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Mundo

De olho no petróleo, Trump autoriza CIA a realizar operações na Venezuela

Ameaça de intervenção militar dos EUA acende alerta na América Latina

Publicado em 15/10/2025 4:57 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A movimentação militar dos Estados Unidos no Caribe, sob comando de Donald Trump, não é apenas uma resposta ao narcotráfico — como o discurso oficial tenta sustentar —, mas parte de uma estratégia agressiva de desestabilização do regime venezuelano com um objetivo bem conhecido na história das intervenções americanas: o controle das maiores reservas de petróleo do planeta. A Venezuela detém cerca de 303 bilhões de barris de petróleo em reservas provadas, segundo a OPEP — a maior quantidade do mundo, superando inclusive Arábia Saudita e Irã. Com a guerra na Ucrânia, a queda das importações de petróleo russo e a instabilidade no Oriente Médio, os Estados Unidos passaram a buscar fontes próximas e seguras de energia. A Venezuela, com petróleo pesado compatível com refinarias americanas, voltou ao centro dos interesses estratégicos de Washington. A recusa da Casa Branca a um acordo que daria aos EUA participação dominante na indústria petrolífera venezuelana, em favor de uma ofensiva secreta da CIA para derrubar Nicolás Maduro, expõe as verdadeiras motivações por trás do cerco armado a Caracas e do uso de justificativas frágeis para ações unilaterais. Trata-se de mais um capítulo da longa tradição de ingerência dos Estados Unidos na América Latina — agora com navios de guerra, drones e um Nobel da Paz usado como peça geopolítica.

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Washington oficializa o que Caracas mais temia: a CIA foi autorizada pelo governo Donald Trump a realizar operações secretas, letais e unilaterais na Venezuela com o objetivo declarado de remover Nicolás Maduro do poder. A informação, publicada pelo The New York Times e confirmada pelo próprio Trump, eleva a tensão na região a patamares inéditos desde a Guerra Fria e acende um sinal de alerta sobre o risco de uma nova intervenção militar dos Estados Unidos na América Latina — agora sob o pretexto do combate ao narcotráfico.

A autorização formal dada pela Casa Branca significa que, a partir de agora, a agência de inteligência americana pode atuar de forma independente ou como parte de uma ofensiva militar de maior escala, incluindo bombardeios e invasão terrestre, segundo o NYT. A medida foi tomada após o fracasso das tentativas diplomáticas com o regime chavista e, segundo o jornal, reflete a preferência de nomes influentes da atual gestão, como o secretário de Estado, Marco Rubio, e o diretor da CIA, John Ratcliffe.

Rubio, conhecido por seu discurso agressivo contra governos de esquerda na América Latina, classificou Maduro como “narcoterrorista” e “governante ilegítimo”. A narrativa de que o presidente venezuelano chefia uma rede de tráfico internacional tem sido usada como justificativa para ações cada vez mais hostis — embora careça de provas concretas. O suposto “Cartel de los Soles”, frequentemente citado por Washington, não é reconhecido oficialmente nem mesmo por documentos internos da inteligência americana.

Apesar de não haver confirmação oficial sobre uma possível invasão, os sinais são inequívocos. Nas últimas semanas, os EUA aumentaram significativamente sua presença militar no Caribe: já são mais de 10 mil soldados, oito navios de guerra e um submarino posicionados na região, formando um cerco naval de intimidação direta a Caracas. Trump declarou que “a Venezuela está sentindo a pressão” e, em nova escalada retórica, defendeu ataques a embarcações suspeitas de transportar drogas, mesmo sem apresentar qualquer evidência ou abordagem prévia.

A justificativa jurídica para tais ataques seria a notificação enviada ao Congresso dos EUA informando que o país se encontra “em situação de conflito armado com narcotraficantes latino-americanos”. Essa manobra, no entanto, contorna o fato de que apenas o Congresso tem o poder constitucional de declarar guerra. “Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento”, alertou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso na Assembleia-Geral da ONU, referindo-se indiretamente às ações americanas.

Lula tem reiterado que qualquer solução para a crise na Venezuela deve ser pacífica e diplomática. Em conversa telefônica recente com Trump, o presidente brasileiro afirmou que rompeu o diálogo com Maduro após as eleições fraudulentas de 2024, mas reforçou a necessidade de uma saída negociada para evitar um desastre humanitário. O governo brasileiro também condena a tentativa de equiparar crime organizado com terrorismo — uma estratégia que, nas palavras de Lula, “já causou danos maiores do que se pretendia evitar” em outras partes do mundo.

A tensão aumentou ainda mais com a destruição, por forças americanas, de quatro embarcações próximas às águas venezuelanas. Washington não apresentou provas de que transportavam drogas nem explicou por que foram atacadas sem abordagem prévia. Para Caracas, trata-se de uma clara provocação e de um uso cínico da guerra às drogas como pretexto para derrubar um governo e se apoderar das maiores reservas de petróleo do planeta — recusando, inclusive, um acordo que daria aos EUA participação dominante na indústria petrolífera venezuelana.

O histórico não deixa dúvidas sobre o que está em jogo. A CIA foi protagonista direta ou indireta de múltiplos golpes de Estado na América Latina, como o de 1964 no Brasil, que instaurou uma ditadura marcada por tortura, assassinatos e desaparecimentos. Repetir esse roteiro na Venezuela, agora sob o manto de uma suposta “guerra ao narcotráfico”, representa não apenas uma ameaça à soberania venezuelana, mas à estabilidade de toda a América do Sul e Central.

“A América Latina já conhece os custos de se tornar palco de interesses externos travestidos de cruzadas morais ou estratégicas”, escreveu o historiador Greg Grandin, autor do livro Empire’s Workshop: Latin America, the United States, and the Rise of the New Imperialism (Metropolitan Books, 2006). Para ele, os EUA seguem tratando a região como seu “quintal estratégico”, sem reconhecer os danos profundos causados por décadas de ingerência militar e política.

Neste contexto, o silêncio ou a omissão das democracias latino-americanas pode ser interpretado como anuência. E, diante do risco real de guerra e da violação sistemática do direito internacional, cresce a responsabilidade dos países vizinhos em agir. Não apenas em nome da Venezuela — mas da memória e do futuro de todo um continente.

Nobel a opositora pode alimentar ofensiva militar dos EUA

A concessão do Prêmio Nobel da Paz à opositora venezuelana María Corina Machado, anunciada na última semana pelo comitê de Oslo, pode ter efeitos colaterais graves para a América Latina. Para especialistas, o gesto — altamente simbólico — chega em momento crítico e pode acabar servindo como justificativa diplomática para uma intervenção militar norte-americana na Venezuela. A premiação não é vista como um gesto isolado, mas como parte de um tabuleiro geopolítico em plena movimentação.

Pablo Uchôa, pesquisador do Institute of the Americas da University College London e estudioso da política venezuelana há mais de duas décadas, considera a escolha de Corina Machado uma decisão controversa e potencialmente perigosa. “Corina é uma das principais defensoras de uma intervenção na Venezuela. Ao destacá-la, o Nobel pode estar endossando um conflito internacional que a história não perdoará”, afirmou Uchôa. Para ele, o prêmio ignora o passado antidemocrático da opositora e, pior, pode “legitimar” os planos de Trump de levar a ofensiva militar americana a uma nova fase, agora terrestre.

Em entrevista recente, Corina afirmou que a Venezuela entrava em uma fase “resolutiva” — no mesmo momento em que Trump anunciava a transição da operação militar americana de uma fase “marítima” para uma fase “terrestre”, sugerindo a possibilidade real de invasão. Segundo Uchôa, “os riscos de criarmos um novo Iraque na América do Sul são palpáveis”. A crítica também se estende à estratégia do comitê do Nobel de escolher uma figura individual ao invés de reconhecer movimentos sociais ou instituições democráticas — sobretudo diante do crescimento da extrema direita nos próprios EUA.

A escolha da opositora acontece em meio a um quadro eleitoral explosivo. Dados de uma auditoria independente, baseada em amostragem estatisticamente representativa dos boletins de urna, indicam que Edmundo González, candidato da oposição, venceu as eleições por 66% a 31%. O resultado oficial, no entanto, foi o oposto: o Conselho Nacional Eleitoral anunciou vitória de Nicolás Maduro por 51% a 44%. Desde então, o país vive uma escalada de tensão com protestos, prisões, repressão e um crescente isolamento diplomático.

Brasil, União Europeia e Estados Unidos não reconheceram a reeleição de Maduro, enquanto China, Rússia e Irã parabenizaram o chavista. O governo brasileiro, embora crítico ao regime venezuelano, tem insistido em uma saída negociada. Em entrevista à imprensa, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, afirmou esperar que o Nobel “não facilite uma intervenção estrangeira”. “Só o tempo dirá. Se os navios de guerra forem retirados, foi bom. Se levar a atitudes mais radicais, será desastroso”, afirmou.

Além das ameaças bélicas contra a Venezuela, a Casa Branca dobrou a recompensa por informações que levem à captura de Maduro e classificou o ditador como “narcotraficante” e “ameaça à segurança nacional dos EUA”. Ao mesmo tempo, os EUA destruíram quatro embarcações em águas próximas ao país — sem apresentar provas de que transportavam drogas ou de que representavam qualquer ameaça.

O uso do narcotráfico como pretexto para ações militares unilaterais levanta sérias questões jurídicas e diplomáticas. Segundo a Constituição dos Estados Unidos, o poder de declarar guerra pertence exclusivamente ao Congresso. Para contornar essa barreira, o governo Trump notificou o Legislativo de que os EUA estariam em “conflito armado com narcotraficantes latino-americanos”, criando uma base legal duvidosa para operações ofensivas.

Em discurso na ONU, Lula reforçou a posição brasileira de rejeição à militarização da crise venezuelana: “Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento. Outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar”, afirmou o presidente. O Brasil teme que uma escalada militar transforme a região em palco de um conflito internacional, com consequências econômicas, humanitárias e políticas imprevisíveis.

A politização do Nobel agrava ainda mais o quadro. Trump, que fazia campanha aberta para receber o prêmio por sua atuação no conflito de Gaza, foi preterido. Ao premiar uma figura ligada diretamente à oposição venezuelana e apoiada por republicanos influentes como Marco Rubio, o comitê de Oslo envia um recado que pode ser lido, segundo Uchôa, como “um atalho para a influência de Trump sobre a América Latina”.

“Para quem está na Europa, a Venezuela pode ser uma questão menor. Para nós no Brasil, é vital”, resume Amorim, que também foi chanceler e ministro da Defesa. E essa é, talvez, a grande contradição da atual conjuntura: enquanto líderes europeus e premiações internacionais buscam gestos simbólicos, a América Latina se vê novamente diante do fantasma de uma guerra fabricada a partir de Washington — e com aplausos de Oslo.

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