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Mundo

EUA apreendem petroleiro russo no Atlântico: China denuncia ‘Intimidação’

Chantagem: Trump exige 50 milhões de barris da Venezuela

Publicado em 07/01/2026 10:52 - Semana On

Divulgação Reprodução

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As Forças Armadas dos Estados Unidos apreenderam, no Atlântico Norte, um petroleiro venezuelano que passou a ostentar bandeira russa e vinha sendo perseguido por Washington há vários dias. A ação foi confirmada pelo Comando Europeu das Forças Armadas dos EUA em publicações nas redes sociais e marca mais um capítulo da escalada militar norte-americana no controle de rotas energéticas globais.

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A operação ocorreu poucas horas depois de a Rússia enviar ao menos um submarino para escoltar a embarcação, numa demonstração explícita de tensão entre as potências. Segundo o Wall Street Journal, os EUA tentavam apreender o navio há cerca de duas semanas, sob o argumento de interromper um suposto “mercado ilícito” de combustíveis fósseis — conceito cada vez mais elástico quando aplicado a interesses estratégicos de Washington.

Dados de rastreamento de voos indicam que diversas aeronaves militares americanas partiram de bases no Reino Unido em direção ao petroleiro. Informações de navegação analisadas pelo New York Times mostram que o navio realizou uma manobra brusca no início da manhã, possivelmente numa tentativa de escapar da abordagem. Imagens divulgadas pela emissora estatal russa RT mostram um helicóptero militar se aproximando da embarcação, sugerindo uma tentativa de embarque forçado.

Outro petroleiro foi interceptado no Caribe. De acordo com um oficial da Guarda Costeira dos EUA ouvido pelo New York Times, o navio M Sophia navegava sob bandeira camaronesa. As ações simultâneas reforçam a estratégia de cerco naval adotada por Washington para impor, pela força, suas sanções econômicas.

O navio apreendido, atualmente chamado Marinera — anteriormente Bella 1 — está oficialmente listado como vazio. Ainda assim, segundo o Wall Street Journal, conseguiu deixar águas venezuelanas apesar das sanções impostas pelos EUA. A embarcação era perseguida desde que rompeu o bloqueio norte-americano, frustrando uma tentativa de abordagem da Guarda Costeira em 21 de dezembro.

Sancionado desde 2024, quando ainda tinha registro no Panamá, o petroleiro era acusado pelos EUA de integrar uma suposta “frota fantasma” responsável por transportar petróleo entre Rússia, Irã e Venezuela. Após surgir no registro oficial russo com um novo nome, a própria tripulação chegou a pintar uma bandeira da Rússia no casco, numa tentativa explícita de reivindicar proteção diplomática de Moscou e dificultar a apreensão.

A Rússia apresentou protesto diplomático exigindo o fim da perseguição ao navio. Sob status russo, os trâmites legais para uma apreensão tornam-se mais complexos — obstáculo que, ao que tudo indica, não freou a disposição de Washington de agir unilateralmente.

A ofensiva contra petroleiros ocorre em meio à deposição do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Ao menos 16 navios sancionados conseguiram deixar a Venezuela após a operação que resultou na captura do ex-presidente. Proibidos formalmente de zarpar, muitos desapareceram dos radares, indicando uma fuga desordenada diante da pressão militar norte-americana.

China acusa EUA de intimidação

O avanço dos EUA sobre o petróleo venezuelano provocou reação imediata da China. Os preços globais do petróleo recuavam nesta quarta-feira, enquanto Pequim acusava Washington de “intimidação” após declarações do governo do presidente Donald Trump de que teria convencido a Venezuela a redirecionar cargas destinadas à China para exportação aos Estados Unidos — até US$ 2 bilhões em petróleo bruto sancionado.

A iniciativa está alinhada ao objetivo declarado de Trump de controlar as vastas reservas venezuelanas, apesar de o país já deter as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Trata-se de uma lógica que combina sanções, força militar e apropriação econômica, sob o discurso de “restauração democrática”.

Embora aliados do Partido Socialista de Maduro permaneçam no poder, a presidente interina Delcy Rodríguez tenta equilibrar denúncias do que chama de “sequestro” do ex-presidente com sinais de cooperação forçada, diante de ameaças explícitas de Washington.

Trump afirmou que os EUA pretendem se apropriar, refinar e vender até 50 milhões de barris de petróleo retidos na Venezuela, declarando que os recursos seriam “controlados” diretamente por ele. “Esse dinheiro será controlado por mim, como presidente dos Estados Unidos”, escreveu nas redes sociais — uma afirmação que escancara o caráter personalista e extraterritorial da política adotada.

Fontes da estatal PDVSA confirmaram à Reuters o avanço das negociações, embora Caracas não tenha feito anúncios oficiais. O aumento esperado da oferta contribuiu para a queda de cerca de 1% nos preços do petróleo nos mercados globais.

Segundo analistas, o acordo pode exigir o redirecionamento de cargas que tradicionalmente abastecem a China, principal compradora do petróleo venezuelano. Pequim, que importou cerca de 389 mil barris diários em 2025, respondeu com críticas duras. “O uso descarado da força pelos Estados Unidos e a imposição do ‘América em primeiro lugar’ são atos típicos de intimidação”, afirmou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning.

China, Rússia e aliados regionais denunciam a captura de Maduro como a maior intervenção dos EUA na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989. Mesmo aliados tradicionais de Washington demonstram desconforto com o precedente aberto pela prisão de um chefe de Estado estrangeiro — agravado por novas ameaças de Trump envolvendo países como México e até a Groenlândia.

A mensagem é clara: sob a retórica de ordem e legalidade, a política externa de Trump reafirma uma visão imperial, em que soberania alheia é um detalhe descartável quando colide com interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Na OEA, Brasil chama captura de Maduro de sequestro

O governo brasileiro classificou ontem (6), na reunião extraordinária da Organização dos Estados Americanos (OEA) realizada em Washington, de sequestro a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos.

“Os bombardeios no território da Venezuela e o sequestro de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”, afirmou o representante permanente do Brasil na OEA, Benoni Belli.

Até agora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e representantes da diplomacia brasileira haviam se referido como captura à ação das forças especiais americanas que, no sábado passado, resultou na detenção de Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

A palavra sequestro também foi usada pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e por várias autoridades venezuelanas.

Em seu discurso, no qual não mencionou expressamente os Estados Unidos, Belli reiterou que os ataques à Venezuela representam “uma afronta gravíssima à soberania” desse país e “ameaçam a comunidade internacional com um precedente extremamente perigoso”.

“As agressões militares conduzem a um mundo em que a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. Não podemos aceitar o argumento de que os fins justificam os meios”, afirmou.

Além disso, ele ressaltou que a Carta das Nações Unidas foi “claramente violada” e reafirmou a América Latina e o Caribe como uma “zona de paz”.

“A ação que acaba de ocorrer (…) evoca os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe”, declarou.

Nesse contexto, o diplomata afirmou que o Brasil “está determinado a agir” em prol da “preservação do patrimônio regional da paz”.

“O Brasil está convencido de que somente um processo político inclusivo, liderado pelos venezuelanos e livre de interferências externas, pode conduzir a uma solução que respeite a vontade do povo venezuelano e a dignidade humana no país”, concluiu.

Em reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, nesta segunda-feira, o embaixador do Brasil, Sérgio Danese, também disse que não é possível aceitar o argumento de que os fins justificariam os meios na intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela.

O governo brasileiro reconheceu já no sábado, poucas horas após a captura de Maduro em Caracas e sua transferência para Nova York para responder por acusações de narcoterrorismo, a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela.

Lula e Delcy, que tomou posse como presidente interina no parlamento venezuelano, também conversaram brevemente por telefone para abordar a situação da Venezuela após os bombardeios dos EUA.

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