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Mundo

Fumaça branca, bastidores escuros

O Conclave e o futuro político da Igreja Católica

Publicado em 28/04/2025 11:41 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O anúncio do Conclave para o próximo 7 de maio reabre, sob a cúpula da Capela Sistina, um teatro milenar onde fé, política e poder travam sua mais intrincada dança. A morte do papa Francisco, sepultado em 26 de abril, encerra um dos pontificados mais reformistas e desafiadores da história recente da Igreja Católica, e abre caminho para uma batalha silenciosa: a definição do próximo sucessor de Pedro em meio a pressões internacionais, fraturas internas e a herança de um catolicismo em profunda transformação.

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Durante os nove dias de luto do tradicional período Novendiales, enquanto missas e homenagens se sucedem, os cardeais preparam-se para o que poderá ser um dos conclaves mais significativos desde 1978, quando Karol Wojtyła — João Paulo II — foi eleito em meio à tensão da Guerra Fria. A Capela Sistina já foi fechada para a instalação da chaminé por onde sairá a fumaça branca anunciando o novo papa, enquanto o Vaticano, ciente do interesse global, prorrogou até 31 de maio as credenciais dos jornalistas para a cobertura da sucessão.

Entre os 133 cardeais eleitores, sete brasileiros — incluindo Sérgio da Rocha (Salvador), Jaime Spengler (Porto Alegre) e Odilo Scherer (São Paulo) — terão papel ativo nas votações que exigem dois terços de consenso para se chegar a um nome. Uma missão complexa, pois os desafios transcendem a espiritualidade: envolvem a sobrevivência de um projeto de Igreja, a manutenção ou o abandono de uma trajetória de diálogo social e a resistência a interesses políticos sedimentados há décadas.

A geopolítica do conclave

A compreensão do que se desenrola dentro dos muros leoninos exige memória histórica. A influência da política externa norte-americana sobre a Santa Sé não é teoria conspiratória: é história documentada. Em 1958, três dias após a eleição de João XXIII, o Escritório para Assuntos Europeus do Departamento de Estado norte-americano afirmava, em relatório confidencial, que o Vaticano poderia ser uma “fonte valiosa de informações” e um aliado fundamental no combate ao comunismo.

Esse pragmatismo floresceu nos anos seguintes. Em 1959, o presidente Dwight Eisenhower visitou João XXIII, saudando-o como uma das “grandes forças espirituais contra o materialismo”. A Santa Sé passou a ser vista como peça estratégica na luta contra a expansão da União Soviética, com a Igreja oferecendo legitimidade moral à cruzada ocidental.

Na década de 1980, esse conluio atingiu seu auge. Alarmados com o crescimento de movimentos guerrilheiros em El Salvador, como apontava a CIA em relatório de 1980, a Casa Branca traçou planos para influenciar o arcebispo Óscar Romero — o que fracassou tragicamente quando Romero foi assassinado após denunciar publicamente a repressão militar sustentada pelos EUA. Sua morte foi um símbolo doloroso da tensão entre a Igreja dos pobres e os interesses das potências.

O atentado a João Paulo II, em 1981, atribuído por relatórios americanos a setores ligados à KGB (CIA, 1984), evidenciou como a luta ideológica atravessava até mesmo a sacralidade do papado. Como destacou o historiador John Cornwell em A Thief in the Night (1989), o caso revelou “o quanto a Igreja se tornara um ator decisivo nos embates pela liberdade política, a ponto de colocar em risco a vida de seu líder”.

Essa herança ainda paira sobre o novo conclave.

Ruptura ou continuidade?

O falecido papa Francisco rompeu com diversas tradições políticas da Cúria Romana. Desde sua eleição em 2013, o pontífice argentino defendeu uma “Igreja pobre para os pobres”, investiu contra a corrupção financeira, expôs escândalos de abuso sexual e promoveu a Encíclica Laudato Si’, um manifesto em defesa da casa comum planetária, a Terra.

Sua proposta de “Igreja em Saída” — termo central em sua ação pastoral — provocou resistências profundas em setores tradicionais. Mesmo sem alterar dogmas fundamentais sobre moral sexual e ordenação de mulheres, sua abertura pastoral e seu combate à “globalização da indiferença” foram lidos como sinais de traição por alas ultraconservadoras.

Essas resistências se cristalizaram no Brasil. Entre os dias 21 e 22 de abril, monitoramento de redes sociais revelou que organizações como o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, Arautos do Evangelho e Instituto Santo Anastácio optaram pelo silêncio absoluto diante da morte do papa. Tal postura, longe de ser casual, evidencia o profundo afastamento ideológico que esses setores estabeleceram em relação ao pontificado reformista.

Influenciadores católicos de peso, como Pietra Bertolazzi, padre Wander Maia e Jean Rodrigues, também silenciaram. Até mesmo figuras políticas como Caroline de Toni e Frederico D’Ávila, habituados a exaltar temas religiosos no Congresso, não manifestaram pesar público.

O fenômeno revela um movimento maior: a fragmentação do catolicismo contemporâneo, dividido entre defensores de uma tradição hierárquica imutável e partidários de uma Igreja em diálogo com as complexidades do mundo moderno. Como aponta Massimo Faggioli, professor de teologia e especialista em Vaticano, “Francisco tentou reverter a clericalização da Igreja, mas expôs, ao mesmo tempo, o quanto o catolicismo está internamente polarizado”.

Entre o ultraconservadorismo e a nova cidadania católica

O silêncio não foi absoluto. Figuras como padre Paulo Ricardo e padre José Eduardo de Oliveira e Silva publicaram conteúdos sobre os ritos de Sé Vacante, embora evitando avaliações sobre o legado de Francisco. Já Bernardo Küster, influente no meio católico ultraconservador e colaborador da Brasil Paralelo, limitou-se a uma oração genérica pela alma do papa, mantendo sua linha crítica ao que chama de “ecologia ideológica”.

A nova campanha da CNBB para 2025 — que terá como tema “Ecologia Integral” — foi alvo de hostilidades por parte desse segmento. Trata-se de uma rejeição não apenas à agenda ambientalista, mas ao próprio conceito de Igreja em diálogo com os clamores sociais e ambientais, como preconizado por Francisco.

O teólogo Leonardo Boff, um dos redatores da Laudato Si’, resume bem o embate: “Aqueles que negam a urgência ecológica negam também o mandamento do amor ao próximo, pois o próximo começa pela Terra que habitamos”.

O que esperar do Conclave?

A tensão entre continuidade e ruptura será a tônica do próximo Conclave. Embora a maioria dos cardeais tenha sido nomeada por Francisco, o perfil conservador ainda predomina entre eles. A escolha do novo papa poderá indicar se a Igreja reafirmará seu compromisso com a missão social inaugurada no Vaticano II e renovada por Francisco, ou se voltará a um modelo de “fortaleza doutrinal” isolada do mundo contemporâneo.

Em seu livro Catholicism: A Journey to the Heart of the Faith (2011), o teólogo Robert Barron adverte: “A vitalidade da Igreja depende de sua capacidade de traduzir sua verdade eterna nas linguagens e nos dramas de cada geração.”

A eleição de maio, portanto, é mais do que a sucessão de um líder espiritual: é a encruzilhada entre dois futuros possíveis para uma das instituições mais antigas e influentes da história humana. O que está em jogo é o próprio rosto que o catolicismo apresentará ao mundo no século XXI — e, talvez, se ainda poderá ser fermento na massa humana ou se se tornará apenas mais uma fortaleza contra o fluxo da história.

Enquanto o mundo aguarda a fumaça branca, as nuvens de disputa e memória pairam densas sobre Roma.

O BRASIL DAS RUAS


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