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Mundo
Guerra no Irã acelera duelo EUA-China pelo futuro da energia
Publicado em 23/04/2026 1:04 - Semana On e DW
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A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel desencadeou uma crise energética de proporções históricas, com impactos que se estendem do mercado global de petróleo à aviação civil. A avaliação é do diretor da Agência Internacional de Energia (IEA), Fatih Birol, que classificou o cenário atual como “a maior crise da história”, ao considerar a combinação de choques simultâneos nos mercados de petróleo e gás.
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O agravamento da situação decorre, em grande medida, do bloqueio do Estreito de Ormuz — corredor estratégico por onde transita cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente. A interrupção desse fluxo soma-se às consequências ainda persistentes da guerra entre Rússia e Ucrânia, que já havia reduzido significativamente o fornecimento de gás russo à Europa. Segundo Birol, o cenário atual supera, em intensidade, crises anteriores como as de 1973, 1979 e 2022 combinadas.
Diante da disparada nos preços, a IEA aprovou, em março, a liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo de reservas estratégicas, numa tentativa de conter a volatilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio. Ainda assim, os efeitos da crise já se propagam por setores sensíveis, especialmente o transporte aéreo.
Aviação sob pressão: cortes, alta de preços e risco de desabastecimento
O setor aéreo global emerge como um dos mais afetados pela instabilidade energética. A escassez de combustível e o aumento abrupto de custos vêm forçando companhias a rever operações. A alemã Lufthansa anunciou o cancelamento de 20 mil voos entre maio e outubro, com o objetivo de reduzir o consumo em cerca de 40 mil toneladas de querosene — cujo preço, segundo a empresa, dobrou desde o início do conflito.
Movimentos semelhantes têm sido registrados em outras regiões. A KLM cancelou 160 voos programados para o mês seguinte, enquanto empresas na Europa e na Ásia-Pacífico reajustam tarifas e avaliam novos cortes, justamente às vésperas da alta temporada de verão no Hemisfério Norte.
A gravidade da situação levou a IEA a alertar para o risco iminente à segurança energética. Em uma de suas declarações mais contundentes, Birol afirmou que o mundo enfrenta a maior ameaça já registrada nesse campo. No contexto europeu, estimativas iniciais indicam que as reservas de combustível de aviação poderiam durar apenas seis semanas — embora haja divergências. O governo dos Países Baixos, por exemplo, calcula uma autonomia de até cinco meses, evidenciando incertezas quanto à real extensão do problema.
Europa busca respostas coordenadas
Diante do cenário, autoridades europeias intensificaram discussões para mitigar os impactos. O comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, reconheceu a transição de uma crise de preços para um problema de abastecimento, enquanto ministros dos Transportes da União Europeia avaliam medidas emergenciais.
Entre as propostas em análise estão o compartilhamento de estoques de combustível entre países-membros e a ampliação das importações provenientes dos Estados Unidos. A Comissão Europeia também prepara um pacote que inclui mecanismos de gestão coletiva das reservas e flexibilizações regulatórias para o setor aéreo.
A dependência europeia do querosene oriundo do Oriente Médio — grande parte transportada via Estreito de Ormuz — torna o continente particularmente vulnerável. Atualmente, entre 30% e 40% do combustível de aviação consumido na UE é importado, sendo que cerca de metade desse volume passa pela região afetada pelo conflito.
Limitações estruturais e falta de alternativas
A crise expõe fragilidades já conhecidas da indústria aérea. Relatório da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) havia alertado, ainda em 2023, para a crescente dependência europeia de importações e a redução da resiliência no fornecimento.
Embora o uso de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) seja apontado como alternativa, sua adoção enfrenta entraves significativos. A oferta limitada e os custos elevados dificultam a substituição em larga escala do querosene convencional. Regulamentações como o ReFuelEU preveem aumento gradual do uso de SAF — de 2% a partir de 2026 até 70% em 2050 —, mas especialistas consideram inviável uma transição rápida no atual contexto.
Tendência de alta e impacto no consumidor
Mesmo em um cenário sem colapso total do abastecimento, a tendência é de manutenção de preços elevados, com impacto direto nas tarifas aéreas. Estratégias de proteção contra volatilidade, como o hedge de combustível, vêm sendo parcialmente abandonadas por algumas companhias, ampliando a exposição ao mercado.
Na Ásia, onde os preços já superam os níveis europeus, empresas como Cathay Pacific, Air New Zealand e Air Asia X reduziram rotas para conter custos. O movimento indica que o ajuste da oferta — com mais cancelamentos — pode se consolidar como resposta predominante no curto prazo.
Fragilidade exposta
Para especialistas, a crise atual reforça a dependência estrutural da aviação em relação à estabilidade geopolítica. Yi Gao, professor da Universidade Purdue, destaca que o setor opera com base em premissas frágeis, como acesso irrestrito ao espaço aéreo e combustível a preços relativamente estáveis.
Nesse contexto, a crise não apenas pressiona custos e operações, mas também ameaça a confiança do consumidor — um dos pilares da indústria. O episódio evidencia, mais uma vez, que choques geopolíticos continuam sendo capazes de desestabilizar cadeias globais com rapidez e profundidade.
Guerra acelera duelo EUA-China pelo futuro da energia
Nos bastidores da atual guerra no Golfo Pérsico as duas maiores economias do mundo, China e EUA, agora disputam o desenho e o domínio da arquitetura energética global do futuro.
Seja qual for o desfecho do conflito, a normalização dos mercados globais de energia pode demorar anos. Nesta semana, a Agência Internacional de Energia (AIE) classificou a crise provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz como a mais grave já registrada. Para analistas ouvidos pela DW, o choque nos preços dos combustíveis reacende o risco da dependência dos combustíveis fósseis e pode dar novo impulso à transição para fontes renováveis.
De um lado, os EUA sob Donald Trump, aceleram a produção de petróleo e gás e buscam manter viva a era dos combustíveis fósseis. De outro, a China investe na transição para a energia elétrica e avançam sobre o mercado de painéis solares, sistemas de armazenamento de energia e carros elétricos “made in China”.
“Nos Estados Unidos, é clara a agenda de dominância energética, fortemente baseada nos mercados de energia fóssil, que busca usar a riqueza do país em petróleo e gás como instrumento de política externa. Isso chega ao ponto de tentar controlar outros países ricos em recursos, como a Venezuela — suas reservas, produção e exportações”, afirma o especialista em energia Andreas Goldthau, à DW.
“Do outro lado, temos a China, que aposta fortemente na descarbonização, no setor de tecnologias limpas (energias renováveis e energia nuclear, nota da redação) e na redução das importações de petróleo e gás. Isso não é apenas uma questão de política climática, mas de segurança econômica”, diz Goldthau, diretor da Willy Brandt School of Public Policy da Universidade de Erfurt.
China avança sobre mercado global de renováveis
Segundo Goldthau, os chineses perceberam com clareza a dependência externa de seu modelo econômico e reagiram de acordo. “A China é a maior investidora em energias renováveis e tecnologias limpas. Hoje, lidera as tecnologias necessárias para a transição energética”, afirma.
Na outra ponta, o país lidera há anos a lista de maiores emissores globais de CO2. Ainda assim, seja em redes elétricas inteligentes, energia solar ou eólica, pouco funciona sem produtos e componentes chineses, incluindo terras raras. “Eles avançaram muito, inclusive em eletrolisadores [para a produção de hidrogênio verde] e sistemas de armazenamento por baterias. A lista é longa. Fazem isso para criar resiliência, mas também para alcançar maior autossuficiência e soberania”, diz Goldthau.
Hoje, segundo análises da AIE e da consultoria McKinsey, entre 60% e 70% de todos os carros elétricos do mundo são fabricados na China. Com a desaceleração do crescimento econômico, surgiram grandes excedentes de capacidade, cada vez mais direcionados às exportações, sobretudo para a Europa.
Sucesso do programa “Made in China 2025”
Também nas principais tecnologias verdes, Pequim concentra poder. A China controla cerca de 80% da cadeia global de suprimentos da energia fotovoltaica. Em alguns segmentos fundamentais para a fabricação de chips, como a produção de wafers de silício, essa fatia ultrapassa 95%. De acordo com o Global EV Outlook, da AIE, somente no primeiro semestre de 2025 o país instalou mais infraestrutura para energia solar do que o resto do mundo somado.
A participação chinesa na produção global de turbinas eólicas também cresceu de forma acelerada. Segundo dados da World Wind Energy Association (WWEA) e da Bloomberg New Energy Finance (BloombergNEF), cerca de 72% do mercado mundial de novas turbinas eólicas em 2025 esteve nas mãos da China. Oito dos dez maiores fabricantes do mundo já são chineses, como Goldwind e Envision.
Entre 2020 e 2025, as exportações chinesas de tecnologias verdes mais do que quadruplicaram. Em 2025, o setor de energia limpa respondeu por mais de um terço do crescimento total do PIB do país, segundo cálculos do think tank energético Ember.
Política de “dominância energética”
No sentido oposto, os EUA sob Donald Trump freiam o avanço das energias renováveis e aceleram a expansão das fontes fósseis. “Drill, baby, drill” (“Perfure, bebê, perfure”), repetia Trump a seus apoiadores ainda na campanha eleitoral. Perfurar sem parar também é o lema do secretário de Energia, Chris Wright, fundador e ex-CEO da Liberty Energy, uma das maiores empresas de fracking da América do Norte.
“Não é segredo que os EUA sob Trump seguem uma política de ‘dominância energética’. Ela é conduzida de forma explícita”, diz Henning Gloystein, especialista em energia do escritório londrino da consultoria Eurasia Group. “A dominância deve ser alcançada com o aumento da produção doméstica de petróleo e gás e a ampliação das exportações. Para isso, os EUA buscam controle sobre ativos estrangeiros, como na Venezuela e, possivelmente, no Irã.”
Fracking transforma os EUA em exportadores
Em cerca de duas décadas, os Estados Unidos deixaram de ser o maior importador mundial de petróleo e gás para liderar como maior exportador global de gás e um dos principais exportadores de petróleo. Isso foi possível graças à chamada “revolução do xisto”, que combina o fracking hidráulico com a perfuração horizontal.
Juntas, as técnicas permitem perfurar trechos maiores da rocha, liberando grandes volumes de óleo e gás antes inacessíveis. O processo elevou drasticamente a produção de petróleo no país. “Hoje, os Estados Unidos produzem mais petróleo do que a Arábia Saudita e a Rússia juntas e mais gás natural do que Rússia, Irã e China somados — assegurando seu papel como líder energético global incontestável”, afirma a Casa Branca em seu site.
Tarifas mais baixas em troca de energia fóssil dos EUA
Para Trump, o petróleo é antes de tudo um instrumento de poder geopolítico, defende Gloystein, do Eurasia Group. Isso se reflete na forma como os EUA negociam com seus parceiros comerciais. “No ano passado, os americanos disseram: em troca de tarifas mais baixas, a Europa precisa comprar mais petróleo e gás dos Estados Unidos”, lembra ele. O mesmo ocorreu com outros parceiros, como Japão e Índia.
Já neste ano, o presidente americano também sugeriu aos países afetados pelo bloqueio em Ormuz também comprarem petróleo dos EUA. Para isso, Washington aposta em contratos de fornecimento de longo prazo. “Quando uma empresa alemã procura gás liquefeito nos EUA, o fornecedor diz: a partir de 2028 podemos entregar de dois a três milhões de toneladas por ano, em um contrato de 20 anos. Assim, o gás fica incorporado aos sistemas alemães por décadas. Os americanos atuam de forma muito ativa”, explica Gloystein.
Petróleo e gás versus transição verde
“Os Estados Unidos são a maior fonte de crescimento da produção mundial de petróleo”, afirma Fatih Birol, diretor da IEA, em Paris. Porém, “segurança energética no século 21 não significa apenas disponibilidade de petróleo e gás, mas também a diversificação das cadeias de suprimento de tecnologias limpas”, pontuou.
Nesse aspecto, a China está à frente. A revolução do fracking deu aos EUA independência energética e maior peso geopolítico. Objetivo semelhante é perseguido por Pequim com a liderança global em tecnologias verdes. O caminho ainda é longo — o carvão responde por cerca de 60% do consumo total de energia do país.
Gloystein e Goldthau concordam que a tendência global aponta para as energias renováveis. Resta saber quem sairá vencedor: a dominância energética fóssil dos EUA ou o “Estado eletrificado” impulsionado por Pequim.
“Se eu tivesse que apostar agora”, diz Goldthau, “apostaria no ‘Estado eletrificado’, que não apenas busca controlar o abastecimento com fontes domésticas e, em grande parte, renováveis, mas também desenvolve as tecnologias de que os outros países precisam”.
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