelhas e burros.
Os animais são a principal fonte de subsistência da aldeia, mas a maioria deles havia sido confinada aos currais ao longo de semanas, porque se tornara perigoso demais deixá-los pastar.
Agora, alguns estavam sendo carregados em pequenas caminhonetes e levados embora, enquanto jovens de Ramallah ajudavam os moradores a desmontar os currais e as casas.
Outro morador, Mohammed Abu Fadi, observava tudo com descrença, ainda incerto se partiria ou ficaria. “Todos os dias e noites, eles vêm com cavalos e nos assediam. Tudo isso afeta as crianças, os animais e até os pássaros”, disse.
O padrão se repetiu em várias outras comunidades palestinas, como nas vizinhas Muarrajat e Mughayyir al-Deir. Ali também, colonos instalaram postos avançados no centro das aldeias, intensificaram seus ataques e expulsaram as pessoas em pouco tempo.
Assentamentos em expansão
De acordo com o grupo de vigilância antiassentamentos Peace Now (Paz Agora, em tradução livre), há 149 assentamentos espalhados pela Cisjordânia, além de 224 pequenos postos avançados e fazendas não autorizados.
Os assentamentos são ilegais segundo o direito internacional, o que Israel contesta. A expansão dos assentamentos tem sido promovida por governos israelenses sucessivos desde a guerra de 1967.
Sob o atual governo, colonos foram nomeados para cargos importantes. Recentemente, foi anunciado o estabelecimento ou a legalização de 19 novos assentamentos, bem como a implementação de um plano considerado controverso, conhecido como E1, para dividir a Cisjordânia em duas.
A maior parte da comunidade internacional, incluindo a Alemanha, vê o crescente número de assentamentos como obstáculo para a eventual criação de um Estado palestino.
“Presença protetora”
Em Ras Ein el-Auja, um jovem colono israelense guiava seu rebanho de ovelhas pela aldeia, seguido de perto por ativistas internacionais e israelenses dos chamados “grupos de presença protetora”.
Essas são pessoas que permanecem na aldeia 24 horas por dia, todos os dias, para proteger a comunidade de ataques. Mas, da sua base em uma pequena colina, há pouco que pudessem fazer.
“No momento, só podemos protegê-los enquanto estão empacotando e ajudá-los a deixar este lugar com segurança”, disse Neta Ben Porat, ativista da ONG antiassentamentos Looking the Occupation in the Eye (Olhando a ocupação nos olhos, em tradução livre).
Nos últimos dias, disse ela, colonos israelenses levaram vários rebanhos de ovelhas e cabras para a aldeia. “Os moradores não conseguem dormir, não conseguem descansar, precisam estar alertas o tempo todo. Muitos decidiram que não podiam viver assim e resolveram partir.”
FDI dizem que aumentaram a segurança
Parte dos palestinos e dos ativistas antiassentamentos argumentam que o governo israelense deixa esses ataques sem controle e que há pouca responsabilização para os perpetradores.
Em março de 2025, colonos israelenses roubaram rebanhos de ovelhas e cabras durante a noite de vários agricultores da aldeia, ferindo e matando violentamente alguns dos animais antes de levá-los para um posto avançado agrícola ilegal.
Apesar de fornecer provas do paradeiro dos animais, pedidos feitos à polícia e ao exército não foram atendidos nem resultaram na devolução dos animais.
Quando questionadas pela DW sobre o que estavam fazendo para proteger os moradores, as FDI disseram em comunicado que haviam aumentado recentemente a presença de soldados e que estavam cientes dos incidentes.
“Soldados das FDI entram na área de acordo com chamadas e necessidades operacionais, visando prevenir atritos entre populações e manter a ordem e a segurança na área”, disseram as FDI, acrescentando que “soldados que se deparam com incidentes de violação da lei por cidadãos israelenses, ou atos dirigidos contra palestinos ou seus bens, são obrigados a intervir e, se necessário, deter ou prender os suspeitos até que a polícia chegue ao local.”
Em Ras Ein el-Auja, Rashid, Qa’abna e outros parentes levariam suas famílias para um lugar seguro. Da noite para o dia, tanto os habitantes quanto seus animais desapareceram de um dos lados da aldeia. Apenas as estruturas esqueléticas das cabanas permaneceram como testemunho das pessoas que haviam vivido ali.
Israel planeja controlar fluxo de palestinos em Gaza
O governo de Israel discute medidas para restringir a entrada de palestinos na Faixa de Gaza pela fronteira com o Egito, com o objetivo de assegurar que o número de pessoas que deixam o território supere o de quem entra. A informação foi confirmada por três fontes com conhecimento direto das tratativas, que falaram sob condição de anonimato devido à sensibilidade do tema.
A possível restrição ocorre às vésperas da anunciada reabertura da passagem de Rafah, considerada a única rota de entrada e saída para a maioria dos mais de dois milhões de habitantes de Gaza. O anúncio foi feito por Ali Shaath, chefe de um comitê palestino de transição apoiado pelos Estados Unidos, criado para administrar temporariamente o território.
A reabertura da fronteira estava prevista para a fase inicial do plano apresentado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que resultou em um cessar-fogo firmado em outubro entre Hamas e Israel. No início deste mês, Washington informou que o plano avançou para uma segunda etapa, que prevê uma retirada adicional de tropas israelenses e a transferência gradual do controle administrativo de Gaza.
Apesar disso, o lado palestino da passagem de Rafah permanece sob controle militar israelense desde 2024. Segundo as fontes ouvidas, ainda não está definido de que forma Israel pretende impor limites às entradas vindas do Egito nem qual proporção entre saídas e entradas será buscada.
O tema é particularmente sensível entre os palestinos. Autoridades israelenses já mencionaram, em outras ocasiões, a possibilidade de incentivar a emigração de moradores de Gaza — afirmação que Israel nega estar associada a qualquer plano de deslocamento forçado. Ainda assim, há forte temor de que restrições à circulação possam impedir o retorno de pessoas que deixem o território temporariamente.
Pelos arranjos em discussão, a passagem de Rafah deverá ser operada por palestinos ligados à Autoridade Palestina, sediada em Ramallah, com monitoramento de representantes da União Europeia, modelo semelhante ao adotado durante um cessar-fogo temporário no início do ano passado.
Paralelamente às restrições na fronteira, Israel também defende a criação de um posto de controle militar dentro de Gaza, próximo à linha divisória com o Egito. De acordo com cinco fontes, todos os palestinos que entrarem ou saírem do território teriam de passar por esse ponto, onde seriam submetidos a verificações de segurança conduzidas por forças israelenses.
O gabinete do primeiro-ministro de Israel não respondeu aos pedidos de comentário sobre as propostas. As Forças de Defesa de Israel encaminharam as perguntas ao governo e se recusaram a comentar. A Embaixada dos Estados Unidos em Israel também não se manifestou sobre o eventual apoio de Washington às medidas em discussão.
Na fase inicial do plano norte-americano, Israel promoveu uma retirada parcial de suas tropas, mas manteve o controle de cerca de 53% do território de Gaza, incluindo toda a fronteira terrestre com o Egito. A maior parte da população vive na área restante, sob controle do Hamas, em condições precárias, alojada majoritariamente em barracas improvisadas ou edifícios danificados pelos combates.
Israel demoliu mais de 2.500 prédios em Gaza após cessar-fogo
Mesmo após a entrada em vigor do cessar-fogo, a destruição de infraestrutura na Faixa de Gaza continuou em ritmo elevado. Uma análise conduzida pelo The New York Times aponta que mais de 2.500 edifícios foram demolidos por Israel desde o início da trégua, firmada há cerca de dois meses.
A investigação, publicada nesta terça-feira, baseou-se na comparação de imagens de satélite fornecidas pela Planet Labs, revelando alterações significativas na paisagem urbana do enclave no período posterior ao acordo. Segundo o jornal, a continuidade das demolições contrasta com as expectativas geradas pelo cessar-fogo, que previa a interrupção das operações militares em áreas específicas.
Autoridades israelenses sustentam que as ações fazem parte de operações de segurança voltadas à neutralização de túneis subterrâneos e de edificações consideradas armadilhadas, supostamente utilizadas por grupos armados. O argumento oficial é que as demolições não seriam indiscriminadas, mas consequência direta da destruição de estruturas subterrâneas, o que, em alguns casos, provocaria o colapso de prédios na superfície.
Ainda assim, a análise do New York Times indica que dezenas de edifícios foram destruídos além da chamada “linha amarela” — demarcação estabelecida no acordo de trégua como limite para a atuação militar israelense. Essas áreas estão sob controle do Hamas, onde Israel havia se comprometido a suspender operações terrestres.
Um oficial israelense, ouvido sob condição de anonimato, reconheceu que demolições ocorreram em ambos os lados da linha estabelecida, mas afirmou que as forças não avançaram por terra além do limite acordado. Segundo ele, os danos seriam resultado indireto de explosões realizadas à distância para destruir túneis.
Do lado palestino, moradores e analistas contestam essa versão. Relatos colhidos pelo jornal descrevem bairros inteiros reduzidos a escombros, alimentando o temor de que outras áreas ainda de pé possam ruir caso Israel avance na desmontagem completa da rede subterrânea.
“Nossas esperanças e sonhos foram transformados em montes de entulho”, afirmou Niveen Nofal, palestina de 35 anos, em depoimento ao New York Times.
Para analistas locais, a escala da destruição vai além de qualquer justificativa militar imediata. “Israel está apagando áreas inteiras do mapa”, afirmou o analista político Mohammed al-Astal. “Os militares estão destruindo casas, escolas, fábricas e ruas. Não há justificativa de segurança para o que está sendo feito”, declarou.
Israel destrói sede de agência da ONU em Jerusalém
A demolição da sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA) em Jerusalém Oriental, na semana passada, abriu um novo capítulo de confronto institucional entre Israel e o sistema das Nações Unidas. A ação, classificada pela ONU como sem precedentes, ocorreu em uma área considerada território ocupado pelo direito internacional e reivindicada pelos palestinos como capital de um futuro Estado.
A operação contou com a presença do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, figura central da ala ultranacionalista do governo israelense. No local, a bandeira da ONU foi retirada e substituída pela bandeira israelense — gesto de forte carga simbólica, interpretado por diplomatas como um desafio direto ao status jurídico internacional de Jerusalém Oriental.
O prédio já estava desativado, após meses de escalada verbal entre autoridades israelenses e a agência humanitária. Representantes do governo acusam a UNRWA de manter vínculos com o Hamas e de perpetuar a condição de refúgio palestino. Em tom ainda mais agressivo, o vice-prefeito de Jerusalém, Aryeh King, chamou a agência de “nazista” em publicação na rede X.
A demolição ocorre na esteira da chamada Lei de Cessação das Operações da UNRWA, aprovada por Israel no fim de dezembro, cujo objetivo declarado é impedir a atuação da agência em áreas sob controle israelense. A ONU reagiu de forma contundente, afirmando que a legislação viola o arcabouço jurídico internacional que rege o funcionamento da organização e deve ser revogada de imediato.
Em nota oficial, o secretário-geral das Nações Unidas lembrou que Israel é signatário da Carta da ONU e da Convenção sobre Privilégios e Imunidades, que garante a inviolabilidade dos bens, ativos e instalações da organização. A declaração também citou o parecer consultivo emitido pela Corte Internacional de Justiça, em outubro de 2025, segundo o qual Israel tem obrigação legal de assegurar o pleno respeito às imunidades da ONU e de suas agências no Território Palestino Ocupado.
A reação mais dura veio do comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, que descreveu a ação como um ataque deliberado ao direito internacional. Segundo ele, tratores demoliram edificações dentro do complexo sob a supervisão de parlamentares e de um integrante do governo israelense. Lazzarini também alertou para planos de corte no fornecimento de água e energia a instalações da agência, inclusive unidades de saúde e educação.
Na avaliação da ONU, a destruição do prédio integra um conjunto mais amplo de medidas destinadas a “apagar a identidade dos refugiados palestinos” e enfraquecer a atuação humanitária internacional. Para Lazzarini, o precedente é grave: ao atingir uma agência da ONU, Israel colocaria em risco o próprio sistema de proteção multilateral. “O que acontece hoje com a UNRWA pode ocorrer amanhã com qualquer missão internacional ou diplomática”, advertiu.
O episódio também repercutiu no plano diplomático. O Brasil, que atualmente preside a Comissão Consultiva da UNRWA, reiterou seu apoio político à agência. Em setembro do ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, copresidiu uma reunião internacional em defesa da UNRWA, ao lado de representantes da Jordânia e da Espanha.
Em nota oficial, o governo brasileiro destacou o papel essencial da agência na prestação de serviços básicos a cerca de seis milhões de refugiados palestinos em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria e na Jordânia. O Itamaraty também reafirmou sua defesa da renovação do mandato da UNRWA e da solução de dois Estados, com a criação de um Estado palestino independente, tendo Jerusalém Oriental como capital.
Grupo aponta abusos de Israel contra prisioneiros palestinos
Relatos de ex-detentos palestinos indicam que a violência nas prisões e centros de detenção administrados por Israel não apenas persistiu após o cessar-fogo em Gaza, como se consolidou como prática recorrente. O testemunho de Tamer Qarmut, morador de Beit Lahiya, no norte da Faixa de Gaza, integra um conjunto de denúncias reunidas pela organização israelense de direitos humanos B’Tselem, que descreve um padrão sistemático de tortura, abusos físicos e psicológicos e privações prolongadas.
Qarmut passou quase dois anos detido sob a acusação não comprovada de integrar o Hamas. Libertado em outubro de 2025, como parte da troca envolvendo reféns israelenses, ele relatou sequelas físicas e emocionais persistentes. Um mês após deixar a prisão, descreveu dores intensas decorrentes de espancamentos e um estado constante de sofrimento psicológico provocado pelas torturas vividas durante a detenção.
O palestino está entre os 21 homens libertados recentemente que aceitaram prestar depoimento à B’Tselem. Seus relatos integram o relatório Living Hell (“Inferno Vivo”), divulgado na terça-feira (20/01), no qual a organização documenta episódios de violência extrema ocorridos durante a custódia. Segundo o pesquisador Muhammad Sabah, responsável por ouvir Qarmut, houve momentos em que o ex-detento interrompeu o relato tomado pelo choro ao recordar abusos que inicialmente relutava em descrever, por vergonha.
Para a direção da B’Tselem, os testemunhos revelam um agravamento do quadro já denunciado em relatório anterior, Welcome to Hell (“Bem-vindo ao inferno”), publicado em agosto de 2024. Na avaliação de Yuli Novak, as prisões israelenses passaram a operar como uma “rede de campos de tortura”, em que abusos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o funcionamento cotidiano do sistema penitenciário.
O documento sustenta que a tortura de prisioneiros palestinos ocorre de forma institucionalizada, com respaldo político e tolerância judicial. Segundo a entidade, autoridades prisionais não apenas mantêm práticas abusivas, como por vezes as defendem publicamente. As acusações, no entanto, são rejeitadas pelo Serviço Penitenciário de Israel, que administra cerca de 30 prisões civis no país. Em nota, o órgão classificou as denúncias de violência sistemática como infundadas e afirmou que os direitos dos presos são preservados conforme a lei.
Dados oficiais do próprio serviço penitenciário, divulgados em setembro de 2025, indicam que 10.863 palestinos estavam presos por motivos de “segurança”. Entre eles, mais de três mil se encontravam em detenção administrativa, sem acusação formal ou julgamento. Outros milhares eram classificados como “combatentes ilegais” ou aguardavam a conclusão de processos judiciais, categorias que, segundo organizações de direitos humanos, reduzem significativamente as garantias legais previstas no direito internacional.
Além das prisões civis, as Forças de Defesa de Israel mantêm centros de detenção militar, com destaque para a base de Sde Teiman, no deserto do Negev. Convertida em campo de detenção em larga escala após os ataques de 7 de outubro de 2023, a instalação tornou-se um dos principais focos das denúncias de maus-tratos. Ex-detentos descrevem períodos prolongados sem acesso a advogados, agressões físicas, humilhações e abusos sexuais.
Em resposta, o Exército israelense afirma que suas tropas atuam de acordo com as leis nacionais e internacionais e que eventuais denúncias são investigadas. Contudo, um levantamento da ONG Action on Armed Violence, publicado em agosto de 2025, aponta que a grande maioria das investigações abertas sobre abusos em Gaza foi arquivada sem conclusões, com raríssimos casos resultando em condenação criminal.
Para especialistas internacionais, o padrão observado vai além de desvios individuais. Jane Kinninmont, diretora-executiva da Associação das Nações Unidas no Reino Unido, avalia que a desumanização dos palestinos funciona como instrumento de coerção política e social, frequentemente tolerado ou incentivado por instâncias superiores do governo israelense. Segundo ela, organizações de direitos humanos que tentam expor essas práticas operam sob pressão constante.
O contexto político reforça essas preocupações. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, responsável por supervisionar o sistema prisional, declarou publicamente que pretende endurecer ainda mais as condições dos detentos palestinos, reduzindo seus direitos ao mínimo legal. Paralelamente, a Knesset discute a reintrodução da pena de morte para condenados por terrorismo, proposta que organizações internacionais classificam como uma ameaça grave em um cenário já marcado por violações sistemáticas.
Entidades como a Human Rights Watch e a Organização das Nações Unidas alertam que o número de palestinos mortos sob custódia israelense desde outubro de 2023 pode chegar a cerca de 100, superando as cifras oficialmente reconhecidas. Para a HRW, os abusos documentados não são episódios isolados, mas parte de um padrão mais amplo de tortura, tratamento cruel e violência sexual, agravado pela restrição ao monitoramento independente — inclusive do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, tradicionalmente responsável por acompanhar prisioneiros em conflitos armados.
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