Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

EUA intensificam pressão e provocam alerta global sobre petróleo e soberania

Manobras militares sob pretexto antidrogas são denunciadas como tentativa de apropriação do petróleo venezuelano

Publicado em 01/12/2025 1:29 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Num cenário que parece saído de um roteiro distópico, o Secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, zombou dos bombardeios realizados no Caribe com uma montagem infantil publicada nas redes sociais. A imagem mostra uma tartaruga verde — personagem de desenho animado popular nos EUA — lançando mísseis de um helicóptero contra embarcações, supostamente de traficantes. O deboche surge em meio a uma escalada militar norte-americana contra a Venezuela, envolta em acusações de crimes de guerra, denúncias de tentativa de apropriação de petróleo e tensões geopolíticas com potencial explosivo.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Enquanto Hegseth satiriza os ataques — que já deixaram ao menos 83 mortos, segundo a própria mídia norte-americana —, o presidente venezuelano Nicolás Maduro enviou uma carta oficial à Opep denunciando que os Estados Unidos pretendem se apoderar, pela força militar, das maiores reservas de petróleo do mundo, localizadas em território venezuelano. A denúncia não é isolada: a mobilização norte-americana envolve navios de guerra, caças, mais de 15 mil militares e o maior porta-aviões do planeta posicionado no Caribe.

Sob a justificativa de combater o narcotráfico, Donald Trump autorizou ações clandestinas da CIA, lançou ataques letais a embarcações civis e declarou que “em breve” dará início a operações por terra na Venezuela. Segundo a ONU, os bombardeios equivalem a “execuções extrajudiciais”, contrariando convenções internacionais sobre o uso da força e os direitos humanos. A organização se soma a uma crescente lista de vozes internacionais que veem nas ações americanas uma ameaça à paz regional e à soberania dos povos.

A geopolítica do petróleo

A acusação de Maduro à Casa Branca não é novidade no repertório da política latino-americana. Desde o início do século XX, os Estados Unidos exerceram uma política externa agressiva nas Américas, conhecida como Doutrina Monroe, cujo lema “a América para os americanos” serviu de justificativa para intervenções militares, golpes de Estado e imposição de regimes autoritários alinhados aos seus interesses econômicos e estratégicos.

A Venezuela, detentora das maiores reservas provadas de petróleo do planeta, ocupa lugar central neste tabuleiro. Desde Hugo Chávez, o país se afastou da órbita de Washington e fortaleceu laços com adversários geopolíticos dos EUA, como Rússia, China e Irã. A partir daí, sanções econômicas severas, isolamento diplomático e tentativas de desestabilização interna passaram a marcar a relação entre os dois países. A atual ofensiva militar, sob o pretexto da guerra às drogas, repete a fórmula já usada no Iraque (2003), quando as armas químicas inexistentes justificaram a invasão e controle das reservas petrolíferas do Golfo.

Segundo o cientista político norte-americano Noam Chomsky, “a guerra contra o terrorismo e o narcotráfico frequentemente serve de manto ideológico para promover os interesses econômicos e estratégicos das potências hegemônicas”. A atual crise no Caribe parece confirmar esse diagnóstico com precisão perturbadora.

O cerco aéreo e o colapso das conexões internacionais

Como parte da operação militar, Donald Trump declarou “fechado” o espaço aéreo venezuelano, levando seis companhias aéreas internacionais — entre elas Iberia, TAP, Avianca, GOL e Turkish Airlines — a suspenderem seus voos. O governo Maduro revogou as licenças dessas empresas, acusando-as de aderirem “ao terrorismo de Estado promovido pelos EUA”. A medida afeta diretamente a conectividade do país com o exterior, prejudica o turismo (inclusive o russo, que vinha crescendo na ilha de Nueva Esparta) e aprofunda o isolamento diplomático e econômico da Venezuela.

A estratégia, por parte dos EUA, de sufocar logisticamente o regime chavista lembra o bloqueio a Cuba, que por décadas impediu o desenvolvimento econômico da ilha sob o pretexto de conter o comunismo. Mais uma vez, o resultado tende a recair sobre a população civil, e não sobre as elites governantes.

Crimes de guerra e banalização da violência

Entre os dados mais alarmantes da crise está a suspeita de que o Secretário de Guerra dos EUA tenha ordenado a execução sumária de sobreviventes de um ataque no mar do Caribe, conforme revelou o Washington Post. Segundo o jornal, após o disparo de um míssil contra uma embarcação, dois tripulantes sobreviventes foram avistados agarrados aos destroços. Hegseth teria então ordenado um segundo ataque — ação que configura crime de guerra segundo o Direito Internacional Humanitário. Mesmo diante da gravidade da acusação, Donald Trump reafirmou “confiança total” em seu secretário.

A naturalização da violência militar por parte de líderes de Estado evidencia um processo de erosão moral das democracias liberais, alertado por teóricos como Judith Butler, que chama atenção para o conceito de “vidas precárias” — aquelas cuja morte não gera comoção, nem escândalo. No caso, as vidas de latino-americanos em embarcações frágeis são tratadas como descartáveis, invisíveis.

Silêncio e omissão da comunidade internacional

Enquanto as denúncias se acumulam, o silêncio de boa parte da comunidade internacional e de organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) revela o desequilíbrio de forças no sistema internacional. A própria Opep, embora tenha sido acionada por Maduro, não emitiu qualquer nota pública de repúdio às ações americanas. A realpolitik prevalece: o medo de enfrentar Washington impede ações concretas, mesmo diante de possíveis violações graves dos Direitos Humanos e do Direito Internacional.

A ausência de mediação diplomática efetiva contribui para o agravamento da tensão, empurrando a região para um conflito de alta periculosidade geopolítica.

A crise no Caribe não é apenas um embate entre dois líderes — Trump e Maduro — ou entre duas ideologias. Ela expõe, em essência, os dilemas da ordem mundial contemporânea: a soberania dos Estados nacionais, o uso legítimo da força, o respeito aos direitos humanos e o controle dos recursos estratégicos.

Sob o disfarce da guerra às drogas, o que se desenha é a tentativa de reconfiguração de zonas de influência e a imposição, à força, de um novo realinhamento político na América Latina. O silêncio diante da tragédia pode, mais uma vez, se converter em cumplicidade histórica.

Como ensinava Eduardo Galeano, “a história da América Latina é a história da violação sistemática de sua soberania em nome da liberdade”. Resta saber quantas vezes ainda este ciclo precisará se repetir até que a liberdade deixe de ser apenas retórica — e passe a ser, de fato, direito dos povos.

Putin e Trump rotulam dissidentes como terroristas em estratégia de repressão política


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *