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Mundo
Clan Bolsonaro perde um aliado poderoso em meio aos projetos autoritários que crescem em todo o mundo
Publicado em 13/04/2026 12:46 - Semana On
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O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu no domingo (12) uma derrota de grandes proporções nas eleições legislativas, após a apuração indicar vantagem expressiva do oposicionista Péter Magyar. O resultado projeta o partido de Magyar, o Tisza (Respeito e Liberdade), como força dominante na Assembleia Nacional, com mais de dois terços das cadeiras — um marco político que rompe com mais de uma década e meia de hegemonia do líder ultranacionalista.
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Em discurso após a confirmação do resultado, Orbán admitiu de forma direta a vitória do adversário. “A responsabilidade e a oportunidade de governar não foi dada a nós”, declarou, acrescentando que o desfecho foi “doloroso, mas claro” e que seu grupo atuará na oposição. A manifestação pública ocorreu pouco depois de Magyar afirmar, nas redes sociais, ter recebido uma ligação do próprio primeiro-ministro parabenizando-o pela vitória.
Magyar também atribuiu um caráter histórico ao pleito. Em publicação, destacou que o resultado coincide simbolicamente com os 23 anos do referendo que consolidou a adesão da Hungria à União Europeia, sugerindo uma reorientação estratégica do país.
Supermaioria e participação recorde
Com cerca de 90% das urnas apuradas por volta das 22h30 no horário local (17h30 em Brasília), o Tisza alcançava 138 das 199 cadeiras parlamentares — acima do mínimo de 133 necessário para uma supermaioria qualificada. O Fidesz, partido de Orbán, somava 55 assentos, enquanto a legenda de ultradireita Mi Hazánk ficava com seis.
O pleito registrou participação recorde, superior a 77,8%, com relatos de longas filas em diversas seções eleitorais. Analistas apontam que o aumento da adesão foi particularmente significativo entre eleitores jovens e em cidades de médio porte — segmentos mais inclinados a apoiar Magyar.
Considerada a eleição mais relevante desde a transição democrática de 1989/90, a votação definiu os 199 assentos da Assembleia Nacional por meio de um sistema misto: 106 deputados eleitos em distritos uninominais e 93 por listas partidárias, incluindo votos de minorias étnicas, como alemães e roma.
Repercussão internacional e mudança de eixo
O resultado foi acompanhado de perto por governos europeus e observadores internacionais, refletindo a influência de Orbán no cenário global da direita populista. A vitória de Magyar provocou reações imediatas de líderes europeus, que interpretaram o desfecho como uma reaproximação da Hungria com o bloco.
Durante a campanha, Magyar comprometeu-se a reconstruir os vínculos com a União Europeia e a Otan, desgastados ao longo dos governos do Fidesz. A sinalização de mudança foi reforçada por declarações de autoridades europeias, que destacaram o resultado como uma escolha clara em favor do projeto europeu.
Ascensão de um dissidente
Ex-integrante do Fidesz, Magyar rompeu com o partido em 2024 e fundou o Tisza pouco depois. Sua ascensão foi rápida: em uma campanha intensiva, percorreu o país com uma agenda exaustiva, chegando a visitar até seis cidades por dia.
A estratégia eleitoral concentrou-se em temas de impacto cotidiano, como o deteriorado sistema de saúde, falhas no transporte público e denúncias de corrupção. Em entrevistas, o líder oposicionista enquadrou a eleição como uma escolha geopolítica: manter a aproximação com a Rússia ou retomar o alinhamento com democracias europeias.
O desgaste do governo Orbán
Ao longo de 16 anos no poder, Orbán acumulou críticas dentro e fora do país. Seu governo foi marcado por medidas contra a liberdade de imprensa, restrições a direitos de minorias e mudanças institucionais vistas como erosivas para o sistema democrático. Também enfrentou acusações de favorecer aliados econômicos — alegações que sempre negou.
No plano internacional, adotou uma postura frequentemente dissonante da União Europeia, especialmente ao dificultar iniciativas de apoio à Ucrânia diante da invasão russa, enquanto mantinha proximidade política com Moscou.
Orbán também se consolidou como referência para lideranças da direita populista global, estreitando relações com figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro — este último chegou a se abrigar na embaixada húngara em Brasília em 2024, após ter o passaporte apreendido.
Disputa acirrada e suspeitas de interferência
Apesar do resultado expressivo, a campanha foi marcada por tensão e acusações externas. Segundo o Washington Post, havia suspeitas de que a Rússia teria planejado influenciar o pleito em favor de Orbán. O primeiro-ministro, por sua vez, acusou Ucrânia e aliados europeus de tentarem interferir no processo eleitoral para favorecer um governo alinhado a Kiev.
O desfecho, no entanto, sugere que o eleitorado húngaro optou por uma mudança contundente de direção política — com implicações que ultrapassam as fronteiras nacionais e reposicionam o país no tabuleiro europeu.
Menos um aliado para o bolsonarismo
A projeção internacional de Orbán não se limitou ao cenário europeu. Ao longo dos últimos anos, o líder húngaro consolidou vínculos com figuras centrais da direita global, entre elas o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu entorno político, estabelecendo uma aliança marcada por afinidades ideológicas e cooperação diplomática.
A aproximação ganhou visibilidade em 2019, quando Orbán esteve presente na posse de Bolsonaro em Brasília — um gesto raro entre chefes de governo europeus. O relacionamento evoluiu nos anos seguintes, com encontros bilaterais e declarações públicas de admiração mútua. Em visita oficial a Budapeste, em 2022, os dois líderes formalizaram acordos em áreas estratégicas, como defesa, assistência humanitária e gestão hídrica, ao mesmo tempo em que reforçaram uma narrativa comum baseada em valores conservadores.
No plano simbólico, a retórica adotada por ambos evidenciou o alinhamento político. Bolsonaro chegou a se referir a Orbán como “irmão”, destacando convergências na defesa da família e em pautas associadas à identidade nacional. O primeiro-ministro húngaro, por sua vez, retribuiu o apoio durante a campanha eleitoral brasileira de 2022, classificando o aliado como um líder “excepcional” e elogiando medidas de seu governo.
Documentos revelados pela imprensa indicam que a cooperação poderia ter ultrapassado o campo discursivo. Segundo relatos, integrantes do governo húngaro chegaram a sondar autoridades brasileiras sobre possíveis formas de contribuir com a tentativa de reeleição de Bolsonaro naquele ano — movimento que sugere uma articulação política mais direta entre os dois governos.
Mesmo após deixar a Presidência, Bolsonaro manteve interlocução com Orbán. Os dois voltaram a se encontrar em 2023, durante a posse do presidente argentino Javier Milei, ocasião em que reafirmaram proximidade política. O líder húngaro chegou a se referir ao brasileiro como “herói”, reforçando o tom de solidariedade entre aliados ideológicos.
An honest patriot. Keep on fighting, Mr. President! @jairbolsonaro pic.twitter.com/5mmmIAGGC3
— Orbán Viktor (@PM_ViktorOrban) February 8, 2024
Apoio em momentos de crise
A relação também se manifestou em episódios sensíveis da trajetória recente de Bolsonaro. Em fevereiro de 2024, após ser alvo de operação da Polícia Federal no âmbito das investigações sobre tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente brasileiro permaneceu por dois dias na embaixada da Hungria em Brasília.
Embora sua defesa tenha alegado que a estadia tinha caráter diplomático, reportagens internacionais levantaram a hipótese de que Bolsonaro poderia buscar asilo político junto ao governo húngaro. A possibilidade acabou descartada após análise do Supremo Tribunal Federal, que não identificou violação de medidas cautelares impostas ao ex-presidente.
Paralelamente, Orbán utilizou suas redes sociais para manifestar apoio público ao aliado, classificando-o como “patriota honesto” e criticando o que chamou de perseguições políticas — retórica que repetiria em outras ocasiões.

Continuidade da articulação política
O vínculo entre o governo húngaro e a família Bolsonaro permaneceu ativo por meio de encontros frequentes com Eduardo Bolsonaro. O deputado brasileiro participou de eventos internacionais organizados por grupos conservadores, incluindo conferências em Budapeste, onde foi recebido pelo primeiro-ministro.
Mais recentemente, reuniões realizadas nos Estados Unidos reforçaram essa conexão. Em declarações públicas, Orbán voltou a defender os aliados brasileiros, reiterando críticas a processos judiciais e evocando a necessidade de “verdade e justiça” — posicionamento que evidencia a dimensão política e simbólica dessa aliança transnacional.
Ao consolidar esse tipo de articulação, Orbán não apenas ampliou sua influência além da Europa, como também contribuiu para a formação de uma rede internacional de lideranças alinhadas em torno de pautas conservadoras e discursos contra instituições tradicionais — um elemento central para compreender o alcance global de sua atuação política.
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