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Mundo
Relatórios da Oxfam e do World Inequality Report revelam avanço dos bilionários sobre a democracias
Publicado em 12/02/2026 2:57 - Semana On
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A cada quatro segundos, o homem mais rico do mundo ganha o equivalente ao rendimento anual de uma pessoa comum. A imagem, apresentada pela Oxfam, não é mero recurso retórico: ela sintetiza um fenômeno que atravessa economias, corrói instituições e redefine a política contemporânea. A concentração extrema de riqueza deixou de ser apenas um problema distributivo para se tornar uma questão central de poder — e, como mostram dados recentes, um desafio direto à democracia.
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Relatório divulgado pela Oxfam por ocasião do Fórum Econômico de Davos aponta que, desde 2020, os super-ricos aumentaram sua riqueza conjunta em 81%. Em 2025, o mundo contabilizava cerca de 3 mil pessoas com fortunas superiores a US$ 1 bilhão. A soma total de seus patrimônios alcança US$ 18,3 trilhões — quase R$ 100 trilhões.
Somente no último ano, segundo o documento, a fortuna dos bilionários cresceu US$ 2,5 bilhões — valor equivalente a toda a riqueza detida pela metade mais pobre da humanidade, composta por 4,1 bilhões de pessoas. A Oxfam baseia seus dados em estimativas da revista Forbes, no Banco Mundial e no relatório de riqueza do UBS.
O contraste torna-se ainda mais eloquente quando comparado ao gasto global com ajuda internacional: projetado em US$ 186 bilhões no ano passado, representa menos de um décimo do crescimento das fortunas bilionárias no mesmo período.
O fenômeno não é episódico. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade (World Inequality Report – WIR) de 2026 mostra que cerca de 56 mil pessoas — 0,001% da população mundial — detêm três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade. No Reino Unido, 50 famílias concentram mais riqueza do que 50% da população.
Riqueza, política e captura institucional
A história econômica ensina que concentração de riqueza e poder político caminham juntos. No século XIX, a era dos “barões ladrões” nos Estados Unidos — como John D. Rockefeller e Andrew Carnegie — levou à criação das primeiras leis antitruste. Hoje, a discussão ressurge em escala global.
Segundo a Oxfam, o crescimento da riqueza dos bilionários se acelerou com a volta de Donald Trump ao poder. A redução de impostos para os super-ricos, o afrouxamento da pressão fiscal internacional sobre grandes corporações e o enfraquecimento de iniciativas antimonopólio favoreceram a expansão patrimonial das elites econômicas.
Franc Cortada, diretor da Oxfam, foi direto ao ponto: “Os bilionários estão usando a riqueza e o poder deles para moldar a opinião pública, influenciar o debate público e até mesmo mudar o curso político. Eles não compram apenas iates, compram até mesmo democracias.”.
A percepção pública confirma a tendência. Pesquisa da World Values Survey, realizada em 66 países, mostra que quase metade dos entrevistados acredita que os mais ricos “compram eleições” em seus países.
Essa dinâmica remete à advertência clássica de Charles-Louis de Montesquieu, em O Espírito das Leis: “Todo aquele que tem poder tende a abusar dele; vai até onde encontra limites.” A questão contemporânea parece ser justamente a fragilidade desses limites.
Desigualdade e erosão democrática
A Oxfam aponta que um quarto dos países do mundo passa por deterioração democrática, fenômeno associado à concentração de riqueza e à proteção das elites em detrimento de direitos sociais.
O problema não é apenas distributivo, mas estrutural. O WIR mostra que o 1% mais rico da população mundial é responsável por 41% das emissões de gases de efeito estufa provenientes da propriedade de capital privado — quase o dobro do total emitido pelos 90% mais pobres. Outro estudo citado indica que, por meio do consumo, esse mesmo 1% produz tanto quanto os dois terços mais pobres da humanidade.
A desigualdade, portanto, não impacta apenas renda: afeta o clima, a saúde pública e a coesão social. Décadas de pesquisa de Kate Pickett e Richard Wilkinson demonstram que sociedades mais desiguais apresentam maior criminalidade, piores indicadores de saúde, maior incidência de transtornos mentais e menor confiança social. Em The Spirit Level (2009), os autores sintetizam: “A desigualdade prejudica todos nós.”
O paradoxo democrático
Os dados de opinião pública revelam uma contradição profunda. Pesquisa do Pew Research Center em 36 países mostrou que 84% consideram a desigualdade econômica um grande problema, e 86% apontam a influência política dos ricos como uma das principais causas. Em 33 desses países, a maioria defende “grandes mudanças” ou reforma completa do sistema econômico.
No Reino Unido, levantamento da YouGov indica que 75% apoiam imposto sobre fortunas acima de 10 milhões de libras.
Ainda assim, como observam os analistas do WIR, as taxas efetivas de imposto caem drasticamente para bilionários e centimilionários. A arrecadação é apenas parte do debate. A questão central é política: a tributação também serve para limitar poder excessivo.
A recusa de governos — inclusive o britânico — em apoiar medidas globais contra evasão fiscal, apesar do apoio de 125 países, revela que o obstáculo não é técnico, mas político.
A economia moral da desigualdade
A extrema concentração de riqueza produz uma transformação cultural. O debate público desloca-se para guerras identitárias, enquanto a estrutura econômica permanece intocada. Como advertia o historiador britânico Tony Judt em Ill Fares the Land (2010): “Algo está profundamente errado com a forma como vivemos hoje.” Judt alertava para a corrosão do pacto social sob o neoliberalismo tardio.
A desigualdade extrema cria, segundo críticos, uma elite global que opera acima das regras comuns, financeiramente e simbolicamente distante da maioria. A lógica meritocrática perde credibilidade quando a principal fonte de enriquecimento decorre de heranças, imóveis e rendas financeiras.
No Brasil — país historicamente marcado por concentração fundiária desde o período colonial e por uma das maiores desigualdades do mundo — o debate não é abstrato. Segundo dados do World Inequality Database, o 1% mais rico concentra cerca de 28% da renda nacional. A herança escravocrata e a fragilidade tributária progressiva mantêm uma estrutura regressiva.
Democracia ou oligarquia?
A questão central que emerge dos relatórios é simples e desconcertante: pode haver democracia substantiva sob níveis extremos de concentração de riqueza?
Aristóteles já distinguia democracia de oligarquia pela distribuição de poder e riqueza. Quando poucos controlam recursos e instituições, a forma republicana esvazia-se de conteúdo.
As propostas apresentadas pela Oxfam retomam princípios do Estado de bem-estar social: tributação progressiva, fortalecimento de políticas públicas e barreiras entre riqueza e poder político. Não se trata apenas de arrecadar, mas de restaurar a confiança nas instituições.
O dilema contemporâneo não é técnico, mas civilizatório. Ou os sistemas políticos enfrentam a concentração extrema de riqueza, ou assistiremos à normalização de uma plutocracia disfarçada de democracia representativa.
A pergunta final não é retórica: quem representam os governos — a maioria que considera a desigualdade um problema estrutural ou a minoria que se beneficia dela?
Os dados sugerem que a resposta definirá o futuro das democracias no século XXI.
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