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Entenda a atual onda de protestos no país
Publicado em 25/05/2026 12:46 - Semana On
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O ex-presidente boliviano Evo Morales pediu, ontem (24), que o governo convoque novas eleições dentro de 90 dias, em meio aos protestos contra o governo de Rodrigo Paz.
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Paz, que está no poder há seis meses, enfrenta a pior crise econômica do país em quarenta anos, decorrente da escassez de dólares.
Paz “tem dois caminhos: uma decisão suicida, a militarização, ou (…) pacificação, transição e eleições em 90 dias”, disse Morales neste domingo durante seu programa de rádio semanal na emissora do movimento cocaleiro, Kawsachun Coca.
Os manifestantes resistem às reformas propostas pelo governo e o acusam de ignorar suas reivindicações. Paz, por sua vez, afirma que Morales está por trás dos protestos.
Nas últimas três semanas, dezenas de rodovias que levam a La Paz, a sede do governo, foram bloqueadas por manifestantes, o que gerou escassez de alimentos, medicamentos e combustível na cidade e agravou os efeitos da inflação, que atingiu 14% em abril, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
“Para evitar mortes e feridos, a pacificação depende” de sua renúncia e de um “presidente de transição” que convoque eleições dentro desse prazo, afirmou.
O governo boliviano denunciou essas manifestações perante a OEA, alegando que elas visam “desestabilizar a ordem democrática”, e acusou Morales, um foragido procurado por suposto tráfico de uma menor, de instigá-las.
Presidente entre 2006 e 2019, o líder dos cocaleiros foi impedido de participar das eleições presidenciais do ano passado após uma decisão constitucional que limitou as reeleições.
Entenda a atual onda de protestos na Bolívia
A situação atual na Bolívia é explosiva. Literalmente: pequenas cargas de dinamite têm sido detonadas nos protestos antigoverno que tomaram o país andino, segundo a imprensa local.
Há semanas estradas federais vêm sendo bloqueadas, e agora a situação se agrava na capital administrativa, La Paz. Manifestantes invadiram prédios públicos e ergueram dezenas de bloqueios, alimentos e combustíveis ficaram retidos. Em alguns hospitais chegou a faltar cilindros de oxigênio, e bancos foram fechados por precaução.
Economistas alertam que os protestos podem agravar a situação do país, e o Departamento de Estado americano classificou os distúrbios como “tentativa de golpe”.
Abaixo, alguns pontos para entender a atual crise.
Qual é a situação política na Bolívia?
Mesmo antes das eleições de 2025, a situação econômica da Bolívia já era ruim. Exportações fracas deixaram o país sem moeda estrangeira – necessária, por exemplo, para a importação de combustíveis.
Após quase 20 anos de um governo de esquerda, marcado por forte influência estatal na política econômica sob os presidentes Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025), os bolivianos fizeram uma escolha clara: levaram ao segundo turno dois candidatos mais à direita, que prometiam capitalismo para todos e reformas econômicas.
O então favorito Jorge Quiroga queria recolocar a Bolívia nos trilhos com uma injeção financeira do Fundo Monetário Internacional. No fim, venceu o político de centro-direita Rodrigo Paz, que fez campanha pela modernização do Estado sem ajuda externa.
Apesar de o Partido Democrata Cristão (PDC) de Paz ter conquistado maioria no Parlamento para aprovar seus projetos, especialistas já previam que ele teria um governo difícil pela frente. Segundo Christina Stolte, diretora do escritório boliviano da Fundação Konrad Adenauer, entidade ligada ao partido conservador alemão União Democrata-Cristã (CDU), o PDC não seria ideologicamente coeso nem particularmente próximo de Paz.
“O PDC não garante ao presidente recém-eleito nenhuma base partidária coerente no Parlamento, muito menos um comportamento disciplinado de voto segundo as linhas por ele estabelecidas”, escreveu Stolte em uma análise publicada em outubro.
Qual é a situação econômica na Bolívia?
A escassez de divisas ao longo de anos e a alta dependência de importações fizeram a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia subir para 95% até 2025.
Uma das primeiras medidas de Paz para recompor o orçamento do Estado foi considerada sensata por observadores, mas dolorosa para a população: na virada do ano, ele cortou os subsídios à gasolina, fazendo com que os preços nos postos quase dobrassem. Esse salto repentino turbinou a inflação, em conjunto com outros fatores internos.
Em certa medida, a inflação foi ainda mais impulsionada por influências externas, como o aumento global de preços em consequência da guerra no Irã. Em abril de 2026, o poder de compra era 14% menor do que um ano antes, segundo dados oficiais. Essa alta taxa de inflação afeta principalmente os mais pobres.
Quem protesta – e quem apoia os protestos?
Sindicatos reagiram ao aumento dos preços exigindo reajustes salariais e o restabelecimento dos subsídios à gasolina. Essas reivindicações atraíram rapidamente uma aliança heterogênea e circunstancial de agricultores, mineiros, professores, trabalhadores de outros setores e grupos indígenas.
O governo Paz cedeu a uma outra reivindicação: revogou uma lei aprovada apenas um mês antes, que previa que proprietários rurais pudessem oferecer pequenos terrenos como garantia para empréstimos bancários. Os manifestantes afirmavam que isso poderia levar pequenos agricultores a perderem suas terras para conglomerados do agronegócio.
O governo conseguiu retirar o tema da pauta, mas não conseguiu evitar uma crise política quando os primeiros manifestantes passaram a exigir a renúncia de Paz, ensejando grandes manifestações pela COB, a maior central sindical. Poucos dias depois, a Procuradoria-Geral emitiu um mandado de prisão por terrorismo e incitação contra o presidente da COB, Mario Argollo.
Chamados aos protestos também vieram do entorno do ex-presidente Evo Morales. O governo suspeita de uma conspiração: sem apresentar provas, o ministro da Economia, Jose Gabriel Espinoza, classificou os manifestantes como “agentes políticos” que serviriam de apoio à tentativa do “produtor de coca” Morales de voltar ao poder.
Let there be no mistake: the United States stands squarely in support of Bolivia’s legitimate constitutional government.
We will not allow criminals and drug traffickers to overthrow democratically elected leaders in our hemisphere.
— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) May 20, 2026
O que pode acontecer agora?
Na semana passada o presidente Paz anunciou uma reforma ministerial e se comprometeu a ouvir melhor a população. Além disso, prometeu envolver representantes de manifestantes nas decisões de governo através de um “Conselho Econômico e Social”. Ao mesmo tempo, afirmou que não negociará com “vândalos”.
Os Estados Unidos já se posicionaram claramente em apoio ao governo Paz e condenaram todas os protestos. “Não permitiremos que criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos em nosso hemisfério”, declarou nesta semana o chefe da diplomacia americana, Marco Rubio.
Antes disso, os países vizinhos Peru, Chile, Argentina e Paraguai, assim como quatro países da América Central, também já haviam expressado apoio ao governo Paz. A União Europeia e cinco embaixadas europeias pediram, em uma nota conjunta, que as partes em conflito dialoguem.
Uma questão decisiva é se o presidente Rodrigo Paz conseguirá se manter no poder – e em que medida mediadores internos ou externos poderão abrir espaço para compromissos. Também se atribui grande influência a Morales, tanto para acirrar a crise quanto para desescalá-la.
A longo prazo, a Bolívia precisaria resolver seus problemas econômicos estruturais para estabilizar a situação. No curto prazo, porém, parece que até Paz considera inevitável contrair novas dívidas. Já antes do início dos protestos, seu governo negociou um novo empréstimo de 200 milhões de dólares (R$ 1 bilhão) com o Banco Mundial, destinado a amortecer os impactos sociais do aumento dos preços. Maior margem de manobra deve vir dos 4,5 bilhões de dólares (R$ 22,5 bilhões) prometidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. E, após o início dos protestos no começo de maio, tornaram-se públicas negociações com o Fundo Monetário Internacional sobre até 3,3 bilhões de dólares (R$ 16,5 bilhões).
Para o futuro da Bolívia, será decisivo como o governo utilizará essa nova margem de manobra – e quanta margem os protestos, afinal, vão lhe conceder.
‘Governabilidade na Bolívia depende do povo, não das elites’, afirma pesquisadora
Segundo Tatiane Anju Watanabe, doutoranda em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC), a gestão direitista está ameaçando conquistas históricas, consolidadas ao longo das últimas décadas dos governos socialistas no país.
Pesquisadora do Grupo de Estudos e Análises da América Latina Contemporânea (GEALC), Watanabe disse a Opera Mundi, que, historicamente no país, é o apoio popular que garante a governabilidade. “Na Bolívia, é o povo que mantém os presidentes”.
Para Watanabe, os bolivianos são mais politizados do que os brasileiro, afirmando que o país vizinho “é de muitas lutas e vitórias”, mencionando que os setores que estão nas ruas se formaram nas lutas e conquistas da Revolução Nacional de 1952 e do Estado Plurinacional instaurado pelo ex-presidente Evo Morales, em 2006.
Ela também frisa que, ao contrário do que alega a direita boliviana, Evo apoia as manifestações, mas não está por trás delas, muito menos planeja um golpe de Estado, do qual foi vítima em 2019. A causa da insurreição popular, destaca a pesquisadora, é o próprio desmonte de conquistas históricas perpetrado pelo atual governo.
Tatiane Watanabe: os bolivianos estão protestando contra as medidas que o presidente do país, Rodrigo Paz Pereira, tomou ao longo desses seis meses de governo. Estamos na terceira semana de um levante popular, o maior desde a insurreição do início deste século. A primeira onda ocorreu no segundo mês do governo, iniciado em novembro de 2025, quando Paz anunciou um pacote econômico fortemente neoliberal, incluindo o decreto 5503 que eliminou os subsídios aos combustíveis, implementados pelo governo Evo, que congelava os preços dos combustíveis por quase 20 anos. O presidente alegou que os subsídios prejudicavam o Estado e que era preciso eliminá-los.
Em seu programa de governo, na época das eleições, ele já colocava muito claramente uma concepção de Estado como uma empresa, acenando políticas neoliberais, como abertura às exportações e o fomento de iniciativas privadas e público-privadas. Assim que anunciou as medidas de seu governo, o presidente boliviano encontrou forte resistência, grandes mobilizações tomaram as ruas bolivianas por quase um mês. Ele voltou atrás em várias questões, mas manteve a eliminação dos subsídios aos combustíveis, o que promoveu um aumento de 86% da gasolina e de mais de 160% do diesel, gerando um forte aumento do custo de vida.
Agora, os motoristas estão mobilizados, além de outros setores como os estudantes e professores que fizeram uma grande manifestação em El Alto, onde ocorreu a Guerra do Gás. São diversos setores mobilizados porque o aumento dos combustíveis afeta a vida de todos.
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