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Mundo
Venezuelanos dizem que “Cartel de los Soles” é invenção do trumpismo
Publicado em 24/11/2025 2:20 - Semana On
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Nos bastidores da diplomacia e sob a retórica de combate ao narcotráfico, os Estados Unidos parecem preparar uma nova fase de confrontação com a Venezuela. O anúncio de que Washington poderá lançar “em breve” novas operações no país vizinho — conforme revelou a agência Reuters, com base em fontes oficiais anônimas — reacende um dos enredos mais recorrentes da política externa norte-americana: o intervencionismo justificado por ameaças à segurança nacional. Agora, sob o pretexto da guerra às drogas, os EUA intensificam sua presença militar no Caribe, ampliam a pressão sobre o governo de Nicolás Maduro e classificam como terrorista um suposto cartel que Caracas afirma ser pura invenção.
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De acordo com as reportagens da Reuters e do New York Times, a nova ofensiva, ainda sem data ou escopo confirmados, foi alimentada por um aumento significativo do poderio militar norte-americano na região. O deslocamento do porta-aviões Gerald R. Ford, somado a oito navios de guerra, um submarino nuclear e aviões de combate F-35, evidencia que a estratégia vai além da retórica. Ao mesmo tempo, a CIA recebeu autorização para intensificar suas ações secretas no território venezuelano, e o próprio presidente Donald Trump afirmou que está “preparado para usar todos os recursos do poder americano”.
Guerra às drogas ou guerra pelo petróleo?
O governo Trump justificou o cerco alegando que Maduro estaria à frente do “Cartel de los Soles”, uma suposta organização de narcotráfico que operaria com respaldo de altos oficiais do Exército venezuelano. O nome faz alusão aos sóis usados como insígnia pelos generais do país. Segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, o cartel foi designado como “Organização Terrorista Global Especialmente Designada” em julho, o que congelou seus ativos nos Estados Unidos e proibiu transações financeiras com ele.
A Venezuela, por sua vez, reagiu com indignação. “Uma invenção ridícula dos EUA para justificar uma intervenção ilegítima e ilegal”, declarou o chanceler venezuelano Yván Gil, em seu canal no Telegram. O governo de Maduro nega qualquer vínculo com o narcotráfico e acusa os EUA de manipular a narrativa para fomentar uma mudança de regime, típica dos modelos de intervenção norte-americanos no Sul Global.
A crítica à classificação do “Cartel de los Soles” não vem apenas do governo venezuelano. A fundação InSight Crime, especializada em crime organizado, afirmou em agosto que é uma “simplificação excessiva” dizer que Maduro lidera o cartel. Para a entidade, é mais apropriado descrever o fenômeno como “um sistema de corrupção no qual militares e políticos lucram trabalhando com traficantes”, sem que isso configure um cartel hierarquizado nos moldes tradicionais.
Interesses cruzados e a longa sombra da Doutrina Monroe
O episódio remonta a uma tradição histórica que data pelo menos da Doutrina Monroe (1823), quando os EUA estabeleceram como princípio sua hegemonia sobre o continente americano. Da derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, ao apoio aos Contras na Nicarágua nos anos 1980, passando pela invasão do Panamá em 1989 e o apoio ao golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002, a lista de intervenções ou tentativas de interferência direta na América Latina é extensa e documentada.
“O que está em jogo é mais do que drogas. Trata-se de geopolítica, recursos naturais e poder regional”, aponta o cientista político Juan Gabriel Tokatlian, professor da Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina. Em artigo publicado no El País, ele afirma que a militarização da política antidrogas tem servido como “instrumento para redefinir as esferas de influência norte-americanas” no continente.
A riqueza petrolífera da Venezuela — que detém as maiores reservas de petróleo do mundo — torna-se peça central nesse tabuleiro. De acordo com reportagem do New York Times, Maduro chegou a oferecer acesso privilegiado a essas reservas para empresas de energia americanas como parte de uma proposta de transição gradual do poder. Mas a oferta, que incluía sua saída em até três anos, foi rejeitada por Washington, que considera “inaceitável” qualquer atraso na remoção de Maduro.
Diplomacia de um lado, porta-aviões do outro
Apesar da escalada militar, Maduro insiste em uma retórica de abertura ao diálogo. “Nos EUA, quem quiser conversar com a Venezuela vai conversar, cara a cara, sem nenhum problema”, disse em seu programa de televisão estatal. Trump, por sua vez, deixou a porta entreaberta: “Provavelmente falaria com ele, sim. Eu falo com todo mundo”.
Mas os sinais de Washington indicam outra direção. A operação de bombardeio a embarcações suspeitas de tráfico de drogas, os ataques cirúrgicos e a designação do cartel como entidade terrorista — rejeitada por especialistas em sanções, que apontam não haver base legal para justificar uma ação militar com esse argumento — revelam um padrão de pressão sistemática que pode culminar numa intervenção direta ou numa desestabilização interna apoiada externamente.
Grupos de direitos humanos alertaram para o risco de execuções extrajudiciais, denunciando os ataques a barcos como operações de morte sumária. A Casa Branca, no entanto, sustenta que está “em guerra contra os cartéis de drogas”. Para críticos da medida, trata-se de uma cortina de fumaça para fins eleitorais e geopolíticos.
Quando a exceção se torna regra
O uso reiterado de narrativas excepcionais — terrorismo, narcotráfico, ameaça à segurança — como justificativa para ações militares unilaterais tem sido um instrumento recorrente na política externa norte-americana, principalmente após o 11 de Setembro. “A guerra contra as drogas e a guerra contra o terror são, cada vez mais, formas de governar populações à distância, com base em exceções permanentes”, analisa Achille Mbembe, filósofo camaronês e professor da Universidade de Columbia, nos EUA.
A análise de Mbembe dialoga com a teoria do jurista Carl Schmitt, para quem o “soberano é quem decide sobre o estado de exceção”. No contexto latino-americano, o risco é que tal lógica justifique intervenções sob qualquer pretexto, corroendo a soberania de países e substituindo o diálogo multilateral pelo uso da força.
O caso venezuelano é um retrato dramático de como se entrelaçam interesses estratégicos, discursos moralizantes e violência institucionalizada. A suposta guerra contra um cartel que talvez nem exista revela mais sobre os objetivos políticos de Washington do que sobre a segurança dos norte-americanos. Em tempos de crise global da democracia e reconfiguração das ordens mundiais, a América Latina, mais uma vez, vê-se diante da ameaça de se tornar campo de disputa e intervenção, em vez de protagonista do próprio destino.
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