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Europa barra apoio logístico a ofensiva contra os iranianos e expõe fissuras na Otan
Publicado em 01/04/2026 12:00 - Semana On
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O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, contestou publicamente a versão apresentada por Donald Trump sobre um suposto pedido de cessar-fogo intermediado por Washington. Segundo o chanceler iraniano, a informação não passa de “especulação”, reforçando o distanciamento entre as narrativas oficiais em meio à escalada do conflito.
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A divergência expõe não apenas o embate diplomático, mas também ambiguidades sobre quem, de fato, detém autoridade decisória em Teerã. Embora Masoud Pezeshkian ocupe a presidência, o sistema político iraniano — de caráter teocrático — concentra poder no líder supremo, Mojtaba Khamenei, responsável pelas diretrizes estratégicas do regime. Nesse contexto, a alegação de Trump de que o “novo presidente” iraniano teria buscado uma trégua levanta dúvidas sobre sua base factual.
A agência estatal IRIB informou que Araghchi classificou a hipótese de cessar-fogo como construção midiática e reiterou a posição oficial: o conflito só cessará com a punição do que o Irã chama de agressor e o pagamento de compensações integrais. A retórica reforça uma linha dura já expressa anteriormente pelo chanceler, que descartou qualquer trégua parcial em favor de um encerramento definitivo da guerra.
Do lado norte-americano, Trump condiciona qualquer desescalada à reabertura do Estreito de Hormuz, rota vital para o comércio global de petróleo. O presidente afirmou que operações militares continuarão enquanto a passagem não for liberada, ampliando o tom de pressão. A Guarda Revolucionária do Irã respondeu afirmando manter controle total sobre o estreito e indicando que restrições permanecem direcionadas a países considerados hostis.
Embora Teerã sustente que a navegação não está completamente bloqueada — exceto para seus adversários diretos —, o impacto indireto já é sentido no mercado internacional, com a elevação dos preços do petróleo diante do risco à principal rota energética do Golfo.
Em paralelo, Araghchi confirmou a troca de mensagens com interlocutores norte-americanos, incluindo contatos diretos com o enviado Steve Witkoff. Ainda assim, fez questão de diferenciar comunicação de negociação formal, sinalizando que canais diplomáticos permanecem abertos, mas sem avanços concretos.
Trump, por sua vez, intensificou a retórica ao ameaçar atingir infraestruturas críticas iranianas — de instalações energéticas a unidades de dessalinização — caso suas condições não sejam atendidas. Em entrevista à Reuters, o presidente indicou que uma eventual retirada militar dos EUA poderia ocorrer rapidamente, embora com a possibilidade de novos ataques pontuais.
Ao mesmo tempo, o líder norte-americano ampliou o escopo de críticas ao mencionar insatisfação com a OTAN, sugerindo avaliar a saída dos Estados Unidos da aliança — declaração que, embora paralela ao conflito, adiciona incerteza ao cenário geopolítico mais amplo.
Entre ameaças, desmentidos e sinais ambíguos de comunicação indireta, o episódio evidencia um impasse em que discursos públicos e movimentações estratégicas seguem em direções opostas — um padrão recorrente em crises de alta complexidade diplomática.
Europa barra apoio logístico a ofensiva contra o Irã e expõe fissuras na Otan
Em meio à escalada militar envolvendo o Irã, três importantes países europeus — França, Itália e Espanha — adotaram medidas concretas para restringir operações ligadas aos Estados Unidos e a Israel, evidenciando divergências estratégicas dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As decisões ocorrem em um cenário de crescente atrito político entre Washington e seus parceiros europeus, intensificado pelas declarações do presidente dos EUA, Donald Trump.
Ao longo do último mês de conflito, Trump passou a criticar publicamente aliados europeus, classificando-os como “covardes” pela ausência de apoio direto às ações militares no Oriente Médio. As declarações ganharam novo tom na terça-feira (31), quando o presidente voltou a atacar países que se recusaram a colaborar com operações logísticas, direcionando críticas especialmente à França em publicação na plataforma Truth Social.
Segundo Trump, Paris teria impedido o sobrevoo de aeronaves com destino a Israel transportando suprimentos militares. Na mensagem, o presidente afirmou que a França foi “muito inútil” diante da ofensiva contra o que chamou de “Açougueiro do Irã”, acrescentando que os Estados Unidos “lembrarão” da postura francesa.
Informações obtidas pela agência Reuters com um diplomata ocidental e duas fontes próximas ao caso indicam que, de fato, a França negou autorização para que Israel utilizasse seu espaço aéreo no transporte de armamentos norte-americanos destinados ao conflito. As aeronaves envolvidas eram israelenses, o que motivou o pedido de passagem. Ainda de acordo com as fontes, a negativa ocorreu no último fim de semana e marcou a primeira vez que o governo francês adotou tal postura desde o início das hostilidades, em 28 de fevereiro. Até o momento, nem a Presidência francesa nem o Ministério das Relações Exteriores comentaram oficialmente o episódio.
A Itália também adotou uma posição restritiva. Na semana anterior, o governo italiano recusou o uso da base aérea de Sigonella, localizada na Sicília, para o pouso de aeronaves militares dos Estados Unidos. A informação foi inicialmente divulgada pelo jornal Corriere della Sera, que relatou a intenção de bombardeiros norte-americanos utilizarem a instalação antes de seguirem para o Oriente Médio.
Segundo a publicação, a autorização foi negada porque o pedido formal não foi apresentado pelos Estados Unidos, além da ausência de consulta prévia à liderança militar italiana — um requisito estabelecido pelos acordos que regulam o uso de bases americanas no país.
Já a Espanha adotou uma postura ainda mais explícita. Na segunda-feira (30), o governo anunciou o fechamento de seu espaço aéreo para aeronaves norte-americanas envolvidas em ataques contra o Irã. A decisão foi reafirmada pela ministra da Defesa, Margarita Robles, que destacou que o uso de bases e rotas aéreas espanholas está condicionado exclusivamente a operações de “defesa coletiva” no âmbito da Otan.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, figura entre os principais críticos das ações conduzidas por Estados Unidos e Israel. De acordo com o governo, as restrições impostas já estavam em vigor desde o início do conflito, no fim de fevereiro.
O conjunto dessas decisões evidencia uma crescente fragmentação entre os membros da Otan diante da guerra no Irã. Enquanto Washington intensifica sua atuação militar e pressiona por apoio, parte significativa da Europa sinaliza resistência a se envolver diretamente — seja por divergências políticas, seja por preocupações com a legalidade e os riscos de escalada do conflito.
Alemanha endurece discurso contra Trump
A ampliação do conflito no Oriente Médio passou a provocar reações mais contundentes dentro da Europa. Em linha com o distanciamento já demonstrado por outras potências do continente, o chanceler alemão, Friedrich Merz, elevou o tom contra a condução norte-americana da crise e acusou diretamente o presidente Donald Trump de ampliar os riscos globais ao intensificar a ofensiva contra o Irã.
Durante evento realizado em Frankfurt, promovido pelo jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, Merz classificou a estratégia de Washington como uma “escalada massiva com resultado incerto”, afastando a possibilidade de qualquer movimento consistente de descompressão diplomática. Segundo ele, a atual condução do conflito não representa apenas uma ameaça regional, mas um fator de instabilidade com alcance global.
A guerra, prestes a completar dois meses, já extrapolou as fronteiras iranianas e passou a envolver diferentes pontos estratégicos do Oriente Médio. Ataques atribuídos a Teerã e a grupos aliados têm como alvo bases militares dos Estados Unidos e infraestruturas energéticas, ampliando o raio de impacto da crise. Em paralelo, a resposta iraniana incluiu restrições à produção e exportação de petróleo, pressionando mercados internacionais e gerando efeitos econômicos que já são sentidos em países europeus, incluindo a própria Alemanha.
Apesar das críticas à ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel, Merz reiterou uma avaliação estrutural sobre o conflito, apontando o histórico do regime iraniano como elemento central da instabilidade regional. Ainda assim, demonstrou ceticismo em relação à estratégia adotada por Washington e Tel Aviv, especialmente no que diz respeito à possibilidade de promover uma mudança de regime em Teerã.
O chanceler questionou a coerência e a execução dessa estratégia, sugerindo ausência de um plano claro e alertando para precedentes históricos malsucedidos. Para ele, a intensificação do envolvimento militar por parte de americanos e israelenses não garante resultados concretos e pode aprofundar o impasse.
Outro ponto de tensão destacado por Merz diz respeito à relação entre Washington e seus aliados europeus. O líder alemão revelou ter confrontado Trump, em conversa telefônica recente, após críticas públicas do presidente norte-americano à postura da Europa. Segundo Merz, a cobrança por apoio não pode ocorrer por meio da imprensa, mas sim por canais diplomáticos formais — uma sinalização clara do desconforto europeu com a condução unilateral dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a Alemanha não descarta participação pontual em iniciativas de segurança internacional, desde que respaldadas por organismos multilaterais como a Organização das Nações Unidas, a Otan ou a União Europeia. Entre as possibilidades mencionadas está o apoio à proteção de rotas marítimas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, além de eventuais operações de desminagem — embora o próprio Merz tenha ressaltado que esse cenário ainda é hipotético.
A posição alemã reforça um padrão que vem se consolidando no continente: a disposição para colaborar em ações de segurança coletiva, desde que amparadas por legitimidade internacional, ao mesmo tempo em que se evita alinhamento automático a iniciativas militares conduzidas unilateralmente por Washington.
Reino Unido articula frente internacional para conter crise
Em meio ao agravamento dos impactos logísticos da guerra, o governo britânico iniciou uma ofensiva diplomática para reorganizar a segurança marítima em uma das rotas mais sensíveis do comércio global. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, anunciou a convocação de uma reunião com mais de 30 países com o objetivo de coordenar ações no Estreito de Hormuz, cuja estabilidade foi diretamente afetada pelo conflito.
Segundo Starmer, ao menos 35 nações já aderiram a uma declaração conjunta que prevê cooperação para garantir a circulação segura de navios na região do Golfo. O encontro, que será conduzido pela ministra do Interior, Yvette Cooper, marca a primeira tentativa formal de estruturar uma resposta coletiva diante das interrupções provocadas pela guerra.
A iniciativa britânica ocorre em um contexto de crescente pressão política por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a criticar a postura de aliados ocidentais diante do conflito. Em entrevista ao jornal Daily Telegraph, Trump reiterou seu descontentamento com a relutância de membros da Otan em se envolver diretamente nas operações militares contra o Irã.
Em resposta indireta às críticas, Starmer buscou reforçar o papel estratégico da Organização do Tratado do Atlântico Norte, classificando-a como a aliança militar “mais eficaz” da história contemporânea. O premiê britânico destacou o compromisso contínuo do Reino Unido com a organização, sinalizando uma tentativa de preservar a coesão do bloco em meio às divergências já evidenciadas por outros países europeus.
O anúncio também coincide com uma possível inflexão na estratégia americana. Poucas horas antes da fala de Starmer, Trump indicou que os Estados Unidos podem encerrar sua participação direta no conflito “em duas ou três semanas”, declaração que introduz um novo elemento de incerteza sobre os próximos desdobramentos da crise.
Nesse cenário, a movimentação britânica sugere uma tentativa de preencher eventuais lacunas de coordenação internacional, especialmente em áreas críticas como a segurança das rotas energéticas. Ao priorizar uma articulação multilateral focada em infraestrutura e comércio, Londres busca equilibrar o distanciamento de operações militares diretas com a necessidade de conter os efeitos sistêmicos da guerra.
China e Paquistão apresentam plano para acabar com a guerra
Os governos da China e do Paquistão formalizaram nesta quarta-feira (1º) uma proposta conjunta de cinco pontos com o objetivo de interromper a escalada militar no Oriente Médio envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. A iniciativa foi apresentada em Pequim após reunião entre os ministros das Relações Exteriores dos dois países.
O plano articula medidas emergenciais e estruturais. O primeiro eixo prevê a cessação imediata das hostilidades, acompanhada da liberação irrestrita de ajuda humanitária às áreas afetadas. Em paralelo, China e Paquistão defendem a abertura urgente de negociações de paz, sustentadas pelo respeito à soberania e à segurança dos Estados envolvidos, com ênfase na resolução de impasses por meio do diálogo, sem recurso a ameaças ou à força.
Outro ponto central é a proteção de civis e de infraestruturas não militares. A proposta pede o fim de ataques contra populações e instalações civis, além da preservação de estruturas críticas, como redes de energia e instalações industriais estratégicas, em conformidade com o direito internacional.
A segurança das rotas marítimas aparece como prioridade geopolítica imediata. O documento destaca a necessidade de garantir a livre navegação no Estreito de Hormuz, com proteção a embarcações e tripulações e manutenção do fluxo comercial global. Por fim, os dois países reforçam que qualquer solução duradoura deve estar ancorada nas normas da Organização das Nações Unidas e no direito internacional.
A iniciativa ocorre em meio ao protagonismo crescente do Paquistão como mediador regional. No último domingo, Islamabad sediou encontros com representantes da Turquia, Egito e Arábia Saudita, com foco inicial na reabertura do Estreito de Hormuz, atualmente bloqueado.
A interdição da passagem foi imposta pelo Irã no início do mês, após uma ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel. A operação resultou na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, episódio que intensificou o conflito e levou Teerã a assumir controle direto sobre a circulação de embarcações na região.
No campo diplomático, o governo iraniano sinalizou apoio às tentativas de mediação. O presidente Masoud Pezeshkian elogiou, no último sábado, a atuação paquistanesa durante conversa telefônica com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif. Segundo comunicado oficial, Pezeshkian agradeceu os esforços de Islamabad para “deter a agressão contra a República Islâmica”.
A proposta sino-paquistanesa surge, portanto, como tentativa de conter uma crise que combina confrontos diretos, riscos à segurança energética global e rearranjos diplomáticos em curso — com o Estreito de Hormuz, mais uma vez, no centro das tensões internacionais.
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