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Mundo
Infraestrutura médica colapsada, médicos executados e civis deixados à própria sorte
Publicado em 14/04/2025 10:39 - Semana On
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Em meio a ruínas e poeira, onde sirenes substituem batimentos cardíacos e lanterna de celular torna-se bisturi, a guerra em Gaza revela um rosto particularmente cruel: o extermínio da saúde pública. A destruição deliberada da infraestrutura hospitalar palestina — combinada com bloqueios, execuções sumárias de socorristas e milhares de mortos evitáveis — configura um ataque sistêmico à dignidade humana, com potencial de configurar crimes contra a humanidade, segundo investigações recentes da Human Rights Watch e alertas da Organização das Nações Unidas (ONU).
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Ontem (13), um dos últimos refúgios médicos de Gaza — o Hospital Batista Árabe Al-Ahli — foi atingido por dois mísseis israelenses. O ataque, segundo a Defesa Civil de Gaza, destruiu a ala de cirurgia e inutilizou a estação de geração de oxigênio essencial às UTIs. “Fomos deslocados mais de 20 vezes. O hospital era nosso último refúgio”, relatou à AFP Naela Imad, de 42 anos, uma das civis forçadas a fugir em meio à evacuação.
Apesar de o exército israelense alegar ter avisado previamente e afirmado que militantes do Hamas utilizavam o local — o que o grupo nega — o ataque se soma a uma longa lista de violações do direito humanitário. Desde outubro de 2023, 33 dos 36 hospitais de Gaza foram danificados, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 14 de março. Mais de 886 pessoas morreram em ataques a unidades de saúde, 1.355 ficaram feridas, e ao menos 170 ambulâncias foram afetadas.
Um massacre anunciado
O caso do Hospital Al-Ahli, ainda que grave, é apenas o mais recente capítulo de uma tragédia em curso. No sul de Gaza, as cenas beiram o absurdo: médicos operando à luz de lanternas, sem anestesia ou antibióticos. Segundo o Dr. Ahmed Khalil (pseudônimo), que concedeu entrevista à revista +972, a rotina nos hospitais tornou-se medieval. “Tratamos pacientes no chão. Usamos nossas mãos nuas. Operamos sem dormir, sem comer. Às vezes tratamos sabendo que não há chance, mas tentamos mesmo assim”.
Em março, o cerco israelense ao Hospital Al-Shifa — o maior centro médico da Faixa de Gaza — resultou na interrupção total de serviços, forçando médicos e pacientes a fugirem sob bombardeios. “Quando as máquinas de oxigênio falharam e os monitores cardíacos se apagaram, soube que não estávamos mais em um hospital. Estávamos dentro de uma vala comum em formação”, contou Amna, enfermeira de 32 anos que trabalha no local há uma década.
A Human Rights Watch documentou a conversão de hospitais em postos militares por tropas israelenses, o que não apenas compromete os serviços, mas viola o direito internacional humanitário. “Estamos testemunhando atos de guerra que demonstram um total desprezo pela vida humana”, disseram em nota conjunta seis agências da ONU, entre elas a OMS e o UNICEF, em 7 de abril.
Profissionais de saúde: alvos preferenciais
A madrugada de 23 de março de 2025 registrou uma das mais brutais ofensivas contra equipes de resgate já documentadas. Quinze profissionais — incluindo membros do Crescente Vermelho Palestino, da Defesa Civil e um funcionário da ONU — foram mortos por tropas israelenses durante missões humanitárias. Vídeos obtidos pelo The New York Times mostram ambulâncias devidamente sinalizadas sendo alvejadas, contradizendo a versão israelense de que os veículos agiam de forma “suspeita”.
“Eles foram mortos enquanto tentavam salvar vidas”, denunciou Jonathan Whittall, chefe humanitário da ONU nos territórios palestinos. Exames forenses confirmaram que os tiros atingiram os profissionais na parte superior do corpo, configurando intenção clara de matar. Para Younis Al Khatib, presidente do Crescente Vermelho na Cisjordânia, “não se trata de fogo cruzado, mas de execuções sumárias”.
Desde o início da guerra, 1.402 profissionais de saúde foram mortos, de acordo com o Escritório de Mídia de Gaza, tornando esta uma das campanhas mais letais contra socorristas da história moderna.
A morte sem bombas
Em um contexto de bloqueio total de medicamentos, combustível e alimentos, Gaza enfrenta também uma epidemia de mortes silenciosas. Haithm Hasan Hajaj, engenheiro civil de 41 anos, morreu por complicações de uma doença celíaca tratável. “Procuramos ajuda por nove meses, imploramos por um diagnóstico. Mas não havia nada”, relatou sua esposa Mona à revista +972. Em meio a hospitais lotados e insumos inexistentes, Hajaj foi condenado à morte pelo simples fato de precisar de uma dieta sem trigo — algo impossível em Gaza.
A crise sanitária se estende também aos que esperam por evacuação médica: 35 mil pessoas em situação crítica aguardam tratamento fora da Faixa. Estima-se que ao menos 40% dessas morreram na espera, vítimas não de ferimentos de guerra, mas do colapso absoluto do sistema de saúde e da recusa israelense em liberar suas saídas.
Casos como o de Ata Ahmed, de 19 anos, ferido gravemente por estilhaços, escancaram esse drama. Paralisado, ele aguarda há seis meses por tratamento adequado fora de Gaza. “Tudo o que desejo é sair daqui antes que seja tarde demais”, desabafa.
Bloqueio total, colapso total
Desde 2 de março, nenhum suprimento entrou em Gaza. O Programa Mundial de Alimentos (WFP) teve que fechar 25 padarias por falta de farinha e gás. Segundo a ONU, mais de 2,1 milhões de pessoas estão encurraladas, famintas e sob bombardeios. “Estamos falando de 400 mil pessoas deslocadas novamente só nas últimas semanas, vivendo num espaço cada vez menor, onde necessidades básicas são inalcançáveis”, alertou Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres.
Em visita à Casa Branca, o premiê israelense Benjamin Netanyahu afirmou ver com bons olhos o plano do ex-presidente Donald Trump para transformar Gaza em uma “Riviera do Oriente Médio”. A proposta — que prevê a expulsão de milhões de palestinos — foi duramente criticada. “Rejeitamos firmemente a anexação e a expulsão da população palestina. Viola o direito internacional”, reagiu o presidente francês Emmanuel Macron.
Entre o direito e o abismo
Especialistas alertam que a destruição deliberada da infraestrutura médica e o ataque sistemático a profissionais de saúde podem configurar crimes de guerra e até genocídio. Como definiu a jurista e professora de direito internacional Naomi Roht-Arriaza, da Universidade da Califórnia, “o direito humanitário internacional existe justamente para proteger os civis em tempos de conflito. Quando hospitais são transformados em alvos e médicos são executados, estamos diante de uma tragédia jurídica e moral”.
Diante do colapso da ordem humanitária, a comunidade internacional enfrenta um teste histórico. O silêncio — ou a omissão — poderá ser lido, no futuro, como cumplicidade.