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Mundo

Irã, Rússia e China realizam exercício naval no Estreito de Ormuz

Pressão de Trump e rearmamento aceleram fissuras estratégicas na Europa

Publicado em 18/02/2026 1:05 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O Estreito de Ormuz voltou ao centro da geopolítica global. Irã, Rússia e China iniciam nesta semana um exercício naval conjunto na estratégica via marítima que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã — rota crucial para o escoamento de petróleo no mundo.

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A operação foi confirmada por Moscou. O assessor do Kremlin, Nikolay Patrushev, declarou ao jornal russo Argumenty i Fakty que as manobras integram um plano coordenado entre os três países para reforçar a segurança regional. Segundo o governo russo, o objetivo é “expandir e fortalecer” a cooperação marítima entre as nações participantes.

A agência estatal iraniana Irna apresentou outra ênfase: os exercícios visariam “combater o unilateralismo” e garantir a segurança do comércio na região — formulação frequentemente associada às críticas de Teerã e Pequim à política externa dos Estados Unidos.

Embora autoridades não tenham divulgado oficialmente o cronograma, uma fonte militar ouvida pela agência turca Anadolu informou que as manobras começam amanhã. A Guarda Revolucionária Islâmica já havia iniciado exercícios próprios na segunda-feira.

Desde 2019, a Marinha iraniana conduz treinamentos regulares na área. Esta é a sexta vez que os três países participam conjuntamente de uma operação do tipo — sinal de uma aproximação estratégica cada vez mais institucionalizada entre Moscou, Pequim e Teerã.

Pressão militar e negociações nucleares

Os exercícios ocorrem simultaneamente à presença de dois porta-aviões dos Estados Unidos no Oriente Médio, ampliando o cenário de demonstração de força na região.

As tensões entre Washington e Teerã se intensificaram em janeiro, impulsionadas por dois fatores centrais: o programa nuclear iraniano e a repressão a protestos internos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou a necessidade de um acordo. “Temos que chegar a um acordo, caso contrário, será muito traumático”, afirmou a jornalistas na sexta-feira.

Teerã, contudo, descartou abrir mão do enriquecimento de urânio, mesmo sob ameaça de guerra.

Representantes iranianos e americanos reuniram-se ontem em Genebra para uma segunda rodada de negociações. Segundo autoridades iranianas, as conversas avançaram nas “linhas gerais” de um possível pacto. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, classificou o encontro como “bom” em certos aspectos, mas ressaltou que os iranianos rejeitam “algumas linhas vermelhas” estabelecidas por Trump.

Em Paris, durante reunião ministerial da Agência Internacional de Energia, o secretário de Energia americano, Chris Wright, foi direto: os Estados Unidos impedirão o Irã de adquirir armas nucleares “de um jeito ou de outro”. “É totalmente inaceitável”, declarou.

Washington exige um acordo que inclua não apenas limites ao programa nuclear, mas também restrições às capacidades balísticas iranianas e o fim do apoio a grupos armados hostis a Israel.

Israel e o ceticismo estratégico

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que Trump acredita estar criando as condições para um “bom acordo”, mas demonstrou reservas quanto à efetividade da estratégia. Segundo Netanyahu, o presidente americano avalia que Teerã compreende a pressão que enfrenta — embora a liderança israelense mantenha dúvidas sobre o desfecho.

Países ocidentais e Israel acusam o Irã de buscar armamento nuclear — acusação reiteradamente negada por Teerã.

As negociações, iniciadas no ano passado, ficaram paralisadas após a guerra de 12 dias deflagrada em junho por um ataque israelense contra o território iraniano. Durante o conflito, Trump declarou que bombardeios americanos haviam “aniquilado” as capacidades nucleares do país, mas a extensão real dos danos permanece incerta.

Repressão interna e risco de bloqueio

A escalada externa ocorre em paralelo à crise doméstica iraniana. Após a repressão aos protestos em janeiro, a ONG Human Rights Activists News Agency informou ter confirmado 6.961 mortes — a maioria de manifestantes — e mais de 51 mil detenções.

Diante da possibilidade de ataque, o governo iraniano advertiu que poderia atingir bases americanas na região e bloquear o Estreito de Ormuz — medida que teria impacto direto sobre o mercado global de energia.

A conjugação de exercícios militares trilaterais, pressão diplomática e retórica beligerante compõe um quadro de tensão crescente. No centro da disputa, permanece a mesma variável estratégica: o futuro do programa nuclear iraniano e o equilíbrio de forças no Oriente Médio.

Pressão de Trump e rearmamento aceleram fissuras estratégicas na Europa

A percepção de insegurança cresce no continente europeu. Pesquisa recente do Eurobarometer indica que 68% dos cidadãos acreditam que seu país está sob ameaça — dado que sintetiza um ambiente político marcado por incertezas externas e tensões internas.

Na Alemanha, o sinal mais eloquente veio do Escritório Federal de Proteção Civil e Assistência a Desastres, que alertou, pela primeira vez desde a Guerra Fria, que um conflito armado já não pode ser considerado “improvável”. Embora assegure que o país permanece seguro, o órgão recomendou que a população mantenha estoques de alimentos suficientes para três a dez dias. A orientação é preventiva — mas politicamente simbólica.

Berlim assumiu papel central no apoio à Ucrânia após a suspensão de nova ajuda direta dos Estados Unidos. Hoje, a Alemanha é o principal doador individual europeu de assistência militar a Kiev. Internamente, porém, cresce a demanda por maior proteção doméstica, num contexto de rearmamento acelerado.

Segundo o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, Mark Rutte, até 2029 o orçamento de defesa alemão superará, somado, os de Reino Unido e França. Os €150 bilhões anunciados por Berlim foram descritos como “uma quantia impressionante” — e vistos em Washington como resposta às reiteradas cobranças por maior contribuição europeia.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou essa pressão desde que retornou à Casa Branca. Embora não seja o primeiro mandatário americano a exigir mais empenho europeu na área militar, seu tom confrontacional aprofundou fissuras históricas na relação transatlântica.

Groenlândia e a erosão da confiança

A tensão ganhou contornos dramáticos quando Trump ameaçou a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia, chegando a não descartar o uso da força para adquirir a ilha ártica. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, declarou na Conferência de Segurança de Munique que os planos americanos permanecem “inalterados”, apesar das negociações trilaterais em curso.

Embora Trump tenha recuado — ao menos temporariamente — da retórica militar e da ameaça de sanções econômicas contra aliados, o episódio deixou marcas profundas. Para muitos líderes europeus, consolidou-se a imagem de um presidente abertamente transacional, disposto a usar garantias de segurança e instrumentos econômicos como moeda de pressão.

O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, sintetizou a mudança de paradigma: “Nos acostumamos ao forte apoio dos EUA; essa zona de conforto acabou.”

O mal-estar foi amplificado quando Washington suspendeu temporariamente o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia, pressionando Kiev a negociar com Moscou. A medida alimentou a percepção de que a previsibilidade estratégica americana deixou de ser garantida.

Um discurso conciliador, mas condicional

Na conferência de Munique, o discurso do secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi recebido com expectativa e cautela. Em tom conciliador, afirmou que os EUA desejam uma Europa forte e ressaltou os laços históricos entre as duas margens do Atlântico.

O alívio na plateia foi visível, sobretudo após o episódio do ano anterior, quando o vice-presidente JD Vance adotara postura mais confrontacional.

Mas a mensagem de Rubio manteve intactos os pilares da agenda de Trump: crítica ao multilateralismo, ceticismo em relação às políticas climáticas, oposição à migração em larga escala e defesa de uma identidade civilizacional ocidental. A parceria oferecida à Europa, deixou claro, dependerá de convergência de valores — sem garantias de concessões.

A escolha de visitar Hungria e Eslováquia após o evento — dois governos frequentemente criticados em Bruxelas por posições eurocéticas e resistência à ajuda militar à Ucrânia — foi interpretada por diplomatas como gesto político calculado.

Europa dividida

O debate sobre rearmamento não é homogêneo. Segundo Rachel Ellehuus, diretora do think tank Royal United Services Institute, abre-se uma divisão clara no continente. Países nórdicos e bálticos, além de Alemanha e Holanda, ampliam investimentos militares. Já no sul da Europa, a Espanha resiste às metas de gasto defendidas por Washington.

França e Reino Unido prometem elevar seus orçamentos de defesa, mas enfrentam dilemas fiscais e eleitorais. A questão é direta: financiar rearmamento exigirá aumento de impostos, cortes sociais ou maior endividamento.

Em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu que “algumas linhas foram cruzadas” na relação com Washington. A expressão traduz um sentimento mais amplo: a confiança automática no guarda-chuva americano já não é consensual.

“Otan 3.0” e novas coalizões

A reorientação estratégica dos EUA ficou explícita quando o conselheiro do Departamento de Defesa, Elbridge Colby, afirmou que a Europa deixou de ser prioridade para Washington, cujo foco passa a ser o Indo-Pacífico. Embora tenha reafirmado o compromisso com a cláusula de defesa coletiva da Otan, indicou que a presença militar americana no continente será “mais limitada e focada”. Defendeu ainda uma “Otan 3.0”, com europeus mais autônomos.

Nesse cenário, líderes europeus recorrem a formatos mais flexíveis de cooperação. Um exemplo é a “Coalition of the Willing”, liderada por Reino Unido e França para apoiar a soberania ucraniana em eventual acordo de paz. Países como Austrália, Nova Zelândia e Turquia participaram das discussões.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, defendeu maior integração defensiva entre Reino Unido e Europa, sem romper com os EUA — uma estratégia triangular que busca preservar influência sem escolher lados de forma abrupta.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, voltou a advogar por “autonomia estratégica” europeia, ampliando o conceito para áreas como energia, cadeias de suprimentos e tecnologia.

Dependência persistente, transformação duradoura

Apesar da retórica sobre independência, a Conferência de Munique também expôs a realidade: a Europa ainda depende fortemente da infraestrutura de segurança americana — do guarda-chuva nuclear ao compartilhamento de inteligência e comando operacional.

O esforço conjunto franco-alemão para desenvolver o caça de próxima geração no programa FCAS ilustra as dificuldades de coordenação interna.

Mais do que ajustes conjunturais para lidar com Trump, a Europa parece atravessar uma reconfiguração estrutural. A busca por novas alianças — inclusive com Canadá, Japão e Coreia do Sul — indica uma tentativa de adaptação a um mundo cada vez mais moldado pela competição entre grandes potências.

Se o pós-Guerra Fria foi marcado pela estabilidade transatlântica, o momento atual inaugura uma fase de recalibração estratégica. A Europa, historicamente cautelosa e institucional, vê-se compelida a agir com rapidez inédita.

O debate já não é apenas quanto gastar em defesa. É sobre que tipo de continente a Europa deseja ser — e com quem pretende caminhar nas próximas décadas.

Alemanha e Reino Unido pedem rearmamento estrutural diante de risco russo

A pressão por uma inflexão definitiva na política de defesa europeia ganhou novo impulso com a publicação de um artigo conjunto assinado pelo chefe das Forças Armadas da Alemanha, Carsten Breuer, e pelo chefe do Estado-Maior de Defesa do Reino Unido, Sir Richard Knighton.

No texto, divulgado simultaneamente pelo The Guardian e pelo Die Welt, os comandantes afirmam que a Europa precisa abandonar o paradigma dos chamados “dividendos da paz” — período pós-Guerra Fria marcado pela redução de gastos militares — e encarar “verdades desconfortáveis” sobre sua própria segurança.

A manifestação coincidiu com o encerramento da Conferência de Segurança de Munique, onde o tema da ameaça russa voltou a ocupar posição central no debate estratégico continental.

Breuer e Knighton sustentam que a postura militar da Rússia “mudou decisivamente em direção ao Ocidente”, apontando para um processo de rearmamento e reorganização das forças russas capaz de elevar o risco de confronto com a Organização do Tratado do Atlântico Norte.

A advertência ecoa avaliações apresentadas por lideranças da União Europeia, que classificaram o que chamam de “imperialismo” russo como uma ameaça que ultrapassa as fronteiras da Ucrânia. Para os autores, eventual percepção de fraqueza ou desunião por parte da Europa poderia incentivar Moscou a ampliar sua agressividade.

O discurso dominante em Munique combinou alerta estratégico e mobilização política. Autoridades europeias ressaltaram capacidades militares conjuntas nos domínios terrestre, marítimo, aéreo, cibernético e nuclear, insistindo que o poder agregado da Otan permanece superior. Ao mesmo tempo, reforçaram a necessidade de coordenação e prontidão ampliada.

Rearmamento como projeto industrial e moral

O artigo vai além da retórica dissuasória e defende a construção de uma base industrial robusta como condição indispensável à prontidão militar. Segundo os generais, o rearmamento envolve não apenas investimentos em equipamentos, mas também infraestrutura resiliente, inovação tecnológica e capacidade produtiva contínua.

Uma iniciativa europeia prevê mobilizar €150 bilhões para fortalecer o setor de defesa. Para Breuer e Knighton, há também um componente “moral” nesse esforço — sinalizando que a questão deixou de ser apenas técnica e passou a integrar o debate político mais amplo sobre identidade e responsabilidade estratégica.

A virada alemã

A guerra iniciada pela invasão russa em larga escala contra a Ucrânia, em fevereiro de 2022, alterou profundamente a orientação da política de segurança alemã. Tradicionalmente pautada pela contenção militar, Berlim passou a operar sob lógica de expansão orçamentária.

Neste ano, o orçamento de defesa alemão ultrapassa €108 bilhões, financiado tanto pelo orçamento corrente quanto por fundos especiais lastreados em empréstimos públicos. O chanceler Friedrich Merz já afirmou que o país deverá ter as Forças Armadas mais fortes da Europa. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, alertou que a Rússia poderia estar em condições de ameaçar território da Otan até 2029.

No plano operacional, a Alemanha iniciou a encomenda de milhares de drones de combate e desenvolve produção conjunta com a Ucrânia. Na última sexta-feira, o presidente ucraniano Volodimir Zelenski recebeu o primeiro drone fabricado no âmbito dessa cooperação, parte de um programa que prevê 10 mil unidades anuais.

Reaproximação estratégica pós-Brexit

A articulação entre Berlim e Londres sinaliza também um aprofundamento da cooperação bilateral em segurança, uma década após o Reino Unido deixar a União Europeia. O texto conjunto menciona financiamento praticamente irrestrito para defesa na Alemanha e expansão da produção de munições no Reino Unido.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou em Munique que o futuro de britânicos e europeus continentais “está mais ligado do que nunca”, reiterando a disposição de convergência estratégica.

Europa em transição estratégica

O posicionamento dos chefes militares insere-se em um movimento mais amplo de recalibração da segurança europeia. O foco desloca-se do mero aumento orçamentário para a construção de uma arquitetura defensiva capaz de operar sob ameaças prolongadas e múltiplos domínios.

Mais do que resposta circunstancial ao Kremlin, o debate atual reflete uma mudança estrutural: a percepção de que a estabilidade continental não pode mais depender de premissas herdadas do pós-Guerra Fria. A Europa, pressionada por riscos externos e transformações geopolíticas, busca redefinir o equilíbrio entre capacidade militar, coesão política e autonomia estratégica.

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