Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
A erosão da base eleitoral do presidente às vésperas do meio de mandato
Publicado em 03/02/2026 10:19 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O barulho seco de tiros disparados por agentes federais em uma rua de Minneapolis não ecoou apenas entre prédios e manifestantes. Ele atravessou igrejas evangélicas, lares latinos e o próprio coração de uma coalizão política que ajudou a reconduzir Donald Trump à Casa Branca em 2024. O que antes era apresentado como uma promessa de “lei e ordem” converteu-se, para parcela crescente de seus apoiadores latinos, em evidência de um Estado punitivo que ultrapassou limites morais, jurídicos e democráticos.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK E WHATSAPP
A eleição de 2024 marcou uma inflexão histórica. Segundo o Pew Research Center, Trump obteve 48% do voto latino, um salto expressivo frente aos 36% de 2020. O dado foi interpretado como sinal de realinhamento duradouro: conservadorismo religioso, insatisfação econômica, rejeição à chamada “agenda identitária” e desconfiança em relação aos democratas — personificados, para muitos, em Kamala Harris — criaram terreno fértil para a retórica republicana.
Pastores como Edgar Hernandez, norte-americano de origem mexicana, encarnaram esse movimento. Evangélico, crítico do aborto e de iniciativas culturais associadas à esquerda, Hernandez também carregava frustrações acumuladas com governos democratas. Ele responsabiliza Joe Biden pela inflação e Barack Obama pelo volume recorde de deportações — um fato documentado por estudos acadêmicos e relatórios oficiais do próprio governo Obama. A promessa de Trump de expulsar apenas “criminosos” parecia, portanto, razoável.
Minneapolis: quando a promessa encontra a realidade
Um ano depois, Minneapolis tornou-se símbolo da ruptura entre discurso e prática. Operações ostensivas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) — com agentes mascarados, equipamentos táticos e abordagens em plena rua — resultaram em duas mortes em janeiro e na detenção de uma criança de cinco anos, o equatoriano Liam Conejo Ramos. As vítimas fatais, Renee Good, mãe de família, e Alex Pretti, enfermeiro, ambos cidadãos norte-americanos, foram mortos durante confrontos ligados às ações migratórias.
Vídeos gravados por testemunhas contradizem a versão oficial de que Pretti teria agredido agentes antes de ser baleado, ampliando a sensação de abuso de poder. “Não são imagens que se apagam facilmente”, observa David Schultz, ao analisar o impacto político do episódio.
O efeito imediato foi social e humano. A igreja de Hernandez praticamente esvaziou: apenas um quarto dos fiéis comparece aos cultos dominicais. Trabalhadores indocumentados — muitos sem antecedentes criminais, alguns requerentes de asilo — passaram a se esconder em casa. “Todos concordam que criminosos devem ser presos e expulsos. O problema é atingir quem não cometeu nada”, resume o pastor, ecoando uma distinção central na percepção latina.
Conservadorismo, fé e o limite da repressão
A tensão revelada em Minneapolis não é apenas eleitoral; é moral. Pastores como Sergio Amezcua, também apoiador de Trump em 2024, denunciam “abordagens baseadas na aparência”, cruzando a linha entre repressão ao crime e perseguição étnica. Feliza, cristã fervorosa e neta de mexicano, foi três vezes às urnas movida por convicções antiaborto. Hoje, diz desejar “nunca ter votado” no republicano após testemunhar os métodos do ICE.
Essa fratura expõe uma contradição clássica analisada pela sociologia política: quando valores conservadores — ordem, autoridade, família — colidem com políticas estatais que produzem sofrimento coletivo, a legitimidade se erode. Hannah Arendt já alertava, ao estudar a banalidade do mal, que a normalização da violência burocrática corrói o tecido moral das sociedades democráticas.
O desgaste medido em números
Os dados confirmam a mudança de humor. Pesquisa Reuters/Ipsos, realizada com 1.139 adultos e margem de erro de 3 pontos percentuais, indica que a aprovação da política migratória de Trump caiu para 39%, o nível mais baixo desde seu retorno ao poder. Em fevereiro, logo após a posse, 50% aprovavam e 41% desaprovavam; hoje, 53% desaprovam.
Mais contundente: 58% dos entrevistados afirmam que o ICE “foi longe demais”. Entre democratas, esse índice chega a nove em cada dez; entre independentes, seis em cada dez; até dois em cada dez republicanos concordam. A imigração, antes um trunfo de Trump, converteu-se em fator de desgaste generalizado.
A avaliação geral do presidente também recuou para 38%, empatando com a mínima do mandato. Embora Trump ainda supere seu antecessor democrata no tema migratório e o Partido Republicano mantenha vantagem relativa de confiança (37% contra 32% dos democratas), o sinal político é inequívoco.
Rachas no Partido Republicano e o fator Stephen Miller
O incômodo atravessa o próprio partido. Ileana Garcia, cofundadora do movimento Latinas for Trump, foi direta ao New York Times: “O presidente vai perder as eleições de meio de mandato por causa de Stephen Miller”, referindo-se ao arquiteto das metas diárias de prisões impostas ao ICE.
Em Minnesota, o impacto já se materializa. O pré-candidato republicano ao governo estadual Chris Madel retirou sua candidatura, admitindo que a repressão tornou a disputa “impossível de ser vencida” por um republicano. Pressionado, Trump suavizou o tom, dizendo estar “em um comprimento de onda semelhante” ao do governador democrata Tim Walz, com quem afirmou ter tido “uma conversa muito boa”.
Democracia, direitos humanos e o custo político da força
A história política dos Estados Unidos mostra que ondas repressivas — do Palmer Raids pós-Primeira Guerra ao endurecimento pós-11 de Setembro — costumam gerar apoio inicial seguido de reação quando excessos se tornam visíveis. Minneapolis sintetiza esse ciclo. Ao atingir trabalhadores, fiéis, famílias e até crianças, a política migratória deixa de ser abstração e passa a ter rosto, nome e biografia.
O arrependimento de eleitores latinos não decorre de uma guinada ideológica súbita, mas do choque entre promessa e realidade. A “onda latina” que ajudou Trump a vencer revelou-se menos um bloco monolítico e mais um mosaico sensível a limites éticos. Às vésperas das eleições de meio de mandato, a cidade do Meio-Oeste transforma-se em alerta nacional: a força do Estado, quando descolada de proporcionalidade e humanidade, cobra seu preço — nas ruas, nas urnas e na própria ideia de democracia que afirma proteger.
Deixe um comentário