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Mundo

Francisco: “Não deixemos que nos roubem a esperança”

Extrema direita católica se mobiliza para enterrar a Igreja do diálogo

Publicado em 21/04/2025 10:46 - Semana On

Divulgação Semana On IA

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Aos 88 anos, Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, morreu nesta segunda-feira, às 7h35, em sua residência no Vaticano, encerrando um dos pontificados mais disruptivos da história moderna da Igreja Católica. O anúncio oficial foi feito pelo camerlengo Kevin Farrell: “O Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e da Igreja”.

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Francisco havia aparecido publicamente pela última vez na manhã anterior, durante a tradicional bênção de Páscoa Urbi et Orbi, visivelmente debilitado, mas ainda firme em sua missão pastoral. Pediu cessar-fogo em Gaza, uma paz duradoura na Ucrânia e a libertação de prisioneiros políticos. Foi sua última mensagem ao mundo – e talvez, também, um testamento.

A morte de Francisco, no entanto, está longe de significar apenas o fim de um ciclo biográfico. Marca, na verdade, o início de uma disputa global pelos rumos da maior instituição religiosa do planeta, com mais de 1,3 bilhão de fiéis. A partir de agora, o Vaticano será o epicentro de uma ofensiva reacionária internacional, disposta a reverter o projeto de uma Igreja inclusiva, descentralizada e voltada às periferias. O que está em jogo não é apenas o futuro do catolicismo, mas seu papel no mundo contemporâneo.

Uma Igreja que saiu de Roma

Francisco foi o primeiro papa latino-americano e o primeiro jesuíta a ocupar o trono de Pedro. Argentino de Buenos Aires, filho de imigrantes italianos, assumiu o papado em 2013 com uma visão clara: fazer a Igreja “sair de si mesma”, como ele disse em sua primeira entrevista como pontífice.

Seu projeto pastoral pode ser resumido numa imagem: a da Igreja como “hospital de campanha”. Essa metáfora, recorrente em seus discursos, traduzia seu desejo de uma instituição próxima dos que sofrem, disposta a acolher sem julgar, a ouvir sem condenar. “A coisa mais importante é a primeira proclamação: Jesus Cristo te salvou. E os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, acompanhar as pessoas”, disse ele à La Civiltà Cattolica em 2013.

Essa visão se traduziu em ações concretas. Francisco descentralizou o poder da Cúria Romana, nomeando cardeais de países antes ignorados pelo centro do catolicismo. Em seus dez consistórios, escolheu representantes da África, Ásia, América Latina e Oceania, alterando o perfil do Colégio Cardinalício. Dos 141 cardeais com menos de 80 anos (e, portanto, aptos a votar no próximo conclave), 111 foram nomeados por ele – cerca de 80%. É a sua tentativa de blindar o futuro da Igreja.

“A Igreja não é uma fortaleza europeia”, dizia. Para Francisco, se a vida católica floresce nas periferias, é de lá que devem vir os seus líderes.

Francisco contra a cultura do descarte

Francisco levou o catolicismo para fora dos palácios. Fez da pobreza e da migração temas centrais. Em Lampedusa, denunciou a “globalização da indiferença”. Nos Estados Unidos, rezou na fronteira com o México. Na Bolívia, afirmou que o dinheiro é o “esterco do demônio”. No Brasil, durante o Sínodo da Amazônia, desafiou o poder político ao propor uma Igreja aliada aos povos indígenas, não aos governos.

Sua crítica ao capitalismo neoliberal incomodou governos e elites. Em sua encíclica Laudato Si’ (2015), atacou o modelo econômico predatório, defendendo a ecologia integral. “A Terra está doente. Se medirmos a temperatura do planeta, veremos que ela tem febre”, disse em um de seus últimos discursos em 2024.

Sua visão social o aproximou de lideranças populares e o distanciou da ortodoxia econômica e moral do Ocidente. Defendeu os refugiados, os sem-teto, os trabalhadores precarizados. Abriu as portas para católicos divorciados, recasados e, com enorme coragem pastoral, autorizou a bênção a casais do mesmo sexo fora da liturgia. Não alterou a doutrina sobre o casamento, mas reconheceu a dignidade dos afetos. “Quem sou eu para julgar?”, disse em 2013, em resposta a uma pergunta sobre homossexuais.

A resistência conservadora

Esse projeto de Igreja encontrou forte resistência dentro e fora do Vaticano. A ala mais tradicional da cúria romana, que havia ascendido sob João Paulo II e Bento XVI, viu em Francisco uma ameaça. Acusaram-no de confundir pastoral com doutrina, de relativizar verdades da fé e de promover um “populismo eclesial”.

O cardeal australiano George Pell classificou o pontificado como “uma catástrofe”. O cardeal alemão Gerhard Müller foi ainda mais direto: “Essa ocupação da Igreja Católica é uma aquisição hostil da Igreja de Jesus Cristo”. Francisco respondeu: “Essas críticas não vêm da Igreja, mas de partidos políticos”.

O ápice da tensão ocorreu nos últimos anos, quando o papa destituiu o bispo Joseph Strickland, no Texas, por insubordinação e ataques públicos. Também limitou os privilégios do cardeal Raymond Burke. A ala ultraconservadora reagiu com fúria.

Trump, Burch e a conquista do Vaticano

Mas o que antes era apenas uma disputa interna, tornou-se agora uma questão geopolítica. O governo dos Estados Unidos, sob a nova gestão de Donald Trump, colocou a sucessão papal no centro de sua agenda internacional.

A nomeação de Brian Burch, presidente da organização CatholicVote, como embaixador na Santa Sé, foi vista no Vaticano como uma provocação. Burch é crítico feroz de Francisco, acusando-o de “confundir os fiéis”, de “populismo” e de “abandonar a doutrina”. Sua organização já investiu milhões em campanhas eleitorais conservadoras e articulou com Steve Bannon operações de mobilização digital de fiéis em 2018, usando dados de localização de celulares para estimular o voto católico.

A estratégia é clara: influenciar o conclave que escolherá o próximo papa, promovendo nomes alinhados à visão ultraconservadora de Igreja. “Agora, falta apenas o trono de São Pedro”, declarou Joshua Mercer, vice-presidente da CatholicVote, após a vitória de Trump em 2024.

Desinformação e articulações

Nas últimas semanas, surgiram sites anônimos divulgando listas de supostos “papáveis”, em sua maioria conservadores, promovendo campanhas de desinformação. Um clima de paranoia tomou o Vaticano.

“É o conclave mais vulnerável do século. Muitos cardeais nem se conhecem. A pressão política externa pode influenciar o ambiente da escolha, mesmo que os votos sejam secretos”, disse ao UOL um religioso brasileiro sob anonimato.

A Cúria tem consciência da gravidade da situação. Para tentar conter a interferência, o Vaticano antecipou medidas de isolamento dos cardeais e reforçou o sigilo das comunicações. Mas o ambiente já está contaminado.

A herança de um papa reformador

Francisco tentou modernizar a estrutura da Igreja, ainda que sem tocar em todos os tabus. As reformas no Banco do Vaticano, a descentralização da Cúria, a abertura para leigos e mulheres (embora ainda tímida), e a ampliação do diálogo inter-religioso foram avanços notáveis.

Mas seu legado está longe de ser irreversível. A resistência interna, aliada à ofensiva externa, pode sufocar a Igreja das margens que ele tentou edificar. Como observa o teólogo Massimo Faggioli, “Francisco construiu a Igreja do Terceiro Milênio”. Mas essa Igreja agora está sob cerco.

A urgência de um novo concílio?

A crise atual evoca os dilemas enfrentados por João XXIII às vésperas do Concílio Vaticano II, em 1962. Francisco não convocou um novo concílio, mas seu pontificado funcionou como um aggiornamento da pastoral e da cultura católica. Reintroduziu no centro da doutrina o espírito do Evangelho: compaixão, humildade e justiça.

Com sua morte, muitos defendem que um novo Concílio Ecumênico pode ser necessário para consolidar as transformações e evitar uma regressão histórica. A escolha do novo papa não será apenas um ato religioso, mas um movimento civilizacional.

A última bênção

No domingo de Páscoa, em sua última aparição, Francisco falou ao mundo com a voz cansada, mas com a mesma coragem de sempre. Pediu paz, diálogo, respeito aos direitos humanos. E, ao fazê-lo, reafirmou aquilo que foi sua marca: a fé como encontro, não como imposição; como ponte, não como muro.

Seus opositores agora se organizam. A extrema direita católica, articulada com forças políticas e financeiras globais, tenta capturar o trono de Pedro. A Igreja que o papa argentino construiu – pobre, ecológica, periférica e plural – está sob ameaça. Mas a sua mensagem permanece: “Não deixemos que nos roubem a esperança”.

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