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Mundo
Trump reprime manifestações populares e ameaça democracia nos EUA
Publicado em 09/06/2025 11:51 - Semana On
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Com a decisão de enviar 2.000 soldados e 500 fuzileiros navais para garantir prisões e deportações em massa, o ex-presidente Donald Trump reacendeu nos Estados Unidos fantasmas de uma era que parecia superada: a da repressão federal sem consentimento local, a militarização da política interna e a retórica de guerra voltada contra civis. Pela primeira vez desde o auge das lutas pelos direitos civis, nos anos 1960, tropas federais são mobilizadas contra um Estado da Federação sem autorização do governador — neste caso, a Califórnia, comandada pelo democrata Gavin Newsom.
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A medida é oficialmente justificada por um memorando presidencial como uma forma de assegurar a “execução fiel das leis federais de imigração”, mas o que se vê nas ruas de Los Angeles e São Francisco é a aplicação de uma doutrina de força bruta contra imigrantes, trabalhadores e manifestantes pacíficos. Para Newsom, o gesto não é sobre segurança: “Trump enviou tropas de qualquer maneira — para fabricar caos e violência”, declarou em rede social, no último domingo (9).
A ação federal marca um ponto de inflexão: rompe com o pacto federativo ao desconsiderar a soberania estadual e adota métodos típicos de regimes autoritários, ao tratar manifestações civis como “insurreições”. Segundo o memorando oficial, atos que inibam a aplicação da lei “podem ser tratados como rebelião contra a autoridade do Governo dos Estados Unidos”.
Uma escalada com raízes históricas
O último precedente de intervenção militar federal sem anuência local remonta a 1965, quando Lyndon B. Johnson utilizou a Guarda Nacional para proteger manifestantes pelos direitos civis em Selma, Alabama. A diferença, hoje, é profunda: enquanto Johnson mobilizou tropas para garantir direitos constitucionais de cidadãos negros, Trump emprega o aparato militar para reprimir justamente aqueles que protestam por justiça, direitos civis e proteção a imigrantes.
Essa inversão do papel histórico do Estado é, segundo o filósofo e cientista político Sheldon Wolin, um dos sintomas do que ele chamou de “totalitarismo invertido”: a aparência democrática é mantida, mas as práticas do poder caminham no sentido oposto. Em Democracy Incorporated (2008), Wolin alerta que “a concentração de poder no Executivo sob o disfarce da legalidade é uma ameaça muito mais insidiosa do que as ditaduras clássicas”.
Imigração como pretexto: uma velha tática
A ofensiva de Trump contra imigrantes vem acompanhada de uma retórica inflamada, que oscila entre o alarmismo e o desprezo. “Vamos ter ordem e lei. Vamos ter tropas em todas as partes”, declarou, equiparando protestos civis a ameaças militares. Em meio à repressão, helicópteros sobrevoaram áreas de manifestação em Los Angeles com avisos ameaçadores: “Temos todos vocês gravados em câmera. Vamos até suas casas”.
Trata-se de uma estratégia clássica de manipulação autoritária, já descrita por teóricos como Hannah Arendt e, mais recentemente, por estudiosos como Jason Stanley, autor de How Fascism Works (2018). Primeiro, cria-se um inimigo interno — neste caso, imigrantes e seus defensores. Depois, apresenta-se o caos como inevitável e os protestos como perigosos. Por fim, oferece-se o governo centralizado e repressivo como única forma de restauração da ordem.
A nova meta de 3.000 prisões por dia, com incursões inclusive em locais de trabalho, é anunciada como necessidade de segurança nacional, mas reflete uma tática política de guerra psicológica e controle social. A restrição da entrada de cidadãos de 19 países — entre eles Sudão, Laos e Mianmar — afeta cerca de 140 mil pessoas por ano, segundo dados do Migration Policy Institute, mas ignora aliados estratégicos como o Egito, mesmo após ataques terroristas em seu território. O critério, portanto, é mais geopolítico que humanitário.
A Califórnia reage
Gavin Newsom, governador californiano, não economizou críticas: “Esses são atos de um ditador, não de um presidente”. Enviou carta formal à Casa Branca exigindo a retirada imediata das tropas e classificou a ação como “violação grave da soberania do Estado”. A resposta de Trump foi sucinta, em tom de escárnio: “A situação em Los Angeles está bem feia. Mande as tropas”.
Enquanto isso, o chefe da polícia de Los Angeles, Jim McDonnell, reconheceu que a crise “está se tornando cada vez pior e mais violenta”, com prisões em massa, bloqueios de rodovias e repressão com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Jornalistas também foram atingidos. A prefeitura declarou o centro da cidade zona de aglomeração proibida, e novas mobilizações são esperadas, incluindo um ato no Capitólio Estadual organizado pelo Sindicato Internacional dos Empregados de Serviços.
Democracia à prova
Para muitos analistas, o que se observa nos EUA não é apenas uma crise migratória ou institucional, mas um teste real de resistência democrática. Universidades como Harvard e centros urbanos como Los Angeles têm sido tratados pela Casa Branca como “laboratórios de confrontação política”, onde a repressão pode ser avaliada e, se bem-sucedida, replicada em outras regiões.
O vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, sintetizou o espírito do governo ao dizer: “Esta é uma luta para salvar a civilização”. A frase remete diretamente à retórica de Benito Mussolini e à lógica binária do “nós contra eles” — uma estrutura simbólica que recusa o pluralismo democrático.
Como adverte o historiador Timothy Snyder, em Sobre a tirania (2017), “o declínio da democracia costuma começar com pequenas exceções à legalidade e se acelera quando a violência se torna normalizada”.
O que está em jogo
Não se trata apenas de política migratória. O que está em jogo é o modelo de sociedade que os Estados Unidos pretendem ser. Quando o Estado se arma contra seus cidadãos e criminaliza o protesto como “rebelião”, rompe-se um contrato social fundamental. A militarização da vida civil, a suspensão de direitos sob a justificativa da ordem e a perseguição sistemática de grupos vulneráveis constituem, juntas, o esboço de um autoritarismo cada vez menos disfarçado.
O “pior”, como dizia o artigo final de uma análise acadêmica amplamente compartilhada nesta semana, “já está acontecendo”.
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