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Mundo

Especialistas da ONU condenam ações dos EUA contra Cuba e alertam para risco de escalada militar no Caribe

Relatores afirmam que acusações contra Raúl Castro e medidas adotadas por Washington violam o Direito Internacional

Publicado em 03/06/2026 1:32 - Semana On

Divulgação Reuters

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Um grupo de relatores especiais e especialistas independentes vinculados ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou na terça-feira (3) uma declaração na qual exige que os Estados Unidos interrompam imediatamente as ameaças dirigidas a Cuba e revoguem as medidas coercitivas unilaterais impostas ao país caribenho. No documento, os especialistas classificam como incompatíveis com o Direito Internacional tanto as acusações formuladas por Washington contra o ex-presidente cubano Raúl Castro quanto a estratégia de pressão política e econômica adotada pelo governo norte-americano.

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Segundo os signatários, a utilização de procedimentos judiciais internos contra chefes de Estado ou ex-chefes de Estado estrangeiros como instrumento de política externa representa uma afronta aos princípios fundamentais da Carta das Nações Unidas. O texto sustenta que esse tipo de iniciativa configura abuso processual e viola os princípios da igualdade soberana entre os Estados e da autodeterminação dos povos.

Os especialistas também demonstram preocupação com o tom das recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente aquelas em que mencionou a possibilidade de “tomar Cuba”. Para os relatores, as falas não podem ser interpretadas como mera retórica política, mas devem ser analisadas no contexto de uma estratégia mais ampla de pressão contra Havana.

A declaração vincula essas manifestações ao histórico embargo econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha, à permanência de Cuba na lista norte-americana de países patrocinadores do terrorismo, às recentes restrições relacionadas ao fornecimento de combustível e à adoção de medidas coercitivas voltadas a terceiros países que mantêm relações com o governo cubano.

Na avaliação dos especialistas, iniciativas destinadas a provocar mudanças na ordem constitucional de um Estado soberano por meio de ameaças e mecanismos de coerção remetem a práticas associadas ao período colonial. O documento afirma que a combinação de sanções, pressões diplomáticas e ameaças explícitas constitui uma tendência preocupante de enfraquecimento das normas multilaterais que regem as relações internacionais.

Outro ponto destacado pelos relatores é o deslocamento do porta-aviões USS Nimitz para o sul do Caribe. A movimentação militar é apresentada como mais um elemento de pressão sobre Cuba e, segundo os especialistas, contraria os princípios estabelecidos nos artigos 2(4) e 2(7) da Carta das Nações Unidas, interpretação que, segundo o documento, encontra respaldo na jurisprudência do Tribunal Internacional de Justiça.

Para os autores da declaração, a normalização desse tipo de coerção e das ameaças de mudança de regime representa um risco não apenas para Cuba, mas para a própria estrutura do sistema jurídico internacional. O texto adverte que tais práticas enfraquecem os mecanismos multilaterais e comprometem a integridade da ordem internacional baseada em regras.

Além de solicitar o encerramento das medidas adotadas por Washington, os especialistas defendem que nenhum Estado reconheça ou legitime essas ações. Também apelam ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral da ONU para que tratem com urgência das ameaças dirigidas contra a ilha caribenha.

Acusação contra Raúl Castro e movimentação naval ampliam tensões

As preocupações expressas pelos especialistas da ONU surgem em meio a uma sequência de acontecimentos que intensificaram as tensões entre Washington e Havana.

Na semana passada, autoridades norte-americanas formalizaram acusações de assassinato contra Raúl Castro em razão do episódio ocorrido em 1996, quando aeronaves militares cubanas derrubaram aviões civis dos Estados Unidos. Pouco depois, o envio do USS Nimitz para águas internacionais próximas ao Caribe alimentou especulações sobre uma possível escalada das pressões norte-americanas sobre o governo cubano.

Também na última semana, o Comando Sul dos Estados Unidos divulgou nas redes sociais um vídeo detalhando a capacidade operacional do grupo de combate liderado pelo Nimitz. A publicação destaca a presença de aeronaves de combate, embarcações de apoio logístico e um destróier de escolta, reforçando a demonstração de força militar na região.

O contexto reforçou comparações com episódios recentes envolvendo outros países da América Latina. Em fevereiro, o Pentágono havia enviado o USS Ford — considerado o maior porta-aviões do mundo — ao Oriente Médio poucos dias antes das operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Antes disso, a mesma embarcação esteve no Caribe durante a operação que resultou na captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, alvo de acusações por narcoterrorismo apresentadas por Washington.

Analistas divergem sobre possibilidade de intervenção

Embora não exista confirmação oficial de qualquer plano militar contra Cuba, especialistas em segurança internacional observam que os movimentos recentes podem ser interpretados como parte de uma estratégia de pressão que combina elementos políticos, jurídicos e militares.

Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do think tank Defense Priorities, sediado em Washington e identificado com posições não intervencionistas, considera plausível a hipótese de uma ação dos Estados Unidos contra a ilha.

Segundo ela, a proximidade geográfica de Cuba e o contexto político doméstico norte-americano tornam uma intervenção uma possibilidade concreta. Kavanagh avalia que Trump pode estar concentrado em outros desafios internacionais, especialmente o prolongamento do conflito envolvendo o Irã, mas não descarta que o governo avance simultaneamente em outras frentes.

Mark Cancian, coronel reformado do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e consultor do Centro para Estratégia e Estudos Internacionais (CSIS), interpreta a presença do Nimitz principalmente como um instrumento de dissuasão. Ainda assim, ele ressalta que o porta-aviões poderia ser empregado em uma eventual operação militar.

Na visão de Cancian, o precedente criado pela operação que levou à captura de Nicolás Maduro tornou inevitáveis as comparações entre Venezuela e Cuba. Entretanto, ele destaca uma diferença fundamental: o fator surpresa que contribuiu para o sucesso da ação na Venezuela dificilmente estaria presente em território cubano.

O analista argumenta que uma eventual operação destinada a capturar integrantes da liderança cubana enfrentaria obstáculos maiores, uma vez que Havana estaria preparada para esse cenário. Ainda assim, considera que Raúl Castro poderia se tornar o principal alvo, justamente em razão da existência de um mandado de prisão emitido pelos Estados Unidos.

Segundo Cancian, uma ação desse tipo teria como objetivo final remover a atual cúpula dirigente e abrir espaço para a instalação de um governo alinhado aos interesses de Washington.

Benefícios estratégicos são questionados

Apesar das especulações sobre uma eventual intervenção, especialistas divergem quanto às vantagens concretas que os Estados Unidos obteriam com uma mudança de regime em Cuba.

Do ponto de vista político, a derrubada do governo cubano poderia representar uma vitória simbólica significativa para setores do eleitorado republicano, especialmente na Flórida. A pauta também possui forte apelo ideológico para figuras centrais da administração norte-americana, como o secretário de Estado Marco Rubio.

No entanto, Jennifer Kavanagh argumenta que os ganhos estratégicos seriam praticamente inexistentes. Em sua avaliação, Cuba não representa uma ameaça relevante à segurança nacional dos Estados Unidos nem possui peso econômico capaz de justificar uma operação de grande porte.

Ela sustenta que uma eventual ocupação ou intervenção poderia produzir mais custos do que benefícios. Além dos desafios associados à reconstrução institucional e econômica da ilha, Washington correria o risco de assumir responsabilidades duradouras sobre o funcionamento do Estado cubano sem garantias de que um governo sucessor seria mais favorável aos interesses norte-americanos.

Guantánamo mantém importância estratégica, mas com limitações

Em qualquer cenário de agravamento das tensões, a Base Naval de Guantánamo permanece como um dos elementos centrais da equação militar entre os dois países.

Instalada no extremo oriental de Cuba desde 1903, em decorrência de um acordo cuja legitimidade é contestada há décadas por Havana, a base continua sendo um ativo estratégico para os Estados Unidos. Contudo, especialistas alertam que sua capacidade operacional possui limitações importantes.

Mark Cancian observa que Guantánamo certamente desempenharia um papel relevante em uma eventual crise, mas destaca que a instalação está localizada a aproximadamente 940 quilômetros de Havana, longe do principal centro político e administrativo da ilha.

Para ele, uma das primeiras providências em qualquer cenário de confronto seria reforçar a defesa da base, considerada vulnerável em sua configuração atual.

Jennifer Kavanagh compartilha da avaliação de que Guantánamo teria participação em uma eventual operação, mas pondera que sua infraestrutura não seria suficiente para sustentar sozinha uma campanha militar de grande escala. Dada a proximidade geográfica entre Cuba e o território continental dos Estados Unidos, ela considera mais provável que Washington recorresse principalmente às bases militares localizadas nos estados do sul do país para apoiar qualquer ação de maior envergadura.

Ao mesmo tempo em que especialistas da ONU denunciam violações ao Direito Internacional e alertam para os riscos de uma política de coerção crescente, a combinação entre acusações judiciais, sanções econômicas, declarações agressivas e movimentações militares mantém elevada a tensão entre Washington e Havana, ampliando as incertezas sobre os próximos desdobramentos da relação entre os dois países.

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