Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Governos russo e norte-americano revelam tática autoritária de silenciar opositores e movimentos sociais
Publicado em 27/11/2025 12:36 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Neste mês, duas ações de governos de viés autoritário acenderam um sinal de alerta global sobre o uso político da retórica antiterrorista: a Rússia de Vladimir Putin declarou como “organização terrorista” a fundação anticorrupção do opositor Alexei Navalny, morto em circunstâncias suspeitas, enquanto os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, classificaram movimentos antifascistas europeus como grupos terroristas. Separadas por continentes, culturas e ideologias oficiais, as duas decisões se encontram em uma mesma lógica autoritária: redefinir a dissidência como crime, equiparando opositores políticos a inimigos do Estado.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A estratégia, longe de ser nova, está ancorada em um longo histórico de regimes que buscam se blindar da crítica pública e da pressão social convertendo adversários em ameaças existenciais. Em contextos autoritários, a construção do “inimigo interno” tem função política clara: restringir liberdades civis, intimidar a população e deslegitimar a oposição. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, já advertia que regimes autoritários tendem a substituir o conflito político pela guerra moral contra inimigos definidos de forma ampla e vaga, facilitando sua eliminação simbólica e, muitas vezes, física.
Putin: o terror como silenciador da memória
Na Rússia, a Suprema Corte declarou a Anti-Corruption Foundation (FBK), criada por Navalny, como uma organização terrorista — medida que expõe seus membros e apoiadores a penas severas, incluindo prisão perpétua. Segundo a Corte, a fundação promovia e justificava o terrorismo, embora nenhuma prova concreta de ações violentas tenha sido apresentada. A organização, na verdade, era conhecida por investigar e denunciar escândalos milionários de corrupção entre as elites do Kremlin — entre eles, o caso do suposto “palácio secreto” de Putin.
Para a equipe de Navalny, a decisão da Corte visa intimidar qualquer um que continue disseminando os trabalhos do ativista morto. “Os verdadeiros terroristas são Putin e seus cúmplices, os que desencadearam a guerra na Ucrânia e matam civis e opositores políticos”, escreveram em comunicado via Telegram. A Anistia Internacional foi enfática: a medida é uma tentativa de “desmantelar o legado de Navalny e esmagar qualquer foco de dissidência restante”.
É o ápice de um processo que começou anos antes, com a proibição do FBK sob a acusação de “extremismo”. Ao longo de sua trajetória, o governo Putin promoveu um desmonte meticuloso da sociedade civil russa, classificando ONGs como “agentes estrangeiros” e jornalistas independentes como traidores. Com Navalny fora de cena — e com sua viúva Yulia Navalnaia assumindo o ativismo político — a reclassificação do grupo como terrorista não é apenas uma manobra legal: é uma tentativa de apagar a memória e o símbolo de resistência que Navalny representa.
Trump: antifascismo no banco dos réus
Do outro lado do Atlântico, Donald Trump reproduz a mesma lógica, mas com o verniz da legalidade constitucional norte-americana. Em sua nova investida, o governo republicano designou como organizações terroristas grupos antifascistas europeus, como o Antifa Ost (Alemanha) e a Frente Revolucionária Internacional da Itália. A acusação, segundo o Departamento de Estado, é a de “usar a força contra aqueles que identificam como oponentes de seus projetos marxistas e anarquistas”.
A retórica oficial é alarmante. “Os anarquistas, marxistas e extremistas violentos da antifa têm travado uma campanha de terror […] contra os fundamentos da civilização ocidental”, afirmou o porta-voz Tommy Pigott. Ao adotar tal linguagem, o governo Trump expande o conceito de terrorismo para abranger, de forma indiscriminada, ideologias de esquerda e movimentos sociais.
O cerco se ampliou em setembro, quando Trump assinou um memorando que instrui agências federais a priorizarem investigações sobre grupos “antiamericanos”, incluindo os que promovem justiça racial, imigração, igualdade de gênero ou críticas ao cristianismo. Essa generalização permite que ativistas pró-imigração, sindicalistas e defensores de direitos civis passem a ser monitorados como potenciais terroristas. A conflagração do dissenso se institucionaliza.
Quando o inimigo é a democracia
O uso do conceito de terrorismo como arma política tem raízes profundas no século XX. Da perseguição a comunistas durante o macartismo nos EUA, à doutrina de segurança nacional nas ditaduras latino-americanas, a lógica é semelhante: qualquer pensamento divergente do poder central é associado ao caos e à subversão. A diferença agora é que a retórica antiterrorismo, especialmente após o 11 de Setembro, oferece um aparato jurídico e simbólico ainda mais eficaz para silenciar vozes críticas sob o pretexto de proteger a nação.
A tática empregada por Trump e Putin se ancora no medo. E o medo, como mostra Michel Foucault em Vigiar e Punir, é uma das ferramentas mais potentes do poder disciplinar: regula comportamentos, impõe autocensura e mina solidariedades. Quando o ativismo é criminalizado, o espaço público se esvazia, e a política se torna monólogo.
Além disso, essa estratégia retórica de classificar opositores como terroristas mina os pilares da democracia liberal: o pluralismo, o direito à dissidência, a liberdade de expressão e o Estado de Direito. Ao fazer do “terrorismo” uma categoria subjetiva e politicamente manipulável, esses governos não combatem a violência — ao contrário, cultivam um estado permanente de exceção.
Se há algo que une Putin e Trump nesta cruzada, é a tentativa de redefinir os termos do debate público. Para ambos, o problema não é a corrupção, a desigualdade ou o autoritarismo, mas sim aqueles que ousam nomeá-los. Sob o pretexto de proteger a segurança nacional, ambos avançam contra as bases da convivência democrática.
Como alerta o historiador Timothy Snyder, em Sobre a Tirania, “a primeira defesa da liberdade é a coragem cívica de chamar as coisas pelo nome”. Nomear, neste contexto, é essencial: Navalny era um opositor legítimo, não um terrorista. Os antifascistas são militantes políticos, não conspiradores violentos. O verdadeiro perigo está nos que governam por medo e se mantêm no poder pelo silenciamento.
Deixe um comentário