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Mundo

Inflação, queda do consumo, desemprego e escândalos corroem legitimidade do governo Milei

O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

Publicado em 24/04/2026 1:33 - Semana On

Divulgação Foto: Natacha Pisarenko/AP

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A imagem que melhor descreve o momento atual do governo de Javier Milei remete a uma metáfora literária: a dissociação entre discurso e realidade. Como sugeria Jorge Luis Borges, os espelhos inquietam por insinuarem uma autonomia do reflexo. Algo semelhante ocorre na Argentina: a retórica presidencial segue intacta — combativa, provocadora, autoconfiante —, enquanto os indicadores sociais e econômicos caminham em direção oposta. Esse descompasso não implica perda imediata de poder formal, mas sinaliza um desgaste mais profundo: a dificuldade crescente de interpretar e dar sentido ao que ocorre no país.

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Durante meses, a sustentação política do governo se apoiou em uma lógica de sacrifício com promessa de recompensa futura. A chamada “pedagogia do ajuste” exigia da população a aceitação de perda de renda, cortes de gastos públicos e paralisação de investimentos, sob a expectativa de estabilização econômica. Esse pacto informal dependia de um elemento central: a desaceleração consistente da inflação como evidência concreta de que o esforço valeria a pena.

Os dados mais recentes, no entanto, tensionam essa narrativa. Em março, o Índice de Preços ao Consumidor registrou alta de 3,4%, acumulando 9,4% no trimestre e 32,6% em 12 meses. O aumento foi puxado, sobretudo, pelos preços regulados, como transporte, tarifas e educação. Ainda que distante de picos históricos argentinos, o indicador atinge o núcleo da legitimidade governamental, construída justamente sobre a promessa de desinflação. O próprio Milei reconheceu dificuldades econômicas e passou a pedir “paciência”, evidenciando uma inflexão no discurso antes marcado pela autossuficiência.

Ao mesmo tempo, a inflação deixa de ser o único eixo de preocupação social. Pesquisas recentes indicam que baixos salários e desemprego passaram a ocupar o topo das inquietações da população. Essa mudança altera o debate público: já não se trata apenas de controlar preços, mas de avaliar o impacto global do modelo econômico sobre renda, trabalho e condições de vida.

Os dados da economia real reforçam esse cenário. A produção industrial caiu 8,7% em fevereiro na comparação anual, com retração em 14 dos 16 setores analisados. No acumulado do primeiro bimestre, a contração chegou a 6%. O desemprego atingiu 7,5% no último trimestre de 2025, enquanto o consumo segue em queda: as vendas no varejo recuaram 0,6% em março, completando onze meses consecutivos de retração. O resultado é um quadro típico de ajuste recessivo: estabilização parcial de indicadores macroeconômicos à custa de um mercado interno enfraquecido e atividade produtiva em retração.

A deterioração das condições de vida aparece de forma mais direta nas pesquisas de opinião. Levantamento da consultoria Tendencias aponta que 41,3% dos argentinos não conseguem chegar ao fim do mês, enquanto apenas 15,3% conseguem poupar. Entre as principais preocupações, destacam-se renda insuficiente, pobreza e corrupção, compondo um retrato de insegurança econômica generalizada.

Esse impacto material se traduz também em crises concretas nos serviços públicos. Na Região Metropolitana de Buenos Aires, o sistema de transporte enfrenta dificuldades operacionais, com dívidas elevadas e necessidade de aportes emergenciais para manter o funcionamento. Já o PAMI, responsável pela assistência médica a aposentados, acumula dívidas expressivas, paralisações de profissionais e necessidade de transferências extraordinárias para evitar colapso no atendimento.

Paralelamente, o governo enfrenta desgaste simbólico. Eleito com a promessa de combater privilégios e “dinamitar a casta política”, Milei vê sua legitimidade ser afetada por escândalos envolvendo figuras próximas. O caso de Manuel Adorni, investigado por suposto enriquecimento ilícito, e as controvérsias em torno de créditos do Banco Nación a aliados fragilizam o discurso moralizador que sustentou sua ascensão. A estratégia de blindagem política, nesse contexto, não elimina o problema — tende, antes, a confiná-lo e ampliá-lo internamente.

A crise também atinge o campo comunicacional, tradicionalmente uma das fortalezas do mileísmo. Relatórios indicam aumento da percepção negativa nas redes sociais e perda de capacidade de impor narrativas. O governo ainda domina o volume do debate digital, mas já não consegue enquadrá-lo em seus próprios termos. Sua base online, antes mobilizada e combativa, dá sinais de fadiga, reduzindo a eficácia da estratégia de confronto permanente.

Os efeitos desse desgaste aparecem nas pesquisas de opinião. Levantamento da AtlasIntel indica aprovação de 36,4% e desaprovação de 61,6% — o pior índice desde o início do mandato. Mais do que o número em si, o dado sinaliza uma mudança qualitativa: a erosão da autoridade política que mantinha aliados coesos e opositores cautelosos. A perda de iniciativa e de capacidade de transformar crises em demonstrações de força marca uma inflexão no estilo de liderança que caracterizou o início do governo.

No campo opositor, o cenário também se reorganiza. Pesquisas apontam maior competitividade entre forças políticas e crescimento de figuras alternativas, como Myriam Bregman. Esse movimento não representa, por si só, uma consolidação de alternativa de poder, mas indica abertura de espaço para novas leituras do mal-estar social, especialmente diante da fragilidade das oposições tradicionais.

A estratégia política que sustentou Milei — baseada na polarização entre presente e passado — perde eficácia à medida que as condições atuais se deterioram e que não emerge uma alternativa clara e consistente. Nesse contexto, a crise do governo não se traduz automaticamente em solução política.

O acúmulo de dificuldades econômicas, sociais e simbólicas produz um efeito recorrente em administrações sob pressão: o isolamento. Governos que perdem capacidade de persuasão tendem a se fechar em círculos restritos, reforçando discursos internos e reduzindo a escuta externa. Essa dinâmica, descrita como “câmara de eco”, distorce a percepção da realidade e limita a capacidade de resposta política.

Ainda assim, o desgaste do governo não garante sua substituição. A história política mostra que crises de legitimidade podem coexistir com permanência no poder, sobretudo na ausência de alternativas organizadas e programaticamente sólidas. A erosão de Milei, portanto, não elimina o desafio central da oposição: construir uma proposta capaz de canalizar o descontentamento social em projeto político consistente.

Nesse cenário, a Argentina vive um momento de inflexão. Se, por um lado, o governo enfrenta limites crescentes para sustentar sua narrativa, por outro, a reorganização social e política ainda se encontra em estágio inicial. Entre o desgaste do poder e a incerteza sobre o futuro, abre-se um espaço indefinido — onde a crise deixa de ser apenas um sinal de declínio e passa a ser também um terreno de disputa.

O que o consumo de carne de burro na Argentina revela sobre situação do país

Se, até recentemente, a carne bovina funcionava como um marcador quase incontestável da identidade argentina, os sinais atuais apontam para uma inflexão mais profunda do que uma simples oscilação de preços. O surgimento — ainda pontual — do consumo de carne de burro não deve ser interpretado como curiosidade gastronômica isolada, mas como indício de um rearranjo forçado nos hábitos alimentares, impulsionado pela deterioração do poder de compra.

A novidade ganhou visibilidade na cidade de Trelew, na Patagônia, onde um projeto piloto introduziu a carne de burro em circuitos comerciais formais, incluindo açougues e restaurantes. A iniciativa, liderada pelo produtor rural Julio Cittadini, levou cerca de dois anos para obter autorização sanitária e, uma vez implementada, atraiu rapidamente a atenção do público local. No restaurante Don Pedro, a carne foi incorporada em diferentes preparações — de empanadas a embutidos — e, segundo a proprietária Carla Gutiérrez, teve aceitação imediata, com esgotamento do produto em pouco tempo.

A experiência, embora localizada, revela uma lógica econômica mais ampla. O diferencial de preços é expressivo: enquanto o quilo da carne de burro gira em torno de 7.500 pesos, cortes bovinos podem alcançar até 19 mil pesos. Em um contexto de compressão da renda, essa diferença se torna determinante para parte dos consumidores, sobretudo em regiões onde a recessão afeta diretamente o setor de serviços e alimentação.

Especialistas do setor relativizam o alcance imediato da tendência. O analista Victor Tonelli observa que o consumo dessa proteína permanece residual e sem impacto relevante na estrutura produtiva. Ainda assim, o fenômeno chama atenção por seu valor simbólico: ele evidencia a disposição crescente da população em revisar padrões alimentares historicamente consolidados.

Esse movimento ocorre sob forte pressão inflacionária sobre os alimentos. Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) indicam que carnes e derivados figuram entre os principais vetores de alta de preços, com aumentos particularmente intensos na Grande Buenos Aires. Em algumas regiões, a variação anual ultrapassa 60%, o que tem efeito direto sobre a composição da dieta doméstica.

O reflexo mais evidente dessa dinâmica é a retração no consumo de carne bovina. No primeiro trimestre do ano, a queda foi de aproximadamente 10% em relação ao mesmo período anterior, levando o indicador ao nível mais baixo em duas décadas. Trata-se de um dado relevante não apenas do ponto de vista econômico, mas também cultural, considerando o papel histórico da carne bovina na formação do imaginário nacional argentino.

A mudança se insere em uma tendência mais ampla de diversificação alimentar. Atualmente, o consumo total de carnes no país se mantém elevado — pouco acima de 115 quilos por pessoa ao ano —, mas com distribuição distinta da observada em décadas anteriores. O frango lidera, seguido pela carne bovina e pela suína, evidenciando uma transição gradual que já vinha ocorrendo, mas que se acelera em momentos de crise.

O contraste histórico é eloquente. Há cerca de seis décadas, o consumo per capita de carne bovina ultrapassava 80 quilos anuais, enquanto outras proteínas tinham presença marginal na dieta. Esse padrão consolidou a imagem da Argentina como um país essencialmente “carnívoro”, com forte dependência de um único tipo de proteína animal.

A introdução de alternativas menos convencionais, ainda que incipiente, sugere que essa identidade começa a ser tensionada pelas condições materiais. Mais do que uma substituição definitiva, o que se observa é uma adaptação pragmática, guiada por restrições econômicas e pela necessidade de manter o consumo dentro de limites possíveis.

Nesse contexto, o episódio da carne de burro funciona menos como ruptura e mais como sintoma. Ele não redefine, por ora, o sistema alimentar argentino, mas ilumina as pressões que incidem sobre ele — e antecipa, ainda que de forma localizada, possíveis desdobramentos de um processo em curso: a reconfiguração silenciosa de hábitos que, durante décadas, pareceram imutáveis.

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