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Mundo

Estrangular Cuba, ordena Trump

Após seis décadas de bloqueio, EUA proíbem Venezuela e México de fornecer petróleo à ilha e esperam seu colapso

Publicado em 11/02/2026 11:21 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O sol reapareceu em Havana depois de dias de frio incomum no Caribe — com registros de temperaturas próximas de zero grau em algumas regiões de Cuba, algo inédito na história do país. Mas o clima mais severo é político e econômico. A ilha atravessa uma crise energética aguda após a interrupção do fornecimento de petróleo da Venezuela, seu principal parceiro estratégico nas últimas décadas.

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A ruptura ocorreu depois que os Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. No fim de janeiro, o presidente americano Donald Trump classificou Cuba como “ameaça excepcional à segurança nacional dos Estados Unidos” e prometeu impor tarifas adicionais a países que continuarem exportando petróleo ou derivados ao governo cubano. A estratégia amplia a política de “pressão máxima” associada ao secretário de Estado Marco Rubio, defensor histórico do endurecimento contra Havana.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, inicialmente classificou as medidas como “fascistas, criminosas e genocidas”. Dias depois, sinalizou disposição para dialogar com Washington “sem exigências prévias”, ao mesmo tempo em que negou que o regime esteja “à beira do colapso”. Anunciou ainda um pacote de ações para reforçar o setor energético.

Na ONU, o representante cubano Roberto Cabañas, disse que a ação dos EUA “visa punir impiedosamente toda a nossa população, em flagrante violação de seus direitos humanos”. Ele também afirmou que os EUA chegam ao ponto de ameaçar com tarifas punitivas os países que fornecem petróleo a Cuba. Com isso, acrescentou, “eles pretendem tornar a comunidade internacional cúmplice de um bloqueio energético contra nossa nação”.

De acordo com o diplomata cubano, o objetivo das sanções é paralisar a atividade econômica e social do país e causar sofrimento a milhões de cubanos. A este respeito, Cabañas lembrou que “o Conselho de Direitos Humanos não pode permanecer em silêncio diante desses atos criminosos”.

A retórica de confronto convive com a percepção de escassez nas ruas. “Trump quer nos sufocar”, afirma Aleida, proprietária de uma hospedagem privada em Havana, demonstrando apreensão. A população oscila entre o temor de um agravamento da crise e a esperança de uma saída diplomática. “Ele pode atacar ou pode deixar que a situação piore para depois se apresentar como o salvador”, diz Rachel, funcionária pública de 21 anos.

No cotidiano, os efeitos são concretos. Ramón, taxista no setor turístico, resume a sensação: “Trump prejudica as pessoas comuns, não o governo”. O turismo já vinha em retração e a escassez de combustível aprofundou o problema. A gasolina passou a ser vendida apenas em moeda estrangeira, com longas filas nos chamados “postos do dólar”. Apagões de dez a 15 horas tornaram-se frequentes na capital, reflexo de um sistema que hoje produz apenas cerca de 40% da eletricidade necessária.

Fornecimento interrompido e mercado travado

De acordo com Bert Hoffmann, pesquisador do Instituto GIGA de Estudos Latino-Americanos, desde 9 de dezembro nenhum petroleiro atracou na ilha. A Venezuela deixou de cumprir o papel de principal fornecedora, e o México — segundo maior exportador de petróleo a Cuba — suspendeu as remessas previstas para janeiro.

Em busca de alternativas, Havana recorreu ao mercado à vista (“spot market”), mas enfrentou obstáculos. Um navio com bandeira do Togo, esperado em 4 de fevereiro, alterou a rota em alto-mar rumo à República Dominicana. A suspeita, segundo Hoffmann, é de pressão americana. “Mesmo quando Cuba consegue comprar petróleo, ele não chega ao destino”, afirma.

O cenário se repete com possíveis fornecimentos de Argélia, Angola, China ou Vietnã. A avaliação do pesquisador é direta: “O mais provável é que Cuba não receba petróleo num futuro próximo. E isso é brutal”.

Especialistas estimam que a demanda cubana gire em torno de 100 mil barris por dia. Até recentemente, entre 25% e 33% desse volume vinha da Venezuela. O México fornecia entre 6 mil e 12 mil barris diários, enquanto Rússia e Argélia contribuíam com volumes menores.

Energia solar insuficiente e risco sistêmico

Nos últimos dois anos, Cuba ampliou parques solares com apoio chinês, mas a geração ainda é incapaz de suprir a demanda nacional. A infraestrutura elétrica depende majoritariamente de usinas termoelétricas de origem soviética, sujeitas a falhas. O petróleo pesado produzido internamente — responsável por cerca de 40% da demanda energética — não pode ser refinado em gasolina e é utilizado apenas para geração de eletricidade.

O prazo das reservas é incerto. No fim de janeiro, o Financial Times estimou que o combustível disponível poderia durar de 15 a 20 dias. Hoffmann alerta para efeitos em cadeia: sem gasolina, o impacto ultrapassa o turismo. “Os alimentos do campo não chegarão à cidade”, afirma. Ele cita ainda o risco hospitalar: empresas responsáveis pela produção e transporte de oxigênio medicinal dependem de caminhões abastecidos.

México tenta mediação: Moscou reafirma apoio

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, anunciou envio de ajuda humanitária e ofereceu-se como mediadora entre Washington e Havana. O espaço de manobra, contudo, é restrito. A economia mexicana é fortemente integrada à dos Estados Unidos e as renegociações do acordo de livre comércio norte-americano ampliam a influência de Washington.

No Senado americano, Rubio declarou abertamente que busca mudança de regime em Cuba. Para analistas, o peso econômico da ilha é limitado, mas seu valor simbólico é elevado: representa resistência histórica à Doutrina Monroe e à hegemonia americana no hemisfério.

Enquanto Donald Trump afirma que negociações estão em curso, Havana contesta. O vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, declarou à agência EFE que houve troca de mensagens, mas negou preparação de negociações formais. Admitiu, porém, que o país dispõe de “opções limitadas” e anunciou um plano emergencial que será divulgado à população.

Do lado russo, o embaixador Viktor Koronelli afirmou à agência RIA Novosti que Moscou pretende manter o fornecimento de petróleo à ilha, como ocorreu em anos anteriores.

Normalidade aparente, incerteza real

Em Havana, a rotina segue com uma espécie de resignação coletiva. “Há uma normalidade em meio à crise”, observa Hoffmann. Carros ainda circulam, estabelecimentos permanecem abertos, e a cidade tenta preservar a aparência de estabilidade.

Mas, sob essa superfície, a equação energética se mostra insustentável. Sem fluxo regular de petróleo, Cuba enfrenta semanas decisivas — em que a disputa geopolítica pode determinar não apenas o futuro do governo, mas as condições básicas de sobrevivência da população.

Marco Rubio é quem impede Trump de negociar com Cuba, diz jornal

O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, está mentindo para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre uma suposta negociação entre Washington e Havana que, na prática, não está ocorrendo. A informação é do Drop Site.

Segundo a reportagem, não há qualquer negociação de alto nível em curso entre os países, o que vai na contramão das recentes declarações de Trump sobre possíveis conversas ocorrendo com Cuba.

Um alto funcionário do governo Trump afirmou ao veículo que o mandatário “está dizendo isso porque é o que Marco está dizendo a ele”, acrescentando que o Secretário de Estado está se esforçando internamente para fazer com que o republicano acredite em “negociações sérias” para alegar, posteriormente, que as tratativas foram infrutíferas devido à intransigência cubana.

O objetivo, segundo o Drop Site, é abrir caminho para que os Estados Unidos forcem uma mudança de regime na ilha socialista, algo que Rubio e sua base política situada no sul da Flórida desejam há anos. “Para os oponentes de Rubio dentro do governo, o momento representa uma oportunidade de transformar Cuba em sua Waterloo”, diz a reportagem.

‘Não há negociações’

As autoridades cubanas ouvidas pela reportagem também desmentiram a existência de conversa, reiterando “repetidamente” que desejam abrir negociações com Washington.

Ao New York Times, um alto funcionário do Departamento de Estado disse que o contato entre os governos cubano e norte-americano “não foi substancial” e se limitou a discutir a repatriação de migrantes, o que foi confirmando ao Drop Site.

Cuba quer negociar

A verdade, de acordo com a reportagem, é que “o desejo de Havana por negociações, beirando o desespero, já foi sinalizado por diversos canais”, em meio à forte crise gerada pelos Estados Unidos que ameaça impor tarifas aos países que venderem petróleo para a ilha.

Drop Site aponta os efeitos da medida dentro de Cuba e as dificuldades sofridas por sua população, destacando que a única questão inegociável é a sua soberania.

Diversas declarações públicas confirmam a abertura para o diálogo. Em comunicado, a chancelaria cubana afirmou que o país “reitera sua disposição de manter um diálogo respeitoso e recíproco com o governo dos Estados Unidos”. A mesma disposição foi reafirmada pelo representante permanente de Cuba na ONU, Ernesto Soberón Guzmán, em entrevista à Newsweek.

Além disso, o próprio presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, reiterou a “enfática abertura de seu país” para negociações com a Casa Branca, reafirmando: “somos um país de paz, não representamos uma ameaça para os Estados Unidos”.

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