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Relatoria da OEA denuncia censura sob Trump e frustra estratégia internacional do bolsonarismo
Publicado em 15/10/2025 12:43 - Semana On
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“Ótimo. Eu amo Hitler.” A frase, pinçada de uma troca de mensagens no Telegram, não veio de um grupo marginalizado em fóruns obscuros da internet, mas de um dos membros mais ativos dos Jovens Republicanos dos Estados Unidos, ala jovem do Partido Republicano, com integrantes entre 18 e 40 anos. O conteúdo completo dessas conversas, revelado pelo site Público, e trazida ao público brasileiro pelo jornalista Jamil Chade (UOL), expôs não apenas uma retórica de extrema direita, mas uma cultura enraizada de racismo, neonazismo e apologia à violência política no núcleo da base mais radical de apoio a Donald Trump.
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Foram mais de 2.900 páginas de mensagens, trocadas entre janeiro e agosto deste ano, entre líderes estaduais e nacionais dos Jovens Republicanos — muitos deles já atuando diretamente no governo, em gabinetes de senadores e em órgãos federais. As conversas contêm declarações abertamente racistas, misoginia violenta e referências recorrentes a símbolos e frases associadas ao nazismo, como o número “1488”, código reconhecido internacionalmente entre grupos supremacistas brancos.
Em uma das mensagens mais explícitas, Peter Giunta, então presidente dos Jovens Republicanos de Nova York, escreveu: “Todos que votarem não irão para a câmara de gás”. A resposta veio de Joe Maligno, ex-conselheiro jurídico do grupo: “Podemos consertar os chuveiros? Câmaras de gás não combinam com a estética hitlerista.” Já Annie Kaykaty, membro do comitê nacional de Nova York, resumiu o espírito do grupo: “Estou pronta para ver as pessoas queimarem agora.”
Outros nomes citados na reportagem incluem William Hendrix, vice-presidente do grupo no Kansas, que usou insultos racistas repetidamente, e Bobby Walker, ex-vice-presidente do grupo em Nova York, que se referiu ao estupro como “épico”. Muitos dos envolvidos continuam exercendo funções públicas ou partidárias. Um dos membros do chat, Michael Bartels, por exemplo, trabalha no governo Trump, como consultor jurídico sênior da Administração de Pequenas Empresas dos EUA, segundo seu perfil no LinkedIn. Embora não tenha participado ativamente das mensagens mais violentas, não as contestou, nem respondeu aos pedidos de comentário da imprensa.
A revelação lança nova luz sobre o avanço da retórica autoritária dentro do Partido Republicano, especialmente entre sua ala jovem, mais ideológica e ideologicamente leal a Trump. Segundo a reportagem, essas mensagens revelam “uma campanha interna para capturar os Jovens Republicanos e transformá-los numa plataforma radicalmente pró-Trump”, e indicam que o extremismo já não é apenas tolerado — é incentivado.
A banalização da barbárie e o colapso das normas democráticas
O escândalo ocorre em um momento em que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à OEA, lança um raro alerta contra os Estados Unidos. Em comunicado publicado nesta semana, a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão denunciou o que chama de “ambiente inibidor” e crescente repressão à liberdade de expressão no governo Trump — incluindo pressões sobre jornalistas, cortes em financiamentos de mídia, perseguições judiciais a veículos críticos e demissões de profissionais por opiniões políticas.
“A Relatoria expressa sua preocupação com a situação da liberdade de expressão nos Estados Unidos e insta o Estado e suas mais altas autoridades a não abandonar esse compromisso de longa data”, afirma o documento oficial da OEA.
O informe contraria frontalmente os esforços do bolsonarismo em instrumentalizar a CIDH para atacar o governo brasileiro. Desde o início do ano, aliados de Jair Bolsonaro, como Eduardo Bolsonaro, pressionaram o relator Pedro Vaca a incluir o Brasil em uma denúncia de censura, alegando uma suposta “ditadura do STF”. Segundo apuração do UOL, parlamentares bolsonaristas chegaram a chantagear o relator com corte de verbas americanas, caso o informe não denunciasse o governo Lula.
A manobra falhou. O documento final da CIDH não acusou o Brasil, mas voltou sua crítica para os Estados Unidos — particularmente o período de Trump, marcado por ataques sistemáticos à imprensa, ameaças contra jornalistas e tentativas de cercear a liberdade de cobertura. O revés internacional enterra, ao menos por ora, os planos da extrema direita brasileira de obter respaldo externo para sua narrativa de perseguição.
Milicianização política e o uso da força
Enquanto seus aliados mais jovens flertam com o neonazismo, Donald Trump segue apostando na intimidação como método de governo. Em mais um episódio autoritário, o ex-presidente pediu a prisão de dois líderes democratas de Illinois — o governador JB Pritzker e o prefeito de Chicago, Brandon Johnson — por, segundo ele, não protegerem agentes federais de imigração.
Simultaneamente, Trump autorizou o envio de tropas da Guarda Nacional para cidades governadas por democratas, como Chicago e Portland, ignorando a oposição de lideranças locais. A justificativa oficial seria o combate ao crime — embora, segundo dados do FBI, os índices de violência tenham caído desde o pico durante a pandemia de Covid-19.
“Meu objetivo é muito simples. PARAR O CRIME NA AMÉRICA!”, escreveu Trump em sua plataforma.
Entretanto, para Todd Blanche, vice-procurador-geral do Departamento de Justiça, a retórica esconde intenções mais perigosas: “O que está acontecendo agora é literalmente terrorismo doméstico em Chicago”, afirmou à Fox News. Já o governador Pritzker acusa Trump de tentar fabricar um clima de caos para justificar a militarização e alimentar sua base com imagens de confronto.
Uma pesquisa da Reuters/Ipsos mostra que a maioria dos americanos se opõe ao uso de tropas sem ameaça externa concreta, mas o ex-presidente ameaça invocar a Lei de Insurreição para manter o controle — medida usada pela última vez nos distúrbios de Los Angeles, em 1992.
Um projeto de poder autoritário e global
O que se vê é a consolidação de um projeto político autoritário, que combina a radicalização da base com a repressão institucional, nos moldes de experiências históricas que precederam regimes de exceção. A reverência a Hitler entre jovens republicanos não é apenas repugnante — é sintoma de um colapso ético e ideológico dentro do próprio Partido Republicano, hoje capturado por um culto personalista e reacionário.
A denúncia da OEA mostra que a preocupação com a liberdade de expressão já não é exclusiva de países periféricos. A normalização de discursos violentos, o uso da força contra opositores e a tentativa de controlar narrativas por meio de intimidação e censura colocam os Estados Unidos — e seus aliados mais fiéis — diante de um espelho inquietante.
Como lembra a filósofa Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, “a diferença entre governos autoritários e totalitários está na ambição de dominar também a realidade”. As mensagens vazadas dos Jovens Republicanos mostram que, para uma parcela significativa da juventude trumpista, essa realidade já está em construção.
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