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Mundo
Jovem bailarino vira símbolo da resistência contra deportações promovidas por Trump
Publicado em 04/06/2025 10:52 - Semana On
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As vozes da angústia que ecoam das ruas de Boston, de Milford, de Burlington e de tantas outras localidades americanas habitadas por brasileiros imigrantes não deixam dúvidas: está em curso uma das maiores ondas de repressão migratória já vividas por essa comunidade. Desde que o governo de Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, com sua retórica de “tolerância zero” à imigração irregular, o medo deixou de ser apenas psicológico. Tornou-se realidade concreta. Prática sistemática. E, sobretudo, uma ferida humanitária.
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Segundo informações obtidas pelo jornalista Jamuil Chade, do UOL, as autoridades de imigração dos EUA (ICE) realizaram, só no estado de Massachusetts, a prisão de cerca de 1,5 mil estrangeiros em uma única operação, nomeada “Patriota”. A Casa Branca determinou a realização de três mil prisões diárias — a maior campanha de deportação em curso no país desde a Segunda Guerra Mundial. O impacto é devastador, especialmente entre os brasileiros.
Histórias como a da mulher que, aos prantos, implora ajuda para evitar ser separada do filho — nascido nos EUA, sem documentos brasileiros — revelam a tragédia social que se instala. “Tenho muito medo de ser deportada e meu filho ficar para trás. Não vou aguentar”, clama a imigrante em um áudio enviado a uma ONG local. Medo, fome, despejo e isolamento: a espiral da vulnerabilidade atinge níveis alarmantes.
O caso de Marcelo Gomes, estudante detido um dia antes de sua formatura no ensino médio em Milford, acendeu ainda mais os alertas. A prisão, segundo a governadora democrata Maura Healey, representa um ataque direto às comunidades e à dignidade humana: “A administração Trump continua a criar medo em nossas comunidades, e isso está nos deixando menos seguros”, declarou.
Não se trata apenas de deportações. Há relatos, segundo associações locais, de crianças algemadas na sede do ICE em Burlington. Práticas que violam não apenas os direitos humanos, mas também convenções internacionais às quais os EUA são signatários, como a Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada pela ONU em 1989.
Na prática, o que se observa é a institucionalização do medo como ferramenta de controle — um modelo de gestão que, como alertou o filósofo Giorgio Agamben, reduz o imigrante ao que ele chama de “vida nua”: aquele que está presente fisicamente no território, mas excluído juridicamente da proteção do Estado.
A resposta do Brasil
Diante da emergência, o Itamaraty iniciou uma mobilização emergencial. O ministro Mauro Vieira ordenou um levantamento detalhado das filas consulares nos EUA, visando acelerar a emissão de documentos para crianças brasileiras, sobretudo aquelas que nunca foram registradas. A regularização documental é essencial para evitar que crianças sejam separadas de seus pais e entregues a abrigos ou tutores.
Segundo a reportagem, os consulados enfrentam uma demanda explosiva: alguns documentos passaram a levar mais de quatro meses para serem emitidos. O governo brasileiro pretende agora deslocar recursos entre os consulados e criar uma força-tarefa em Brasília para aliviar os postos mais sobrecarregados — uma medida já usada durante a evacuação de brasileiros no Líbano, em 2006.
Mas a ação diplomática, embora necessária, é insuficiente diante da escala do problema. O cerne da crise está na política migratória norte-americana, cada vez mais marcada por um discurso de exclusão e xenofobia. Essa política ignora a complexidade da migração contemporânea, que raramente é uma “escolha individual” e, quase sempre, é resultado de dinâmicas econômicas, sociais e políticas globais.
Uma comunidade à margem da cidadania
Estima-se que existam mais de 1,5 milhão de brasileiros vivendo nos Estados Unidos, sendo uma parcela significativa em situação migratória irregular. Muitos chegaram nas décadas de 1990 e 2000, quando o Brasil enfrentava altas taxas de desemprego e instabilidade econômica. Outros fugiram da violência ou buscaram melhores condições para seus filhos. Agora, após anos contribuindo com trabalho — em construção civil, limpeza, restaurantes, serviços de saúde — essas pessoas são tratadas como “invasores”.
Como aponta a socióloga Sayad Abdelmalek, em sua obra “A Dupla Ausência”, o imigrante sofre tanto por estar ausente de seu país de origem quanto por jamais ser plenamente aceito no país de destino. O imigrante é o “estrangeiro perpétuo”, útil quando serve, descartável quando incomoda.
A ausência de documentação dos filhos é sintomática de um fenômeno mais amplo: o medo crônico de interagir com o Estado. Muitos pais, vivendo há anos na ilegalidade, evitaram registros formais por temor de represálias. Agora, pagam um preço alto por essa invisibilidade burocrática — e emocional.
Mais do que números ou casos isolados, o que se desenha é uma crise de direitos humanos. A deportação em massa de pais e mães sem garantias mínimas para seus filhos, as prisões indiscriminadas e os relatos de maus-tratos a menores exigem uma reação firme não só do Brasil, mas da comunidade internacional.
O Estado brasileiro tem o dever de proteger seus cidadãos — estejam onde estiverem — e a comunidade brasileira no exterior, tantas vezes esquecida, precisa de mais do que repatriações emergenciais. Precisa de política de Estado, diplomacia ativa e, acima de tudo, humanidade.
Se a migração é um dos fenômenos mais antigos da história da humanidade, sua criminalização é um dos mais recentes e perigosos retrocessos da democracia contemporânea.
Preso antes da formatura, jovem brasileiro vira símbolo da resistência
O que era para ser um fim de semana de celebração virou um símbolo da violência institucional contra imigrantes nos Estados Unidos. Marcelo Gomes, 18 anos, estudante de ensino médio, jogador de vôlei e membro da banda escolar de Milford, Massachusetts, foi preso no sábado por agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement), quando se dirigia a um treino esportivo. No dia seguinte, ao invés de subir ao palco para receber seu diploma, ele se tornou o epicentro de um protesto comunitário contra a política de deportações em massa imposta pelo governo de Donald Trump.
A prisão, feita sem explicação formal e, segundo testemunhas, diante de amigos e colegas, gerou indignação generalizada e mobilizou até a governadora democrata Maura Healey, que assumiu publicamente a defesa do jovem. Em vídeo divulgado nesta terça-feira, Healey foi direta: “Estou pedindo que o ICE faça a coisa certa. Liberte Marcelo. Ele pertence à escola, não a uma prisão.”
Healey também revelou que os advogados de seu gabinete foram oficialmente designados para atuar na defesa do jovem, e uma liminar para suspender sua deportação foi prontamente apresentada e aceita pela Justiça.
“Marcelo vive em Milford desde os cinco anos de idade. Ele não tem antecedentes criminais, não representa ameaça e sequer era o alvo da operação. Ainda assim, foi levado como se fosse um criminoso”, afirmou a governadora em coletiva.
A operação migratória visava, segundo o ICE, prender o pai de Marcelo, proprietário do carro que o jovem conduzia. A justificativa escancarou o caráter arbitrário e desproporcional da abordagem — e reforçou denúncias de que a atual campanha de deportações ignora princípios básicos do devido processo legal, sobretudo quando envolve jovens sem histórico criminal ou ameaça à segurança pública.
A face jovem da repressão migratória
O caso de Marcelo Gomes humaniza uma política migratória que, nas palavras do ex-alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, “frequentemente se disfarça de segurança nacional, mas pratica a exclusão e o medo como políticas de Estado”.
A prisão do jovem provocou reações imediatas. Alunos de sua escola abandonaram as aulas em protesto. Comunidades locais organizaram vigílias, e ativistas de direitos humanos, políticos e juristas passaram a denunciar o caso como um abuso emblemático da nova meta de deportações imposta pelo governo federal: três mil prisões diárias, com o objetivo de remover 1 milhão de imigrantes em um ano — a maior campanha de deportações desde os anos 1950, quando a “Operação Wetback” expulsou cerca de 1,3 milhão de mexicanos dos EUA.
Em termos jurídicos e sociais, o caso lança luz sobre os limites da cidadania condicional vivida por milhões de jovens imigrantes nos EUA — muitos dos quais cresceram no país, estudam, trabalham, contribuem, mas vivem sob a ameaça constante de um Estado que lhes nega pertencimento formal. Essa ambiguidade é denunciada por teóricos como Ayelet Shachar, que define a cidadania moderna como “um sistema de castas legalizadas”, onde nascidos fora da linha de fronteira são relegados a um status inferior, mesmo que plenamente integrados à sociedade.
Presença diplomática e omissão histórica
A prisão de Marcelo também expôs o desafio do Brasil em proteger sua diáspora. Embora o Itamaraty tenha atuado para garantir assistência consular, a iniciativa de defesa foi tomada diretamente pelo governo estadual americano, não pelo consulado. Isso levanta questões sobre a prontidão das instituições brasileiras para lidar com as crises migratórias que afetam seus cidadãos no exterior — especialmente num contexto em que a comunidade brasileira nos EUA já ultrapassa 1,5 milhão de pessoas, segundo estimativas do Itamaraty.
Casos como o de Marcelo, de crianças algemadas em sedes do ICE, ou de mães presas sem saber se verão seus filhos novamente, revelam uma crise humanitária e de direitos humanos em curso — e exigem mais do que respostas diplomáticas pontuais. Requerem ação internacional coordenada, cobrança de responsabilidade legal e política da Casa Branca, e sobretudo, solidariedade pública e institucional.
Como alertou recentemente a relatora especial da ONU sobre migração, Felipe González Morales, “nenhuma política migratória pode ser legítima se ela desconsiderar a dignidade humana e o direito das crianças à convivência familiar”.
O caso de Marcelo ainda está em curso, mas já se consolidou como símbolo. Um símbolo da juventude imigrante que se recusa a ser apagada. Um alerta de que a democracia está em risco quando o Estado utiliza sua força para silenciar os que, paradoxalmente, mais contribuem para sua vitalidade cultural e econômica. E um lembrete — amargo, mas necessário — de que o exílio não começa quando se cruza a fronteira. Começa quando a lei abandona os mais frágeis.

Sonho interrompido
Durante dez anos, Luiz Fernando da Silva, 29 anos, viveu e dançou nos EUA com todos os documentos em ordem. Formado no prestigiado Miami City Ballet, ele subiu aos palcos de Washington, Chicago, Berkeley e Nova York, dançando com os maiores coreógrafos contemporâneos. Era, até abril deste ano, um exemplo de sucesso da diáspora brasileira nas artes. Mas, num episódio que reflete mais que uma negativa burocrática, Luiz Fernando viu sua carreira ser brutalmente interrompida: mesmo com contrato assinado com o tradicional Dance Theatre of Harlem, teve o visto de trabalho negado pelas autoridades migratórias americanas.
“Foi um choque. Nunca pensei que aconteceria comigo”, declarou o bailarino – agora de volta à sua cidade natal, Barra Mansa (RJ) – ao jornalista Jamil Chade (UOL). A negativa, segundo ele, foi acompanhada de uma justificativa vaga: após revisar as evidências enviadas — incluindo cartas de recomendação e um currículo impecável — a imigração decidiu que ele não preenchia os critérios necessários. “Se isso não é suficiente, o que vai ser?”, desabafou.
O caso de Luiz Fernando é mais do que um entrave administrativo. Ele revela como a arte, especialmente a praticada por corpos racializados e estrangeiros, pode ser filtrada pelas lentes da política migratória. Sob o governo Donald Trump, reeleito em 2024 com promessas de deportações em massa e fechamento das fronteiras, as barreiras migratórias deixaram de mirar apenas quem vive sem documentos: passaram a atingir seletivamente artistas, acadêmicos e profissionais de alta qualificação, num movimento que especialistas consideram uma “limpeza simbólica”.
Essa seletividade ecoa o que a filósofa Judith Butler chama de “vidas precárias” — aquelas cujas existências são politicamente menos valorizadas, ainda que preencham todos os requisitos legais e morais para pertencer. Para Luiz Fernando, imigrante, negro, latino, pobre e homossexual, sua presença nos palcos era, por si só, um ato de resistência:
“Eu preenchia várias minorias de uma vez só. Eu não queria mais participar daquilo e sacrificar meus valores. Queria ter voz — e não deixavam.”
Sua decisão de trocar o balé de Miami pelo Dance Theatre of Harlem, companhia negra de tradição histórica, foi um passo de afirmação pessoal e política. “Foi libertador. Uma companhia de pessoas que vivem a luta e a resistência. Ali eu poderia fazer a diferença.” Mas a esperança de recomeço esbarrou no veto do novo regime migratório.
Arte e exclusão: um roteiro que se repete
A trajetória de Luiz Fernando também dialoga com padrões históricos de exclusão na indústria artística americana. Desde os anos 1950, bailarinos negros enfrentam barreiras institucionais para ocupar posições de destaque nos grandes corpos de balé. A própria criação do Dance Theatre of Harlem, em 1969, foi uma resposta a essa exclusão — um espaço de excelência artística e afirmação racial, fundado por Arthur Mitchell, o primeiro bailarino negro do New York City Ballet.
Luiz não é o primeiro a ser atingido por essa barreira invisível. Sob Trump, milhares de artistas, professores universitários, pesquisadores e atletas estrangeiros tiveram vistos negados ou enfrentaram atrasos deliberados na tramitação de seus documentos. A política de “America First”, traduzida em termos migratórios, transformou até mesmo o campo da cultura em trincheira ideológica.
O que se vê, portanto, é uma interseção perversa entre xenofobia e racismo institucional, onde o talento não basta, o mérito não protege, e a identidade — quando considerada “fora do padrão” — é usada como critério informal de exclusão.
Uma história de superação, interrompida por discriminação
A história de Luiz Fernando é marcada por esforço, talento e persistência. Nascido em uma família humilde, começou a dançar aos 11 anos, enfrentando diariamente mais de uma hora de deslocamento até a escola de balé. Foi por meio de festivais e bolsas que chegou, aos 16 anos, às finais de um concurso em Nova York e, logo depois, ao Miami City Ballet, onde conquistou uma bolsa de formação.
Em 2016, recebeu seu primeiro contrato profissional, e desde então, percorreu os principais palcos americanos. Mas, como ele mesmo observou, o mérito nem sempre é suficiente. “Vi que muito dependeria de política, inclusive a política de entregar sua carreira para um diretor de companhia”, relatou.
Um drama pessoal que reflete a política de exclusão
De volta ao Brasil, Luiz tenta se reerguer. “Estou tentando me reencontrar”, diz, ainda abalado. “Essa decisão é algo que ocorre fora de nosso controle.” Agora, considera explorar novos caminhos na Europa e América Latina, embora ainda não tenha fechado as portas para os EUA. “Não sei se estou preparado para pedir um novo visto a um país onde eu tenho que me provar como ser humano.”
O caso de Luiz não é isolado, mas é emblemático. Ele mostra que as fronteiras migratórias, cada vez mais politizadas, não são apenas geográficas ou legais — são simbólicas, raciais e morais. Um artista que dança com perfeição pode ainda ser barrado por um sistema que vê seu corpo como um corpo “fora do lugar”.
Em tempos de recrudescimento nacionalista, Luiz Fernando é mais do que um bailarino impedido de subir ao palco. É o retrato de uma geração que desafia os limites impostos pela geopolítica da exclusão — e que insiste, mesmo ferida, em seguir dançando.
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