Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Morte de brasileiros expõe rotina de ataques no Líbano, diz jornalista
Publicado em 29/04/2026 3:47 - Agência Brasil
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A família brasileira-libanesa assassinada por Israel no Sul do Líbano buscava roupas e pertences na casa onde vivia, em Burj Qalowayh, no distrito de Bint Jbeil, quando a residência foi bombardeada. Até o momento, os corpos não foram encontrados nos escombros da casa, que ficou totalmente destruída.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP
Morreram no ataque a brasileira Manal Jaafar, de 47 anos; o filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos; e o pai do garoto, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. Eles haviam deixado a residência, às pressas, no início da atual fase do conflito, em 2 de março, e se refugiado em Beirute, a capital do país.
Com o cessar-fogo anunciado em 16 de abril, a família decidiu voltar para Bint Jbel a fim de pegar mais roupas e juntar outros pertences, antes de voltar novamente a Beirute. Eles haviam chegado ao Sul do Líbano no último sábado (25).
Irmão mais novo de Ghassan, o libanês-brasileiro Bilal Nader, de 43 anos, que vive em Foz do Iguaçu (PR), contou que ele planejava voltar no mesmo dia, mas acabou dormindo na casa para voltar no domingo (26), quando ocorreu o bombardeio.
“Quando teve o cessar-fogo, muita gente voltou para casa no amanhecer. Ele ainda esperou sete ou oito dias. Ele falou que ia só juntar as coisas e voltar, só para pegar mais roupa. Ele até estava com o carro ligado, sabe, com o porta-malas já carregado”, contou Bilal Nader.
O impacto da bomba ainda feriu outro filho do casal, o estudante Kassam Nader, de 21 anos, que estuda computação no Líbano. Ele recebeu alta hospitalar nesta terça-feira (28). O casal ainda tinha outros dois filhos mais velhos, de 28 e 26 anos, que vivem e trabalham no exterior.
Bilal Nader enfatizou que o irmão não tinha qualquer ligação com partido político, levando uma vida de agricultor de oliveiras no Sul do Líbano, e que tinha esperança de que a guerra fosse acabar.
“Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada. Inclusive, ele tem muitos amigos aqui, em Foz [do Iguaçu], no Brasil inteiro. Tem amigos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo. Ele era bem conhecido aqui”, contou.
Bilal Nader acrescentou que a região onde o irmão vivia não costumava ser palco dos combates recentes.
“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”, explicou.
A Agência Brasil procurou a Embaixada de Israel no Brasil para saber qual a posição do governo de Tel Aviv sobre o bombardeio à residência da família brasileira no Líbano, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
O Líbano abriga a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio. Ao todo, 22 mil brasileiros viviam no país em 2023, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores (MRE). O Brasil condenou os ataques ocorridos durante a vigência do cessar-fogo.
Família viveu no Paraná
A família brasileira-libanesa viveu por mais de 15 anos no Brasil, entre 1995 e 2008, onde a esposa Manal Jaafar teve filhos e adquiriu a nacionalidade brasileira. O marido Ghassan só não tirou a nacionalidade “por falta de tempo”, pois vivia ocupado no trabalho. Ele era um comerciante do ramo dos eletroeletrônicos.
O jornalista libanês naturalizado brasileiro Ali Farhat era amigo de Ghassan e conta que ele era uma pessoa muito culta. Formado em economia, escreveu um libro, em árabe, sobre a economia mundial.
“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”, contou Farhat à Agência Brasil.
Violações do cessar-fogo
O suposto cessar-fogo costurado no Líbano vem sendo violado por Israel. O Hezbollah, grupo político-militar xiita, tem informado que vai reagir às violações da frágil trégua. Por outro lado, o Irã vem pressionando que o cessar-fogo no Oriente Médio tem que incluir o Líbano.
De acordo com a Casa Branca, Israel poderia realizar ataques contra o Hezbollah apenas “em legítima defesa, a qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em curso”.
Sul do Líbano
O governo israelense vinha defendendo ocupar todo o Sul do Líbano até o Rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da atual fronteira entre os países, dizendo que não permitiria que a população civil voltasse para região.
O deslocamento forçado de população civil é considerado outro crime de guerra. No último dia antes do cessar-fogo, Israel bombardeou a última ponte que restava sobre o Rio Litani, a Ponte de Qasmiyeh, isolando a região ao Sul do resto do país e impedindo a conexão entre as cidades de Tiro e Sidon.
O especialista em geopolítica Anwar Assi afirmou à Agência Brasil que as ações de Israel no Sul do Líbano configuram uma limpeza étnica para expulsar os moradores da região e tomar esses territórios.
“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”, destacou Assi.
Por outro lado, Israel alega que busca criar uma zona de segurança contra ataques do Hezbollah.
Morte de brasileiros expõe rotina de ataques no Líbano, diz jornalista
O jornalista libanês Ali Farhat, que era amigo de Ghassan Nader, afirmou que a notícia foi recebida pela comunidade libanesa com muita decepção e que o caso revela o sofrimento de tantos outros parentes e amigos que moram nas áreas de guerra.
Farhat classificou como massacre os ataques israelenses ao povo libanês. “Israel está bombardeando a geografia do Líbano, a memória do Líbano, mesquitas, cemitérios, casas civis. Não tem nenhum ponto protegido no sul do Líbano, tampouco na capital Beirute. Israel está tentando praticar o genocídio parecido com o que praticou na Faixa de Gaza”, ressaltou o jornalista à Agência Brasil.
Farhat contou que a família de Ghassan e Manal fez parte da comunidade libanesa em Foz do Iguaçu (PR), onde eram bastante queridos. Na última conversa entre eles, antes de deixar o Brasil, Ghassan falou que a família queria se estabelecer no Líbano.
“O plano dele era fazer uma vida estável no Líbano, com a renda que ele tinha conseguido [trabalhando no comércio aqui no Brasil]. Ele queria cuidar mais da vida dele e da família dele, queria fazer algo bem leve para conseguir dar mais tempo para os estudos e para a vida social”, contou Farhat, que vive no país há 25 anos e integra a comunidade libanesa em Foz do Iguaçu.
O jornalista relatou que Ghassan gostava de pesquisar, fazer artigos e que não tinha envolvimento em questões de governo nem militares. “Eles moravam aqui de 1998 a 2010, mais ou menos. Eu conheci eles aqui, ele tinha feito um livro sobre a crise da economia global, eu tinha entrevistado ele, e a gente teve uma relação de amizade”, disse.
“Ele era um empresário aqui e era um ativista na comunidade libanesa, ativista humanitário, participava dos eventos sociais. Ele era uma pessoa intelectual, uma pessoa culta, sabia muito da área cultural e da área econômica. Ele era bem conhecido aqui na comunidade e todo mundo gostava dele”, mencionou.
Ataques israelenses contra o Líbano
O Líbano tem sofrido ataques israelenses, no contexto da ofensiva promovida por Estados Unidos e Israel contra países da região. Foi um desses ataques israelenses que matou a família em sua residência, no distrito de Bint Jeil, no sul do Líbano. A informação foi confirmada na noite de segunda-feira (27) pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
“O bombardeio israelense não diferencia entre militares e civis. E, sem aviso nenhum, eles estão atacando cidades, casas. Os números do Ministério da Saúde do Líbano indicam que a grande maioria são civis. O caso de Ghassan e sua família é de pessoas civis que estavam em casa quando ela foi bombardeada, como muitas famílias”, disse Farhat, que mora há 25 anos no Brasil e tem parentes vivendo no Líbano.
Melina Manasseh, que também pertence à comunidade libanesa brasileira e integra a Federação Árabe da Palestina no Brasil, avalia que a atual ocupação israelense no Líbano se dá nos moldes do que acontece na Palestina. “Fiquei muito triste em saber que essa família com brasileiros foi ceifada, assim como tantas outras, dada a política bélica expansionista de Israel.”
“Não é a primeira vez que um brasileiro é morto pelas forças da ocupação. Israel nunca cumpriu uma única resolução da ONU quanto à Palestina e ocupou de forma militar o sul do Líbano por 18 anos. A ocupação militar não é a mesma que hoje se preconiza. Essa ocupação de hoje é a mesma que se dá na Palestina, ocupação de assentamento”, disse.
Manasseh, que tem familiares vivendo no norte do Líbano e em Beirute, diz que a notícia da morte dos dois brasileiros não levou, no entanto, à grande mobilização da comunidade a sua volta.
“Os libaneses são, assim como os palestinos, orgulhosos e otimistas. Sempre acham que em breve irá passar. Infelizmente, a diáspora libanesa, que conta com 9 milhões de descendentes no Brasil, não se organiza o suficiente”.
Entenda
A atual fase da guerra que envolve Israel e Líbano teve início em outubro de 2023, quando o Hezbollah iniciou ataques contra o Norte de Israel em solidariedade ao povo palestino, diante dos massacres na Faixa de Gaza.
Em novembro de 2024, foi costurado um acordo de cessar-fogo entre o grupo político militar xiita e Tel Aviv. Porém, o acordo nunca foi respeitado por Israel, que continuava realizando ataques no Líbano.
Com o início da agressão contra o Irã, o Hezbollah voltou a atacar Israel, em 2 de março, em resposta às violações sistemáticas do cessar-fogo nos últimos meses e também em retaliação ao assassinado do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei.
No dia 8 de abril, foi anunciado o cessar-fogo da guerra no Irã, mas Israel continuou com ataques no Líbano, desrespeitando novamente o acordo, dessa vez, costurado pelo Paquistão.
História
O conflito entre Israel e o Hezbollah remonta à década de 1980, quando a milícia xiita foi criada em reação à invasão e ocupação de Israel no Líbano para perseguição dos grupos palestinos que buscavam refúgio no país vizinho.
Em 2000, o Hezbollah conseguiu expulsar os israelenses do país. Ao longo dos anos, o grupo se tornou um partido político com assentos no Parlamento e participação nos governos.
O Líbano ainda foi atacado pelo governo de Israel em 2006, 2009 e 2011.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Deixe um comentário