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Mundo

Eleições locais se tornam referendo sobre Trump e ascensão da nova esquerda

Disputas em Nova York, Virgínia, Nova Jersey e Califórnia testam a força do trumpismo

Publicado em 04/11/2025 10:18 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Os eleitores americanos vão às urnas nesta terça-feira (4) em eleições municipais e estaduais que, embora locais, têm implicações nacionais profundas: representam o primeiro grande teste eleitoral desde o conturbado início do segundo mandato de Donald Trump e são vistas como um referendo antecipado sobre sua liderança, além de um termômetro para as eleições de meio de mandato em 2026.

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Com votações espalhadas de costa a costa, o pleito afeta diretamente o controle político de estados estratégicos, a composição do Congresso e o fôlego de uma nova geração de políticos progressistas que desafia o centro do Partido Democrata. Já para os republicanos, trata-se de medir até que ponto o trumpismo mantém sua força fora do campo presidencial.

Nova York: o socialismo no campo de batalha

A disputa mais simbólica ocorre em Nova York, onde o deputado estadual Zohran Mamdani, de 34 anos, tenta tornar-se o primeiro prefeito muçulmano e o segundo socialista a governar a cidade desde a gestão de David Dinkins (1990–1993), que embora não fosse socialista, representava a ala mais progressista da época.

Mamdani, filho de imigrantes e membro do Democratic Socialists of America (DSA), baseia sua campanha em uma agenda voltada à “acessibilidade” — termo que sintetiza propostas como o aumento de impostos sobre os mais ricos, transporte público gratuito, moradia popular e expansão de serviços sociais. Ele representa uma nova esquerda americana, que dialoga mais com Bernie Sanders do que com Joe Biden.

A campanha de Mamdani ganhou tração após sua atuação legislativa em defesa de inquilinos durante a pandemia e tem mobilizado jovens, sindicalistas e minorias raciais — uma coalizão que lembra a de Alexandria Ocasio-Cortez, que o endossou publicamente. Segundo pesquisa do Marist Institute for Public Opinion divulgada na véspera da eleição, Mamdani aparece com 48% das intenções de voto, contra 41% de seu principal adversário: o ex-governador Andrew M. Cuomo, que tenta um retorno improvável à política após escândalos de assédio e má gestão da pandemia.

Expulso da corrida presidencial e derrotado nas primárias democratas, Cuomo decidiu se lançar como independente. A jogada foi lida por analistas como um gesto de sobrevivência política, mas também como uma tentativa de deslegitimar o avanço da esquerda no partido. “Cuomo representa a velha guarda do Partido Democrata, enquanto Mamdani encarna o futuro. O embate é geracional, ideológico e simbólico”, avalia o cientista político Francis Fukuyama, em entrevista recente ao New York Times.

Na véspera da votação, Trump jogou gasolina na fogueira ao declarar apoio a Cuomo, chamando Mamdani de “comunista” e ameaçando cortar verbas federais caso o socialista vença. A resposta veio com ironia: “O apoio de Trump é o prego no caixão da candidatura de Cuomo. E vale lembrar que ameaça não é lei”, disse Mamdani em coletiva. O gesto incendiou a reta final da disputa e deve mobilizar ainda mais o eleitorado progressista.

Virgínia e Nova Jersey: laboratórios da política nacional

A tradição política americana dá especial atenção às eleições de Virgínia e Nova Jersey no ano seguinte à eleição presidencial. Historicamente, esses pleitos funcionam como sinal de aprovação ou desgaste da administração federal — e Trump sabe disso.

Na Virgínia, a disputa entre a democrata Abigail Spanberger, ex-agente da CIA e figura centrista do partido, e a republicana Winsome Earle-Sears, apoiada pelo movimento “America First”, é considerada crucial. Uma vitória de Spanberger marcaria não só a primeira mulher a governar o estado, mas também a consolidação de um perfil moderado dentro do partido, em contraste com a ala mais radicalizada do trumpismo.

Já em Nova Jersey, a democrata Mikie Sherrill luta para manter uma vantagem apertada contra Jack Ciattarelli, republicano que aposta no descontentamento popular com a inflação e o custo de vida. Segundo dados do Bureau of Labor Statistics, o custo médio de moradia no estado aumentou 12% em um ano, fator explorado à exaustão pelos republicanos.

Califórnia: o mapa como arma política

Outro ponto crítico é a Proposição 50, na Califórnia, apoiada pelo governador democrata Gavin Newsom. A medida visa redesenhar distritos eleitorais estaduais com o objetivo de desfazer ganhos recentes dos republicanos, especialmente em áreas suburbanas que migraram à direita nos últimos anos.

Se aprovada, a proposta pode transferir até cinco cadeiras na Câmara dos Representantes para os democratas. A mudança é vista como parte de uma ofensiva legal e política para conter o avanço conservador no Congresso — e como um possível modelo para outros estados governados por democratas.

“É uma batalha silenciosa, mas decisiva. O controle do mapa é o controle do jogo”, afirmou a politóloga Kathleen Hall Jamieson, da Universidade da Pensilvânia, à NPR.

Um país dividido — e em disputa

As eleições desta terça não decidirão quem ocupará a Casa Branca, mas deixarão claro em que direção os ventos sopram na política americana. O embate entre o progressismo urbano, a reação conservadora e os sobreviventes do establishment tradicional expõe uma democracia profundamente polarizada — onde disputas locais se tornam metáforas nacionais.

O historiador Timothy Snyder já alertava em 2021, em On Tyranny, que “as instituições democráticas não caem de uma vez, mas por erosão lenta, quando deixamos de defendê-las nas batalhas menores”. As eleições desta terça são uma dessas batalhas — e seus resultados moldarão o terreno político dos próximos anos.

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