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Mundo

Genocídio: violência derruba natalidade de palestinos em 41%

França vai reconhecer Estado da Palestina em setembro, diz Macron

Publicado em 25/07/2025 10:13 - Jamil Chade (UOL), DW, Semana On

Divulgação Foto: Abed Rahim Khatib/Flash90

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Um levantamento realizado pela UNFPA, a agência da ONU para população, alerta para uma queda profunda de novos nascimentos entre palestinos diante da operação de Israel sobre Gaza. Se as mortes na região já superam a marca de 56 mil pessoas desde outubro de 2023, o novo levantamento revela que a taxa de nascimento desabou, na prática conduzindo ao risco de um processo de encolhimento da população palestina.

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A entidade decidiu soar o alerta sobre o que chama de “profunda crise humanitária que se desenrola em Gaza, onde a privação severa de alimentos, um sistema de saúde em ruínas e um imenso estresse psicológico estão levando a resultados catastróficos entre mulheres grávidas e recém-nascidos, ameaçando a sobrevivência de toda uma geração”.

Os dados mostram que, de janeiro a junho de 2025:

Os nascimentos diminuíram drasticamente: No primeiro semestre de 2025, foram registrados 17.000 nascimentos, marcando uma redução significativa em relação aos 29.000 nascimentos registrados durante o período correspondente em 2022. Isso representa um declínio de mais de 41% na taxa de natalidade em apenas três anos.

Mortes maternas: 220 mães morreram – mais de 20 vezes o número total de mortes maternas registradas em 2022.

Mortes de recém-nascidos: Pelo menos 20 recém-nascidos morreram dentro de 24 horas após o nascimento.

Recém-nascidos em risco: 33% dos bebês – 5.560 – nasceram prematuramente, com baixo peso ou precisaram ser internados em terapia intensiva neonatal.

Total de mortes: 11 mil pessoas morreram como resultados dos ataques contra Gaza entre janeiro e julho de 2025.

Segundo a ONU, as estatísticas destacam os “profundos desafios enfrentados por mães e recém-nascidos em um ambiente em que os cuidados com a saúde estão sendo sistematicamente direcionados, com a fome e a privação de necessidades básicas impulsionando esses resultados”.

“A escala de sofrimento para as novas mães e seus bebês em Gaza está além da compreensão”, disse Laila Baker, diretora regional para os Estados Árabes do UNFPA. “Toda mãe e toda criança merecem o direito a um parto seguro e a um início de vida saudável. O que estamos testemunhando é uma negação sistemática desses direitos fundamentais, levando uma geração inteira à beira da morte”, completou.

De acordo com ela, os hospitais e as instalações de saúde que permanecem parcialmente funcionais – a maioria foi danificada ou destruída – estão perdendo cada vez mais a capacidade de manter mães e bebês vivos.

“Setenta por cento dos medicamentos essenciais estão esgotados e metade de todos os equipamentos médicos está danificada, reduzindo severamente o acesso a cuidados essenciais para recém-nascidos em 70%”, alertou a entidade.

O colapso dos sistemas de encaminhamento, com serviços de ambulância reduzidos ao mínimo, e a grave falta de transporte significam que as mulheres grávidas não conseguem acessar o atendimento pré-natal ou chegar aos hospitais para o parto, transformando complicações tratáveis em mortes evitáveis.

Para a ONU, porém, um dos obstáculos é o veto para a entrada de ajuda humanitária.

“Somente o UNFPA tem 170 caminhões carregados com suprimentos extremamente necessários, incluindo unidades de maternidade em contêineres, medicamentos para a saúde materna, ultrassons e incubadoras portáteis, que estão retidos nas fronteiras desde o início de março de 2025”, constata, que pede acesso urgente aos territórios em Gaza.

ONU: 20% das crianças na Cidade de Gaza estão desnutridas

“‘As pessoas em Gaza não estão nem mortas nem vivas, são cadáveres ambulantes’, relatou-me um colega”, afirmou nesta quinta-feira (24/07) o chefe da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA), Philippe Lazzarini, alertando para a gravidade da situação dos moradores e do sistema de ajuda humanitária do enclave palestino.

Em um post no X, ele disse que uma em cada cinco crianças está desnutrida na Cidade de Gaza, e que a fome está aumentando a cada dia.

“Quando cresce a desnutrição infantil, os mecanismos de enfrentamento falham, o acesso a alimentos e cuidados desaparece, a fome começa a se instalar silenciosamente. A maioria das crianças atendidas por nossas equipes está definhando, fraca e correndo alto risco de morrer se não receber o tratamento de que necessita urgentemente. Mais de 100 pessoas, a grande maioria crianças, morreram de fome segundo relatos”, escreveu.

Ele acrescentou que os próprios funcionários da UNRWA estão desmaiando no trabalho devido à fome.

“A crise que se aprofunda afeta a todos, incluindo aqueles que tentam salvar vidas no enclave devastado pela guerra. Os profissionais de saúde da linha de frente da UNRWA estão sobrevivendo com uma pequena refeição por dia, muitas vezes apenas lentilhas, se é que as conseguem”, afirmou Lazzarini, citando relatos de seus funcionários na Faixa de Gaza.

“Quando os cuidadores não conseguem encontrar o suficiente para comer, todo o sistema humanitário entra em colapso” alertou.

“Os pais estão com fome demais para cuidar de seus filhos. Aqueles que chegam às clínicas da UNRWA não têm energia, comida ou meios para seguir as orientações médicas. As famílias não conseguem mais lidar com a situação, estão em colapso, incapazes de sobreviver.”

Lazzarini afirmou que a agência possui uma grande quantidade de alimentos estocados nos países vizinhos à Gaza e pediu que Israel libere o acesso de ajuda ao enclave. “Temos o equivalente a 6 mil caminhões carregados de alimentos e suprimentos médicos na Jordânia e no Egito.”

ONGs criticam bloqueio à ajuda humanitária

A ONU e grupos humanitários que tentam entregar alimentos a Gaza dizem que Israel, que controla o que entra e sai no território, está bloqueando as entregas de ajuda humanitária, e acusaram tropas israelenses de mataram centenas de palestinos a tiros próximo aos pontos de coleta desde maio.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, 111 pessoas já morreram de fome em Gaza, a maioria delas nas últimas semanas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que não conseguiu entregar alimentos por quase 80 dias entre março e maio e que a retomada das entregas de alimentos ainda estava muito abaixo do necessário.

Em um comunicado divulgado na quarta-feira, 111 organizações, incluindo a Mercy Corps, o Conselho Norueguês para Refugiados e a Refugees International afirmam que mesmo com toneladas de alimentos, água potável e suprimentos médicos intocados nos arredores de Gaza, os grupos de ajuda humanitária estão impedidos de entregá-los.

Israel, que cortou todo o fornecimento para Gaza desde o início de março e o reabriu com novas restrições em maio, afirma estar comprometido em permitir a entrada de ajuda, mas deve controlá-la para evitar que seja desviada por militantes do Hamas. Tel Aviv afirma ter deixado comida suficiente entrar em Gaza durante a guerra e culpa o Hamas pelo sofrimento dos 2,2 milhões de habitantes de Gaza.

Os israelenses acusam a ONU de não agir em tempo hábil, afirmando que 700 caminhões de ajuda humanitária estão parados em Gaza. “É hora de eles se recomporem e pararem de culpar Israel pelos gargalos que estão ocorrendo”, disse o porta-voz do governo israelense, David Mercer, nesta quarta-feira.

“Temos um conjunto mínimo de requisitos para poder operar dentro de Gaza”, afirmou Ross Smith, diretor de emergências do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA) à agência de notícias Reuters. “Precisamos que não haja agentes armados perto de nossos pontos de distribuição, perto de nossos comboios.”

Mais de 60 mil mortos deste o início do conflito

O embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, disse ao Conselho de Segurança nesta quarta-feira que Israel agora concederá vistos de apenas um mês a funcionários internacionais da UNRWA.

A guerra na Faixa de Gaza teve início após os ataques terroristas do Hamas que mataram cerca de 1.200 pessoas solo israelense, além de outras 251 que foram levadas como reféns.

Desde então, a ofensiva israelense em Gaza matou quase 60 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde do enclave, além de reduzir a maior parte do território a ruínas e forçar quase toda a população a fugir de suas casas diversas vezes.

França reconhecerá Estado palestino em setembro, anuncia Macron

O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou ontem (25) que seu país reconhecerá oficialmente o Estado palestino durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, marcada para setembro. A decisão, segundo ele, busca contribuir para a construção de uma paz duradoura no Oriente Médio.

A declaração foi feita por meio de uma publicação na rede social X (antigo Twitter), acompanhada de uma carta endereçada ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. “Fiel ao seu compromisso histórico com uma paz justa e duradoura no Oriente Médio, decidi que a França reconhecerá o Estado da Palestina”, escreveu Macron. “Farei esse anúncio solene na Assembleia Geral da ONU em setembro próximo.”

Com o gesto, a França será o primeiro grande país ocidental a reconhecer oficialmente a Palestina como Estado soberano — uma posição até agora adotada majoritariamente por nações menores, geralmente mais críticas à política israelense.

A decisão gerou reações imediatas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, condenou a iniciativa, classificando-a como um incentivo ao terrorismo. “Um Estado palestino nessas condições seria uma plataforma de lançamento para aniquilar Israel — não para viver em paz ao lado dele”, afirmou Netanyahu também pelo X. Ele acusou os palestinos de não buscarem a coexistência, mas sim a substituição de Israel.

Na mesma linha, o ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, chamou a medida de “vergonhosa” e afirmou que seu país não aceitará a criação de uma entidade palestina que, segundo ele, comprometa a segurança nacional israelense.

Nos bastidores diplomáticos, a decisão francesa também preocupa os Estados Unidos. Em um telegrama diplomático enviado em junho, o governo americano reiterou sua oposição a qualquer reconhecimento unilateral de um Estado palestino. Até o momento, a Casa Branca não se pronunciou oficialmente sobre a declaração de Macron.

Fontes diplomáticas indicam que o presidente francês vinha amadurecendo a decisão há meses, como forma de reforçar a proposta de uma solução de dois Estados, em meio ao recrudescimento do conflito entre Israel e o grupo Hamas. A expectativa inicial era de que o anúncio ocorresse em uma conferência internacional planejada em conjunto com a Arábia Saudita para junho, mas o evento foi adiado após o início de uma ofensiva militar de 12 dias entre Israel e Irã.

Com a conferência reprogramada como uma reunião ministerial nos dias 28 e 29 de julho, a França decidiu antecipar o anúncio para criar impulso diplomático e influenciar outros países que ainda hesitam em reconhecer formalmente o Estado palestino. Segundo diplomatas, Macron enfrenta resistência de aliados como Reino Unido e Canadá.

Em resposta positiva à decisão francesa, o vice-presidente da Autoridade Palestina, Hussein Al Sheikh, agradeceu o gesto e afirmou que ele representa “o compromisso da França com o direito internacional e o apoio ao direito do povo palestino à autodeterminação”.

Desde o ataque do Hamas a Israel, em outubro de 2023, que desencadeou uma ofensiva militar israelense de grande escala sobre a Faixa de Gaza, Israel tem intensificado sua campanha contra o reconhecimento internacional de um Estado palestino. Autoridades israelenses alertaram que, caso a França concretize essa decisão, poderão haver retaliações diplomáticas, incluindo a limitação do compartilhamento de inteligência e medidas unilaterais na Cisjordânia.

Brasil vai ingressar em ação contra Israel por genocídio em Gaza

O Brasil irá ingressar formalmente em ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça contra Israel por genocídio na Faixa de Gaza.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores informou na quarta-feira (23) que a decisão tem como base a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio e “o dever dos Estados de cumprir com suas obrigações de Direito Internacional e Direito Internacional Humanitário frente à plausibilidade de que os direitos dos palestinos de proteção contra atos de genocídio estejam sendo irreversivelmente prejudicados, conforme conclusão da Corte Internacional de Justiça, em medidas cautelares anunciadas em 2024”.

A Convenção do Genocídio foi firmada pelos membros das Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial como forma de prevenir crimes contra a humanidade.

A África do Sul apresentou a ação na Corte, órgão judicial das Nações Unidas, em janeiro de 2024, em que acusa Israel de violar a convenção internacional, ter uma “conduta genocida” e promover “assassinato em massa de civis em Gaza”.

Na sustentação oral, representantes do país africano justificaram que há uma tentativa de “destruição da vida palestina”, com uso de arsenal destrutivo, ataques de áreas consideradas seguras e campos de refugiados, impedimento de assistência humanitária, destruição de casas e infraestruturas. As autoridades israelenses negam as acusações.

Para o governo brasileiro, na nota em que anunciou hoje os trâmites finais para adesão ao processo, a comunidade internacional não pode ficar inerte diante das violações que vêm ocorrendo em Gaza e na Cisjordânia.

“A comunidade internacional segue testemunhando, de forma rotineira, graves violações de Direitos Humanos e Humanitário: ataques à infraestrutura civil, inclusive a sítios religiosos, como à paróquia católica em Gaza, e às instalações das Nações Unidas, como à Organização Mundial da Saúde; violência indiscriminada e vandalismo por colonos extremistas na Cisjordânia, como o incêndio às ruínas da antiga Igreja de São Jorge e ao cemitério bizantino em Taybeh; massacres de civis, a maior parte dos quais mulheres e crianças, que se tornaram cotidianos durante a entrega de ajuda humanitária em Gaza; e a utilização despudorada da fome como arma de guerra”, afirma o comunicado.

Outras violações apontadas pelo Brasil são dominação à força de territórios e ampliação de assentamentos ilegais.

As forças israelenses mataram quase 60 mil palestinos em ataques aéreos, bombardeios e tiroteios desde que lançaram sua ofensiva contra Gaza em resposta aos ataques a Israel pelo grupo Hamas, que matou 1,2 mil pessoas e capturou 251 reféns em outubro de 2023.

Para resumir o drama

O colapso da natalidade palestina, denunciado pela ONU como um reflexo direto da violência sistemática em Gaza, é mais do que uma tragédia humanitária: é o sintoma brutal de um processo de desintegração deliberada de um povo. A fome como arma de guerra, a destruição de hospitais, o bloqueio à ajuda humanitária e a morte em massa de civis — em sua maioria mulheres e crianças — não são efeitos colaterais: são estratégias. E essas estratégias não podem mais ser descritas senão como componentes de um projeto genocida.

Frente a esse cenário, o reconhecimento do Estado palestino por países como a França e a entrada do Brasil na ação por genocídio na Corte Internacional de Justiça não são apenas gestos simbólicos — são atos mínimos de coerência com o direito internacional e com a consciência histórica. Reagir ao extermínio de um povo não é uma questão de diplomacia: é uma exigência moral.

É fundamental, no entanto, distinguir a crítica ao sionismo — enquanto ideologia colonial que sustenta a ocupação, o apartheid e a negação dos direitos nacionais palestinos — do antissemitismo, que é o preconceito contra judeus enquanto povo ou religião. Confundir os dois conceitos, seja por má-fé ou ignorância, é um desserviço tanto à justiça quanto à verdade. O antissionismo é uma crítica a um projeto de dominação territorial e étnica. O antissemitismo, por outro lado, é uma forma abjeta de racismo. Combatê-los deve ser tarefa simultânea, nunca excludente.

Hoje, diante de quase 60 mil mortos e de uma geração inteira condenada à fome e ao colapso físico e psicológico, não há mais espaço para neutralidade. O silêncio, neste caso, não é prudência — é cumplicidade. E a história, como sabemos, não tem sido gentil com os cúmplices do genocídio.

VIOLÊNCIA SEM PARTIDO


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