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Mundo
Em Berlim, polícia reprime brutalmente mulheres que protestavam contra o massacre do povo palestino
Publicado em 10/03/2025 11:23 - Semana On
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A história não se apaga, e a culpa tem peso. A Alemanha, país que carrega o fardo moral do Holocausto, tem consolidado ao longo das décadas uma aliança inquestionável com Israel. No entanto, essa postura vem acompanhada de um efeito colateral inquietante: a crescente repressão a qualquer manifestação de apoio à Palestina em solo alemão. O episódio mais recente ocorreu no último sábado (8), quando a polícia de Berlim usou de violência para dispersar manifestantes pró-Palestina durante a marcha do Dia Internacional da Mulher.
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Imagens amplamente compartilhadas em redes sociais mostram agentes alemães agredindo ativistas com empurrões, socos e chutes. Segundo informações do portal Bild, o protesto transcorria pacificamente até que algumas manifestantes começaram a entoar slogans antissionistas em árabe – algo proibido pela polícia de Berlim. Foi então que a repressão se intensificou. De acordo com a Al Jazeera, ao menos 28 pessoas foram presas e um policial ficou ferido.
O episódio não é isolado. Nos últimos meses, a Alemanha vem aprofundando restrições a atos pró-Palestina, proibindo discursos e cânticos em árabe e reprimindo qualquer menção ao genocídio promovido por Israel contra os palestinos. Embora não haja uma política formal que impeça manifestações de solidariedade, a prática da censura e a violência policial deixam claro que a narrativa dominante é de sufocamento da causa palestina.
A Alemanha, o Holocausto e Israel: culpa ou cumplicidade?
O peso da responsabilidade histórica alemã pelo extermínio de seis milhões de judeus no Holocausto moldou a política externa do país. Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, a Alemanha Ocidental (e, mais tarde, a unificada) tornou-se um dos principais aliados do governo israelense, fornecendo apoio diplomático, financeiro e militar. Como destaca o historiador Tony Judt, no livro Postwar: A History of Europe Since 1945, “para os alemães, Israel se tornou não apenas um parceiro estratégico, mas um símbolo de sua redenção moral”.
O problema é que essa redenção se traduziu, ao longo dos anos, em uma defesa incondicional de Israel, mesmo diante de crimes de guerra e violações de direitos humanos. Qualquer crítica ao governo israelense tende a ser confundida com antissemitismo – uma associação perigosa que deslegitima o debate sobre os abusos cometidos na Palestina.
O filósofo Slavoj Žižek já alertava sobre esse fenômeno: “Não podemos permitir que a memória do Holocausto seja usada para justificar novos crimes. O sofrimento de um povo não pode servir de desculpa para infligir sofrimento a outro” (Like a Thief in Broad Daylight: Power in the Era of Post-Human Capitalism).
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O silêncio conveniente da Europa
A repressão vista em Berlim reflete uma tendência mais ampla na Europa, onde governos, sob o pretexto de combater o antissemitismo, vêm silenciando qualquer crítica a Israel. Na França, o presidente Emmanuel Macron já afirmou que “o antissionismo é uma forma moderna de antissemitismo”, criminalizando, na prática, discursos que questionem a ocupação israelense. No Reino Unido, grupos de defesa dos direitos humanos enfrentam dificuldades para realizar manifestações públicas sobre a situação na Faixa de Gaza.
Essa postura revela um duplo padrão: enquanto governos europeus se apressam em condenar violações de direitos humanos em outros contextos – como a invasão russa à Ucrânia –, há um silêncio ensurdecedor quando se trata das atrocidades cometidas por Israel.
Em Gaza, desde o início da ofensiva israelense em outubro de 2023, mais de 30 mil palestinos foram mortos, segundo dados da UNRWA (Agência das Nações Unidas para Refugiados Palestinos). A destruição de hospitais, escolas e a fome generalizada são consequências de um cerco que muitos especialistas classificam como genocídio. O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) já emitiu uma decisão reconhecendo que há indícios plausíveis de genocídio em curso, mas a reação de países europeus segue marcada pela conivência e omissão.
Repressão às mulheres no Dia Internacional da Mulher
O fato de a repressão em Berlim ter ocorrido justamente no Dia Internacional da Mulher adiciona um elemento simbólico ainda mais grave à violência policial. O protesto, intitulado Until Total Liberation (“Até a libertação total”), reunia diversos coletivos feministas e LGBTQIA+ que denunciavam não apenas a opressão do povo palestino, mas também o papel da militarização e da violência sexual em conflitos armados.
O grupo Palestinians and Allies relatou casos de manifestantes sendo retiradas à força da multidão, jogadas ao chão, algemadas e imobilizadas com brutalidade. Em um dos episódios, uma mulher da comunidade FLINTA (sigla alemã para mulheres, pessoas lésbicas, intersexuais, não-binárias, trans e agênero) foi arrastada por policiais e pressionada contra um arbusto por vários minutos.
Se a Europa se orgulha de seus valores democráticos e de sua defesa dos direitos humanos, por que permite que sua polícia espanque mulheres em um protesto pacífico? Se a Alemanha tanto se empenha em combater a intolerância, por que criminaliza o direito de manifestar solidariedade à Palestina?
Culpa não pode ser passaporte para impunidade
O passado não pode ser usado como justificativa para novos crimes. O Holocausto foi uma das maiores tragédias da humanidade e sua memória precisa ser preservada para que jamais se repita. Mas isso não pode significar a legitimação de atrocidades cometidas pelo Estado de Israel contra palestinos.
A filósofa Judith Butler, em Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism, defende que a luta contra o antissemitismo não pode ser usada para silenciar a crítica ao sionismo: “Precisamos reconhecer que os crimes do passado não podem se tornar uma desculpa para o apartheid e a violência do presente”.
Se a Alemanha deseja, de fato, honrar sua responsabilidade histórica, deveria liderar os esforços para um cessar-fogo em Gaza, exigir o fim da ocupação israelense e garantir que a solidariedade à Palestina não seja criminalizada. Do contrário, continuará a carregar não apenas a culpa pelo passado, mas também a cumplicidade com as injustiças do presente.
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