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Mundo
Ameaça de anexação da ilha eleva tensão diplomática e mobiliza governos europeus
Publicado em 20/01/2026 3:05 - Semana On
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O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou nesta terça-feira que a população da ilha deve estar preparada para cenários extremos, incluindo uma eventual intervenção militar dos Estados Unidos. Embora tenha classificado um conflito armado como improvável, o chefe de governo ressaltou que a hipótese não pode ser completamente descartada diante da escalada retórica de Washington. A declaração foi feita em coletiva de imprensa em Nuuk e divulgada pela agência Bloomberg.
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O alerta ocorre após o presidente norte-americano, Donald Trump, voltar a mencionar publicamente a possibilidade de empregar força militar para assumir o controle do território autônomo, que integra o Reino da Dinamarca. Questionado recentemente pela rede NBC sobre o uso da força, Trump limitou-se a responder: “Sem comentários”.
Fontes do Pentágono ouvidas pelo New York Times sob condição de anonimato afirmam que não há, neste momento, planos operacionais para uma invasão da Groenlândia. Segundo essas autoridades, embora o Departamento de Defesa costume trabalhar com múltiplos cenários estratégicos, nenhuma ordem formal foi emitida nesse sentido.
Apesar disso, o discurso presidencial tem se tornado mais assertivo. Nesta terça, Trump publicou na rede Truth Social uma montagem em que aparece fincando a bandeira dos Estados Unidos no solo groenlandês. A imagem traz a inscrição “Groenlândia, território dos EUA 2026” e mostra o presidente ao lado do secretário de Estado, Marco Rubio, e do vice-presidente J.D. Vance. A publicação reforça a pressão política sobre a região e sinaliza que a proposta de incorporação não seria apenas retórica. Pouco depois, Trump afirmou que o plano “não tem volta”.
Em outra mensagem, o presidente reiterou que a Groenlândia é “imprescindível para a segurança nacional e mundial” e sugeriu haver consenso em torno dessa avaliação. A Casa Branca já havia divulgado, na semana passada, outra imagem simbólica: Trump observando um mapa da ilha pela janela, acompanhado da legenda “Monitorando a situação”.
A justificativa apresentada pelo presidente é estratégica. Segundo ele, caso os Estados Unidos não assumam o controle do território, Rússia ou China o farão. “Não podemos permitir isso”, declarou, acrescentando que a anexação ocorreria “do jeito fácil ou do jeito difícil”.
A relevância geopolítica da Groenlândia não é recente. Desde 1951, o território abriga a Base Aérea de Thule, a instalação militar americana mais ao norte do planeta, considerada fundamental para sistemas de alerta antecipado, defesa antimísseis e monitoramento do espaço aéreo no hemisfério norte. Além disso, a ilha concentra reservas de minerais críticos utilizados em tecnologias avançadas, equipamentos militares e na transição energética — um mercado hoje amplamente dominado pela China.
Europa reage e discute retaliação comercial
A retórica de Washington desencadeou uma reação coordenada na Europa. Nesta quinta-feira (22), chefes de Estado e de governo da União Europeia se reúnem para definir uma resposta às ameaças tarifárias de Trump, que prometeu sobretaxar oito países — seis deles membros do bloco — como instrumento de pressão para avançar sobre a Groenlândia.
Entre as opções em debate estão três caminhos principais: a ativação do chamado “instrumento anticoerção”, conhecido informalmente como “bazuca comercial”; a imposição de tarifas retaliatórias sobre até 93 bilhões de euros em importações americanas; ou a suspensão do acordo comercial firmado entre UE e EUA em 2025, que ainda não foi ratificado pelo Parlamento Europeu.
No último fim de semana, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou que a Europa não aceitará chantagem. O chanceler alemão, Friedrich Merz, declarou que busca diálogo com Trump no Fórum Econômico Mundial, em Davos, mas advertiu que tarifas consideradas irracionais serão respondidas. Trump, por sua vez, minimizou a capacidade de resistência europeia. “Nós temos que ter a Groenlândia”, disse.
A tensão ganhou contornos pessoais quando Trump vinculou sua iniciativa à frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, em mensagem enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre. O líder norueguês respondeu lembrando que o prêmio é concedido por um comitê independente, não pelo governo do país.
A “bazuca comercial” e o risco de escalada
O instrumento anticoerção da UE, aprovado em 2023 em resposta a pressões econômicas da China sobre a Lituânia, permitiria impor restrições severas ao acesso de empresas estrangeiras — inclusive americanas — ao mercado europeu, além de bloqueios a investimentos e serviços. O presidente francês, Emmanuel Macron, defende seu acionamento, enquanto a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, adota postura mais cautelosa.
Analistas alertam, no entanto, que a implementação do mecanismo é complexa e demorada. Ainda assim, para antigos negociadores europeus, o caso da Groenlândia atende plenamente aos critérios do instrumento, por configurar coerção econômica e ameaça à integridade territorial de um Estado-membro.
Mais pragmática, a alternativa das tarifas recíprocas de 93 bilhões de euros é vista como a opção mais provável no curto prazo. O pacote, já aprovado anteriormente, poderia entrar em vigor ainda em fevereiro e atingiria setores sensíveis da economia americana, como aeronaves, automóveis, autopeças e produtos agrícolas, incluindo a soja.
Especialistas avaliam que essas medidas podem gerar pressão política interna nos Estados Unidos às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, embora também tragam custos para a própria Europa, cuja economia depende fortemente das exportações.
Acordo comercial sob ameaça
A terceira via — o abandono definitivo do acordo comercial UE-EUA — enfrenta resistência, mas ganha apoio entre parlamentares europeus. O tratado reduziu tarifas de 20% para 15% sobre produtos europeus, em troca da eliminação de tarifas do bloco sobre bens americanos. Críticos classificaram o pacto como uma concessão excessiva.
Para juristas e economistas, a principal força da União Europeia não está apenas em tarifas, mas na capacidade de impor padrões regulatórios globais — de proteção de dados à governança da inteligência artificial — que afetam diretamente empresas americanas.
Diante desse cenário, a crise em torno da Groenlândia deixou de ser uma disputa territorial isolada para se tornar um teste decisivo das relações transatlânticas, com implicações profundas para a segurança, o comércio global e o equilíbrio de poder no Ártico.
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